O romance do Raposo

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Henrique Raposo irá, decerto, propor, numa próxima revisão constitucional que a realidade, a crise e a bancarrota passem a ser consideradas extremamente constitucionais e que as pensões e os direitos adquiridos, devido ao seu “peso brutal”, sejam declarados inconstitucionalíssimos. Enquanto tal não acontecer, o mesmo cronista não hesitará em declarar inconstitucional a própria Constituição, o que, a ser confirmado pelo Tribunal Constitucional, será facto inédito num Estado de Direito.

No fundo, Henrique Raposo acaba por repensar o aforismo “A lei é dura, mas é lei”. Para ele, a lei não é suficientemente dura, inferindo-se, portanto, que não pode ser lei. Para o corajoso cronista, a Constituição é, portanto, mole. Ergo, a Constituição é inconstitucional.

Para Raposo, só quando for possível limpar a Constituição das molezas que a afectam será possível resolver a crise, a bancarrota e a realidade, porque todas as três são consequências dos “tais “direitos adquiridos” de partes da população”, direitos esses tornados intocáveis por uma lei praticamente ilegal.

(A expressão “partes da população” faz-me lembrar as calhandreiras de bairro, quando se referem a uma pessoa perfeitamente identificada, usando um plural desdenhoso como “certas e determinadas pessoas”, descendente de um “Cala-te, boca!” já menos usado, mas igualmente castiço.)

Não fosse, portanto, a teimosia birrenta da inconstitucional Constituição, a crise já estaria resolvida, porque seria possível “tocar estruturalmente na despesa”, ou seja, atacar corajosamente a brutalidade inerente às pensões e aos salários de certas e determinadas pessoas.

E onde estão, no dizer do certeiro Raposo, essas pessoas? Num espaço edénico, tão livre de impostos como Adão e Eva do pudor, como se pode perceber quando se sabe que o regime, manietado pela Constituição,  «lança mais impostos sobre a sociedade que produz e que está lá fora, fora do espaço dos “direitos adquiridos”.»

Desde há vários anos, certas e determinadas pessoas pertencentes a partes da população que vivem empanturradas de direitos adquiridos têm-se visto privadas de rendimentos, de direitos e de empregos. Curiosamente, o défice aumenta e a economia estagna. Não se dará o caso de o regime andar a cortar onde não deve, continuando a não cortar onde deveria? Não dá a impressão de que, entre opinantes e economistas, a direita se comporta com o País como os médicos de séculos passados, que receitavam sangrias, à vista de qualquer doença ou indisposição, com resultados por vezes trágicos?

De qualquer modo, não me espanta que Henrique Raposo se indigne com a Constituição. Está a defender os da sua espécie, que odeiam, naturalmente, as redes e os cadeados dos galinheiros.

Comments

  1. Fernando says:

    Henrique Raposo, apenas um cripto-facho pouco remotamente engraçado. O betinho tem cara de que não sabe o que é trabalhar, vá lá, tem o tio Balsemão a dar-lhe uma mesada para que juntamente com outros comentadores do pasquim, escrevam umas coisas quaisquer…


  2. O texto é realmente muito bom. Mas diga-me lá, desde quando é que isto são políticas de direita? E esses médicos eram de facto médicos, ou eram como se designa aquelas pessoas que limpam o sarampo a outras. Vá lá, não se acanhe e diga as palavras correctas, chame os bois pelos nomes. Direita já era, já passaram aqui dois foguetões ou três que já passaram o nível. Abraço.

  3. ferpin says:

    brilhante e certeiro

  4. murphy says:

    O Raposo, e outros que tais, são uns mal agradecidos, nem se apercebem da tolerância que este pais socialista tem para com as suas ideias e dislates! Para os que se esqueceram ou desconhecem, a nossa Constituição começa assim…
    “A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português…”

    Basta ler o preâmbulo da CRP, para concluir que, cada dia com um governo não socialista, é um dia ferido de inconstitucionalidade!

    http://jornalismoassim.blogspot.pt/2013/03/expectativas-constitucionais-vs.html

  5. AACM says:

    O romance do Raposo…..MUITO BOM………..A treta do Nabais…..MUITO MAU.


  6. ACHO BEM , DEVEMOS RETIRAR OS DIREITOS E O DINHEIRO A TODA A GENTE PARA DAR AOS COITADOS DOS CORRUPTOS DA POLÍTICA , QUE NEM NOS EXPLORANDO E ROUBANDO , CADA VEZ , MAIS ESTÃO SATISFEITOS É ASSIM
    O SOCIALISMO E TODAS AS IDEOLOGIAS , QUE SÓ SERVEM PARA INTRUJAR O
    POVO . É A CONSTITUCIONALIDADE DA INCONSTITUCIONAL CONSTITUIÇÃO .


  7. Daí se infere que esse tal de raposo que tenho a felicidade de não conhecer dedica-se ao ofício da calhandrisse que existia em Lisboa pela ausência de saneamento e pela abundância de escravas africanas…

  8. Luís says:

    Concordo com o Raposo … esta coisa dos direitos adquiridos tem de acabar … como as rendas das PPPs, dos custos de contexto pagos pelas empresas e pelos cidadãos à EDP, dos impostos escondidos que os portugueses pagam à PT através da TDT que sabe-se hoje, não cobre 40% das TVs depois do apagão do analógico.
    Mais grave ainda são os direitos adquiridos que os portugueses têm de verem garantidos os seus depósitos bancários, não podendo os banqueiros recorrer a eles para cobrirem alguns negócios “arriscados” que fizeram com amigos!
    Tudo isto só é possível porque temos uma Constituição anquilosada que coloca fora da lei um governo de boas e honestas pessoas que só querem o bem do país!

Trackbacks


  1. […] É claro que isso implicaria perder algum tempo a pensar e, até, a sentir, duas actividades de que Raposo prescinde, porque, de outro modo, não poderia ser o cronista orgulhosamente marialva que é. […]

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