Carta do Canadá: Não se pode ignorar

Autor desconhecido

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As televisões canadianas passam, diariamente, documentários da situação no Médio Oriente e na Europa. Quase todos com uma minúcia e um realismo que chega a ser insuportável à vista por terem dimensão apocalíptica. Pergunto a mim mesma, com inquietação crescente, se não estamos a assistir ao renascer do ovo da serpente perante a indiferença e o desinteresse dos povos cansados de má política. O nazismo e o fascismo não se implantaram de repente, na Alemanha e na Itália, passearam-se em manifestações por alguns anos, fizeram desacatos, puseram bombas, mataram pessoas, formaram partidos, foram a eleições. Deu mais do que tempo para as pessoas os travarem. Parece que só acordaram quando se consumou a tragédia em que morreram milhões de pessoas.

O que se está a passar em vários países da União Europeia (UE) é alarmante. De repente, por ricochete das más decisões do chamado Ocidente que levaram o Médio Oriente a ficar ensopado de sangue e fome, milhões de desesperados fugiram da guerra e encheram os campos do Líbano, da Jordânia e da Turquia. Por uma propaganda sabiamente manipulada, sabe-se lá por quem, essas multidões convenceram-se que o seu El Dorado seria a Europa do Norte e do Centro. Puseram-se ao caminho com a loucura que o desespero dá: a pé, por milhares de quilómetros, ou em barcos precários providenciados por passadores ávidos de lucro mas sem coração que fizeram do Mediterrâneo uma enorme sepultura. Em poucas semanas vários países da UE viram-se positivamente invadidos por multidões exaustas, famintas, doentes, desunidas. E foi o caos. Visivelmente, a UE não tinha meios, organização, competência e unidade para resolver este problema humanitário. Angela Merkel, tão desejosa de melhorar a imagem da Alemanha depois do ataque desaforado que fez à Grécia, não teve visão de estado, não soube avaliar a amplitude do desastre, deitou mão do populismo e escancarou as portas. Está agora a braços com uma oposição crescente à sua permanência no governo, dá o dito por não dito, prepara-se para deportar um número substancial de refugiados. O mesmo vão fazer a Suécia, Dinamarca, Holanda, Finlândia. E como é apanágio de incompetentes, apontam o dedo acusador à Grécia, porque tem compaixão dos desgraçados e os deixa entrar nas suas ilhas. Mais: ameaçam a Grécia de retaliação por parte da UE.

É curioso, a UE não condena os países governados por gangs que espremem os povos através dos impostos, que levam países à penúria e ao sofrimento que se deixa revelar nos números dos que se suicidam e dos que emigram. A UE, dirigida por Merkel e outros que nunca foram eleitos, só espezinha os mais fracos e pobres, mas faz vista grossa ao que se está passar nos países acima referidos.  Nos dias que correm, bandos nazis desses países incendeiam habitações dos refugiados, fazem-lhes esperas para espancar, compram cada vez mais armas para enfrentar os estranhos. A Dinamarca tira-lhes o dinheiro e jóias que possam trazer. Dir-me-ão: estão a defender-se, porque vários refugiados violaram mulheres europeias, porque têm feito alguns desacatos e violências nos lugares onde vivem. É verdade. Mas não são todos nem em grande número, os casos verificados são casos de polícia a exigir mão pesada.  E quem faz o favor de me ler lembrará que, entre os milhões de desesperados, entraram terroristas do maldito Califado.  Concordo. Mas a tarefa de peneirar a multidão, de separar o trigo do joio, incumbe às polícias. Ninguém tem o direito de fazer o justo pagar pelo pecador.

Criticar o que se está a passar na direcção da UE não é estar contra a UE.  Pelo contrário, denunciar toda esta lástima é dever dos que querem a paz na Europa. Haja dirigentes de vários países que se juntem e ponham termo a esta direcção com tanto de incompetente como de pouco séria.  David Cameron, primeiro ministro da Inglaterra, é um bom exemplo.

É chegada a hora se as pessoas acordarem e exigirem dos seus governantes que ponham os pontos nos ii em Bruxelas. É tempo de as pessoas não reagirem passivamente à subserviência duma comunicação social que, salvo honrosas excepções, está nas mãos de grupos económicos gananciosos, sem alma nem moral.

Comments

  1. Ana Moreno says:

    fleitao, quando escreve sobre o Canadá escreve com mais conhecimento de causa. Não me parece que esteja a ver bem o filme quanto a Merkel no que toca aos refugiados, não sei que comunicação social é que leu sobre isto. E que “David Cameron, primeiro ministro da Inglaterra, é um bom exemplo”, não percebi, um bom exemplo de quê? Neste momento anda a impor condições especiais para o Reino Unido quanto a prestações sociais para emigrantes, furando aquilo que são princípios centrais da UE. E se há amiguinho declarado de “grupos económicos gananciosos”, é ele mesmo. Mais neoliberalismo na UE, pois então!

  2. Fernanda Leitão says:

    Muito obrigada. Ana Moreno, pela atenção que deu ao meu escrito.
    Como creio que deve saber, quem quer que esteja ligado ou tivesse estado ligado à comunicação social, sobretudo agências noticiosas internacionais, fica para sempre com o hábito de ver e ouvir noticiários de vários países, assim como os respectivos comentários. É o nosso caso no Canada, país que tem pessoas provenientes de 190 países. Portanto, com comunicação social de origem variada para satisfazer as várias comunidades emigrantes. Eu, como milhões de emigrantes vindos de vários países para o Norte da América, tomo como correcta a imagem que nos projectam . Acresce que conheço a Europa menos mal e tenho amigos de toda a vida na Alemanha e na Áustria, alguns deles na comunicação social. São óptimos a tirar dúvidas.
    Angela Merkel, que tão cruel e injusta foi com a Grécia, perdeu o pé nesta questão dos refugiados porque é de mentalidade estreita, não tem estatura de estadista. Só assim posso entender que ela não tenha avaliado a situação dos teatros de guerra e se tenha convencido que, quando muito, à Alemanha chegaria perto de um milhão. E, mais uma vez, foi autoritária e arrogante: tomou como coisa certa que cada país ia receber um bom lote de refugiados. É não ter percebido que o vento mudou. E a situação é o que é: um charco estagnado. O pior desta história é que os parceiros de Merkel na UE são todos uns medíocres a quem incumbiram de aplicar a cartilha que sabemos à Europa do Sul. Disse e repito: Cameron é um exemplo, mas não do que aponta. A mensagem que ele está a passer para todos é esta:se quisermos, impomos outras regras de jogo e pomo-nos prontos a bater com a porta se não nos fizerem a vontade. Apenas isso, Ana. E é claro que cada vez tem mais seguidores.
    Com outra direcção na UE, com menos partidos de direita e menos compadrio. não vai ser difcil rejeitar o ultra-liberalismo
    Só que esta via negociada leva o seu tempo, tem de ser passo a passo.. O resto, que é o meu receio, chama-se memória. Nem eu a perdi nem os ingleses, os canadianos e tiodos os povos que fugiram para aqui. Não se podem desmentir imagens, as imagens que passam nos documentaries – tão parecidas com as que bem desejávamos esquecer.
    Mais um vez, obrigada.

    • Ana Moreno says:

      Cara Fernanda Leitão, agradeço-lhe também o modo sério e esforçado da sua resposta, mas continuo a achar que está mal informada ou interpreta mal a postura de ambas as pessoas mencionadas. A Merkel, neste único ponto (atenção!!), tem, reconhecidamente, e das mais variadas perspectivas (mormente progressistas), defendido uma posição humanista na “gestão” da problemática dos refugiados. E Cameron é um exemplo super autoritário e negativo da imposição dos interesses próprios na UE; tal como diz, “pomo-nos prontos a bater com a porta se não nos fizerem a vontade”. Se acha que é essa a melhor forma de lidar com os problemas a nível internacional, boa noite.

  3. Ana Moreno says:

    P.S.: sobre “as regras do jogo” que Cameron quer impor, digo-lhe outro “boa noite”. E quanto ao problema dos refugiados também lhe digo que é tão gigantesco e complicado que não é uma pessoa apenas – e mais nesta construção bicuda que é a UE – que vai ser estadista suficiente para o solucionar. Não estou a falar das causas, há muitas culpas no cartório. Agora pensar que há fórmulas fáceis ou mesmo claras para lidar com a situação, é ingenuidade e pensar a preto e branco.

  4. Fernanda Leitão says:

    Então, boa noite, Ana. Com toda a cordialidade.

  5. Ana Moreno says:

    Aprecio muito a sua cordialidade Fernanda Leitão, a sério.