O presidente de alguns portugueses

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A decisão de Cavaco é aceitável. Encarregar de formar Governo o líder do Partido mais votado, mesmo que não se concorde, é uma solução normal.
O discurso, esse, é completamente inaceitável. O presidente da República de todos os portugueses faria este discurso. Mas Cavaco nunca foi o presidente de todos os portugueses e, como tal, entendeu que seria o momento mais adequado para atacar selvaticamente uma parte do eleitorado que, apesar de tudo, representa 20% dos portugueses que votaram. Não lhe bastava dizer que dava posse a Passos Coelho porque a Coligação teve mais votos, era-lhe necessário demonizar o Bloco de Esquerda e o PCP e entrar num registo de «líder de facção» que chega a apelar à rebelião de deputados eleitos. Esquecendo-se que aqueles que não votaram nele são tão portugueses como os seus portugueses.
Se eu fosse deputado socialista e estivesse tentado a deixar passar o Programa do Governo PSD, ontem tinha mudado de opinião.
Nos últimos anos, Cavaco andou a encher a boca de bolo-rei e de estabilidade. Engoliu um e outro com a mesma convicção. Vê-se agora, ao preferir dar posse a um Governo minoritário e ao humilhar uma franja importante do eleitorado, o que ele pensa da estabilidade. Pensa, obviamente, aquilo que der mais jeito aos seus portugueses.
Seja como for, os dados estão lançados e, agora, chegou a hora da Esquerda. PS, Bloco e PCP devem votar contra o Programa de Governo sem qualquer hesitação. Mais: devem apresentar uma alternativa maioritária sólida que garanta a estabilidade parlamentar e um Programa de Governo que diga, preto no branco, que Portugal não vai sair da NATO nem da Zona Euro, que reconhece o Tratado de Lisboa, o Tratado Orçamental, a União Bancária e o Pacto de Estabilidade e Crescimento.
Só para ver quais os argumentos que Cavaco vai utilizar a seguir para manter Passos Coelho no poder.

Comments

  1. antónio says:

    Essa do “presidente de todos os portugueses” é uma treta (desculpe-me a linguagem). Ele foi eleito por sufrágio directo universal. Tem a sua própria legitimidade política. Decide de acordo com a sua consciência. E disse o que (imagino que não estarei muito longe da verdade) pensam os que nele votaram. Ou o Presidente só é “presidente de todo os portugueses” se dissolver uma assembleia com uma maioria absoluta de direita? E se descartar 20% do eleitorado é mau, ( eleitorado esse que nas anteriores eleições não chegou aos 15%) o que diz de descartar 40% do eleitorado (que nas anteriores eleições foram mais de 50%) que votou na coligação?

    • António Fernando Nabais says:

      Por acaso, o texto pareceu-me claro: o problema não está em dar posse a quem teve 40% dos votantes, mas em o Presidente da República ter criticado partidos que representam 20%. Já agora, o facto de os primeiros terem alcançado a maioria absoluta pertence ao passado.

    • Helder P. says:

      O PSD e o CDS-PP irem para a oposição não tem nada a ver com o “descarte” bem mais grave que Cavaco tenta fazer com o PCP e BE.
      Ao Cavaco, faltou pouco para ilegalizar esses partidos e remeter os comunistas de volta à clandestinidade. Pelo caminho, retirou a mim e a mais de 1 milhão de eleitores os direitos políticos de voto em forças que nos representem. Porque sim, eu voto há alguns anos à esquerda do PS com a esperança que um entendimento para governar fosse um dia possível. Não é só para protestar.
      Todos os partidos com assento na AR, tem direito a apoiar soluções de governo. E não cabe ao presidente fazer julgamentos e avaliações sobre a qualidade do programa defendido por cada um deles.

      • joão lopes says:

        parece-me que o cavaco foi bem claro:proibiu soluções governativas onde estejam pcp ou be.já para não falar do apelo dele a um golpe de estado…no ps.a “democracia” em Portugal “existe” se for apenas com o psd no governo.o resto foi mandado para o lixo(cerca de 50% do eleitorado)