Não Existir Para Ninguém

O que fizemos e fazemos dos nossos velhos?

Tenho tido um tempo interminável para assentar algumas ideias acerca do problema geral da divina invisibilidade particular de cada qual, sobretudo ao olhar para algumas emanações do último Censos 2011. O envelhecimento da população. Está à vista o problema de décadas de corrupção e decrepitude políticas: lá, onde as infraestruturas foram feitas, feitas duas vezes, feitas três, feitas a rebentar de luxo e redundância, as nossas gentes, os nossos velhos, os nossos!, foram envelhecendo, foram-se isolando, numa pobreza igual, pacata, horrorosa, remetendo-se a uma invisibilidade acusadora. Com reformas de duzentos e picos, ou Estado Social-Manguito!, não podiam competir com os Elefantes Brancos que os Governos, de pau feito para outros negócios de suculento retorno comissionista e eleitoraleiro, sempre priorizaram. Assim, por todo o Portugal, nasceram-nos ilhas de velhos esquecidos de todos, sobretudo dos próprios filhos, três, quatro, que deixaram completamente para trás o terem tido um pai, o terem tido uma mãe. Se isto, em Portugal, fosse um caso isolado… Não é. Parece regra. Gente enterrada e relegada pelos seus muito antes de morrer. Em plena cidade. Em plena aldeia. Conhecemos casos. Esquecidos. Impedidos de netos, de um beijo, uma palavra quotidiana. E, no entanto, sem eles nunca poderíamos sequer começar por Ser.  

Se comemos pão alguma vez, se nos aquecemos, foi por eles, por causa deles, pelo seu trabalho, pelo seu zelo. Ninguém constrói o Ser por si só. Somos herdeiros uns dos outros e essa construção de vidas entrelaçadas, próximas, cúmplices, foi rompida em Portugal a um grau difícil de descrever. O nosso desfalecimento enquanto Povo começou por aí e esta Crise Complexa Nossa Mundial-Conspirativa agudizou-se-nos por aí também. O velho do Pingo Doce a que ontem aludi não tinha mesmo mais dinheiro. Na palma da mão, apenas aquelas moedas contadas. Confrontado com o preço efectivo do artigo que confundiu, não foi ao bolso acrescentar o que lhe faltava, fez sentir à menina da caixa querer trocar aquele item por outro mais barato, o que impedimos. Via-se bem, pelo vestuário e pelo aspecto, a que indigência e melancolia se abandonava. «Quem cuida de ti, avozinho?»

Gente! Devemos-lhe tudo. Mesmo que não tenha escrito nem musicado nem poetado, quanto mais tendo-o feito rica e abundantemente, as nossas vidas e personalidades são o efeito e a safra do espírito e suor de todos os que nos precederam no tempo e nos legaram Belo, Experiência, um Mar de Ânsias. Olho a minha freguesia secular, particularmente nos lugares ainda com marcada traça medieval por onde passo a arfar, e reconheço no mais fundo de mim pisar o mesmo solo onde outros sonharam, conduziram ao longo de séculos, juntas de bois, carregadas de milho, pasto, filhos.

Penso, portanto, nas pessoas que não conheço, vivas e trancadas no calabouço das suas casas e das suas fomes. Penso nas pessoas que não conheço, mortas, cujos corpos se dissolveram há muito no nosso cemitério. Mas como as pressinto! Nunca me conheceram. Pois bem, tenho hoje um impulso de gratidão a quantos me amaram e existiram sem que me apercebesse ou isso calasse fundo cá dentro todos os dias. Não ignoro quantas sombras deslizam ainda, soberanas, encostadas a rendimentos ridículos num País que escolheu ter mais estradas e mais paquidermes de betão. Um País que tolerou ilusões e optou por esbulhar do mínimo de dignidade este exército de esquecidos que deveria ser o centro do nosso afecto e sentido de gratidão, pelo menos desde que a Democracia nos foi Aparição, afinal espezinhada, e Desígnio de Justiça, na maior parte traído.

Comments

  1. patriotaeliberal says:

    Reconheço que tentas ser eclético nos teus posts e nas tuas análises. Na minha opinião, estás longe disso. O teu discurso argumentativo e linguístico é mais esquizofrénico e bipolar do que o desejar ser-se “espírito livre”, do “centro”, da “pluralidade e não unanimismo”.

    Das caralhadas, passas para os idosos e para um discurso que fará alguns olhos marejarem-se de lágrimas contidas. Ou não.

    Afirmas em post anterior que não te interessa se o Vitor gaspar acerta nas previsões ou não. O que desejas é unidade e solidariedade.

    Esqueces-te que a situação que apresentas se está a deteriorar, com mais pobreza- não só entre os velhos – mas também entre as crianças e os jovens.

    Podes continuar a pagar o sumo light ao idoso nos hipermercados para aliviares a tua consciência. Até um dia em que tenham de fazer o mesmo por ti, mais tarde pelos teus filhos e pais. E nessa altura talvez te preocupes mais com quem dita e implementa as regras indigentes com as quais temos de viver e que têm provado serem anti sociais e criminosas.

  2. patriotaeliberal says:

  3. patriotaeliberal says:

    “e reconheço no mais fundo de mim pisar o mesmo solo onde outros sonharam, conduziram ao longo de séculos, juntas de bois, carregadas de milho, pasto, filhos.”

    palavrossaurius, hoje

    “Para o chefe de Estado, “nunca Portugal precisou tanto da agricultura e do mundo rural para, como hoje, conseguir vencer a crise económica e social” que o país atravessa.
    Afirmando que a agricultura portuguesa é “a mais envelhecida de toda a Europa” e daí a necessidade do apoio ao seu “rejuvenescimento”, o Presidente da República sublinhou que não se pode “desperdiçar os apoios específicos” que a comunidade europeia oferece aos jovens desta área.”

    Cavaco Silva, hoje

  4. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Sim sem eles não poderíamos ter sido o que somos mas no tempo do produtivismo consumismo não há termo para pensar de onde vimos e o que fizemos ao nosso socio-cultural e afectivo – Vou ouvir Joana Carneiro a maestrina no programa “de Caras” – RTP1 – ora bem já vi há tempos um belo programa com ela e seus pais e a dirigir a orquestra com postura muito bonita e elegante – não era o maestro Bernstein (nem os concertos com Karayan nem mesmo os epectáculos e ópera dos 3 tenores) que eu e meu irmão adorávamos e víamos na TV uma vez por semana e durante muitos anos quando havia TV pública com preocupações culturais (incluindo teatro e ópera e ballet) e quem fazia os programas (quem não se lembra do Se bem me Lmbro de Vitorino Memésio e de Freitas Branco) mas logo foi assaltada pelo LIXO mais lixoso das marias brasileiras da Globo que fizeram para sempre e durante dezenas de anos, baixar a qualidade cultural do meio de comunicação informativo e formativo das massas e que na cidade e no campo se via – e não havia politólogos – e havia ainda aquele magnífico pograma semanal de agricultura do meu colega – ai como se chamava TV RURAL ?? – Meter LIXO na cabeça dos portugueses nem do tempo de Salazar – Não precisei de ir ao S.Carlos para ver dançar Nureyev nem Caballé nem Pavarotti nem a Cª Verde Gaio da Gulbenkian – vi na TV antes de os ver no Coliseu e S. Carlos ou Gulbenkian que não deixavam de estar cheios de espectadores por serem exibidos até em directo das salas culturais do meu pais lisboeta – os actuais agentes culturais são filhos dos patos bravos enrquecidos no cavquimo a fazer IPS e OPúblicas com adiconais que levarvam as obras a serem 50 vezes mais caras do que o previsto nos Cadernos de Encargo (CE) que usam gravata de seda natural mas não tinham um monte de merda no lugar do cerebêlo como têm hoje – E tl que quando via TV na Suissa ou USA ou Paris ficava muito admirada porque em nada superavam os programas dos 2 canais porrugueses – e nem havia ainda 4 canais e aperecendo a SIC apareceu também muito lixo e ordinarice que felizmente emendou a mão e muito menos havia o TVi24H – actualmente é como despejar o penico da janela por cima de quem passa pois que ainda havia “penico” alguns bens belos da Vista Alegre – a década do avaquismo foi a década que conspurcou o país e nem sei porque ninguém se queixa da incultura e alienação que se oferece e a TV não é de borla – pagar para ter “merda” meus senhores é por isso, também, que os actuais meninos de 20 anos já préuniversitários nem sabem quem é orlando Ribeiro nem Telles nem Pavarotti nem o Harkness Ballet (tempo de salazar aida alguns e mandado por na fronteira não pela sua qualidade cultural, mas por ter dado bocas políticas contra a ditadura – e havia fado e cavalos e cavalidades mas hoje ficou apenas o esterco dos cavalos – portugal enlouqueceu na década de 80 ++++++++++++++++++++++++ etc e nunca houve tanta inflacção de universidades privadas as tais que têm preço por aluno inferior à pública – esta atitude é mais uma vez despejar o conteúdo dos penicos na cabeça dos que aqui estão e construiram o pais cultural e económico – Qudno aderi à greve de abril 1962 (0s cagões dos intelectuais só falam no maio 68) Em todos os pilares do pátui do Instituto Superior de Agronomia desenhámos uma SANITA onde caíam milhões de palavras e expressões indefenidas – em 1962 – Sampaio foi para à prisão por uma horas – queminiciou tal greve foi agronomia e direito que logo se espalhou a Coimbra – agora só há greves de transportes e da TAP e para aumento de salários e nada contra, mas nunca mais houve greves para exigir qualidade de ensino e cultura para todos – Até aí se vê o declínio das aspirações dos habitantes em geral e dos urbanos em especial -Para não falar em quem e como deu cabo de agricultura e pescas e barcos e indústrias agroalimentares e serviços derivados e sucedâneos de armazenamento transporte e distribuião – o desmantelar de toda a estrutura interdisciplinar do tecido produtivo – mas entretanto há cada b«ez mais incapazes a ter ordenados/mês de milhares para destruir de que o exemplo de que mais gosto é Albero João Jardim que fez do fnchal um espaço vulgar que era invulgarmente velo (cnheço desde 1971) – e tudo arde desde o Gerês à mata do norte e das Beiras e do Algarve que não me lembro de algum dia ter ardido e tem (tinha) os melhores sobreiros de cortiça especial que era a usada para as rolhas do champanhe fracês) – e nem fogo havia senão o que era mais do que normal – porque o fogo é natural e em certas circunstância até regenerador – não esqueçamos o Fogo diabólido do PN de Yellowsote que os técninos deixaram arder controladamente e recupararam flosa antiga desaparecido e animais como o lobo, desaparecido – mas o fogo em portugal é outra coisa como o crime das casas de alterne e dos meninos brasileiros criminosos e assaltantes de joalharias e caixas multi-banco – a degradação do país de onde virá ?? Não é apenas da abertura das fronteiras de Schengen – e os dramas escolares de hoje como nunca houve assim ?? – os professores são todos anormais e os alunos também e andam à porrada a professores e pais ?? E os mninos de Coimbra que transformaram a queima das Fitas em vergonha nacional a superbock aproveitou e bem ?? até ao como alcoólico ?? ai a liberdade é tão bonita quaundo a libertinagem não lhe toma o lugar – Ontem vi pela 2ª vez um prorama que nem acabei – a proibição nesses países do norte exemplares em que é proibido dar tapona nos meninos nem no rabo – a ponto de haver telefone em que os meninos fazem queida dos pais a quem depois os filhos são tirados e vão para instituições (os filhos) e os pais entram em grande depressão prque nem podem educar nem bem nem mal – é digno de se ver – nem gritar se pode – eu acho que não é preciso nem gritar b«nem bater mas aqui quem vai ao psiqiatra são os pais – os meninos são uns ditadores aida mais violentos do que são muitas crianças em geral – tapona na cara não mas tapona no rabo dá ajuda à mem´+oria de meninos mal educados e que saem fora da carroça – José Gomes Ferreira.sic-23:01H – não quero ouvir mais falar sobre troikas – só um país deincapazes admite uma troika a governar – aqui sim que vergonha das maiores – pior do que a invasão dos filipes – a UE rubou o que quiz e a troika vem ver se fica algo para depois levarem depois de levarem o dinheirop a taxas imorais – que vergonhosa europa

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