Coimbra não é uma lição

coimbra

Mais emblemática e conhecida, a demolição de todo um bairro, incluindo diversos colégios universitários, para construir uma obra prima do mamarrachismo chamada universidade do Estado Novo, não é filha única de uma cidade cuja história se caracteriza por isso mesmo: demolir.

Tivemos uns séculos de presença árabe: não sobra um calhau. O espaço mais simbólico da fundação de Portugal, o Mosteiro de Santa Cruz, levou no século XVI com um camartelo que destruiu, por exemplo, o espaço onde o primeiro rei se quis sepultar. Outra torre, já no século XX, foi derrubada antes que caísse em cima de um passante.

Do castelo procuram-se vestígios entre o casario que levou em cima. Igrejas arrasadas, ou transformadas em mau gosto revivalista como S. Tiago, são ao pontapé.

A cidade que nasceu de uma ponte sobre o Mondego, e recebeu nome de um bispo foragido, é agora, em parte, património mundial, diz a Unesco. O nosso melhor edifício universitário, o Colégio da Sapiência, de S. Agostinho ou dos Órfãos não conta, o maneirismo deve ficar mal nas fotografias.*

A parte chama-se Universidade de Coimbra. Às vezes gosto de imaginar como seria um sossego a minha aldeia, sem a dita ter vindo para aqui de vez num dia em que João II se vingou sabe-se lá de quê.

Mas nada  iguala o Mondego, rio da minha aldeia, muito menos o Tejo, nem a aldeia chamada Coimbra. É a minha aldeia, e a partir de agora património mundial,  vai dar-lhes mais trabalho dar cabo dela. E sim, estou contente, parabéns a todos os que se esforçaram por isso, e vou fingir que não me lembro de todo o seu património destruído.


* Afinal dizem-me que está, embora não conste de um folheto distribuído à população.

Comments

  1. Tiago Ferreira says:

    …e dá muito jeito a alguém o sedativo – “tomem lá um rebuçado (rebomdego não soava bem) e agora calem-se “

  2. Tiago Ferreira says:

    Se puxarmos pela memória, ou pesquisarmos, vamos ver-
    quantos pedidos pendentes há 15 ou 20 anos, ou mais, foram respondidos nos últimos 3 , ou 4? estou só a atirar para o ar…nada de científico…

  3. xico says:

    Estou de acordo com o que diz no que respeita aos edifícios universitários sobre a destruição da alta, e da demolição da sacristia de S. Tiago para alargamento da rua. Mas todas as cidades sofrem transformações ao longo da sua história e não queria, concerteza, que a sua aldeia estivesse igual à medina moura (só para chatear vai dizer que sim).
    Pior é ver a quantidade de licenciados e mestrados que saem de Coimbra sem a conhecerem, sem nunca terem passado pelo Quebra Costas ou o palácio de sub-ripas, e não conhecerem quem viveu na torre de Anto, e já não se embedarem nas tabernas da baixa à beira da frigideira dos jaquinzinhos ou no Manel dos ossos. Já nem falo do túmulo do nosso fundador…


  4. Eu também acho que é uma pena que em Coimbra, a cidade onde D. Afonso Henriques estabeleceu a sua corte nos inícios da década de 1130 (note-se: logo a seguir a São Mamede e antes da aclamação de Ourique; foi em Coimbra que ele se decidiu estabelecer, assim que assumiu o poder do Condado Portucalense), acho que é uma pena, dizia eu, que não haja um vestígio que seja da alcáçova moura. Porque essa alcáçova moura foi a primeira corte portuguesa, até D. Afonso III decidir estabelecer-se em Lisboa (aliás, noutra alcáçova moura, que ainda não se chamava castelo de São Jorge, mas, apenas, Alcáçova de Lisboa).

    • xico says:

      Não faço ideia, mas estando o museu Machado de Castro sobre um enorme pórtico do período romano, é possível que a alcáçova se situasse onde hoje é o Paço das escolas?! Também é preciso ver que Coimbra foi conquitada aos mouros por Fernando, o Magno, quase 100 anos antes de Afonso.


      • A alcáçova situar-se-ia no ponto mais alto da cidade, sim. Se se fizessem escavações, haveria de se encontrar alguma coisa, mas isso implicaria, por sua vez, danificar, ou mesmo destruir, mais edifícios.
        Sim, Fernando Magno conquistou Coimbra no século XI, mas a alcáçova terá perdurado durante a época medieval portuguesa (com alguns melhoramentos e alterações por parte dos reis de Portugal, por estragos que o tempo ia infligindo).


    • A alcáçova esta hoje bem estudada, houve trabalho arqueológico e há uma excelente tese de doutoramento publicada: “A Morada da Sabedoria” do meu caríssimo colega António Filipe Pimentel.
      A rigor calhaus até sobram, e um que foi dado por visigótico e estava bem visível até pode ser posterior.
      Os cubelos que vemos na muralha Norte pertencem a essa primeira edificação, que cortava o actual Pátio das Escolas sensivelmente pela linha que separa a Capela de S. Miguel da Biblioteca Joanina.


      • Muito me diz, João José. Confesso que não conheço Coimbra muito bem, só de visita, e a última foi há uns sete ou oito anos. O que eu sei sobre a alcáçova foi lido em livros de História, relativamente recentes (talvez dos anos 1990). Fiquei interessada nessa tese de doutoramento.

  5. xico says:

    O que me parece é que o pátio das escolas é um aterro. Julgo ter havido há pouco tempo escavações nesse local, ou estou enganado e a fazer confusão?

  6. António Duarte says:

    Na fachada norte do que hoje é universidade e antes foi paço real é ainda visível a estrutura da alcáçova, que foi a construção primitiva:
    http://www1.ci.uc.pt/prospecto/gifs/fotos/alc_real.jpg

    Já o castelo de Coimbra, demolido na época do Marquês de Pombal, esse outro iluminado, ficava mais ou menos por aqui, nesta desinteressante praça da cidade universitária salazarista:
    http://farm9.staticflickr.com/8104/8475416803_5cc79ab54f_z.jpg

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