Há alternativa – a TIA correu com a TINA


Para variar, esta semana está a ser rica em boas notícias, mas quem não as procurar activamente nem nelas repara.

Jornal da Noite, SIC, 16/11/2016

“Bruxelas alerta para os riscos de incumprimento, mas não exige medidas adicionais” – foi esta a frase de aberta do telejornal da SIC. Com uma abertura destas, poderíamos pensar que a tónica da mensagem do Comissário Europeu para os Assuntos Económicos tinha sido o risco de incumprimento. Afinal de contas, disse a jornalista, Bruxelas “alertou”. No entanto, o risco foi focado, sim, mas precisamente para ser desvalorizado.

O desvio é muito pequeno e os riscos estão controlados. Uma correcção sustentável do défice excessivo parece, portanto, poder ser alcançada. Vamos decidir isso na Primavera. Em termos concretos, isso significa que Portugal não precisa de apresentar medidas adicionais para 2017, desde que o risco identificado não se materialize e, segundo a nossa avaliação, temos razões para acreditar isso não acontecerá. [Pierre Moscovici]

Ao colocar em destaque o que a própria Comissão desvalorizou, o risco, a jornalista da SIC deu a volta à notícia, secundarizado o papel de informar de forma isenta. São nuances que servem para fazer passar a notícia desejada, em vez do relato dos factos.

Mas o dia não foi estranho apenas por isto.

Na terça-feira soubemos que Portugal teve o maior crescimento do PIB em cadeia de toda a Europa. O Jornal de Negócios fez uma infografia engraçada, só foi pena não dar destaque ao que de mais notável havia a realçar – a insólita situação de Portugal ter o maior crescimento da Europa. Pobre velho continente, onde isto chegou, onde uns meros 0,8% lideram o ritmo de crescimento. Mas não há problema, que no Aventar estamos cá para a ajudar. Aqui vai o boneco como deveria ter saído.

2016-variacao-pib-terceiro-trimestre

Original: aqui. Clicar na imagem para a ampliar.

Sobre este crescimento, o que se ouviu foi curioso. Parece que o turismo foi o maior contribuidor para as exportações. Procurando desvalorizar, a direita arranjou a tese de se tratar de um crescimento não sustentável. Se calhar até tem razão, mas quando esteve no governo, isso não a impediu de se vangloriar do crescimento que este mesmo turismo lhes estava a proporcionar. Haja um pouco de memória, pode ser? Por exemplo:

Turismo impulsiona crescimento de 6,5% das exportações de serviços
Excedente entre exportações e importações de serviços dá folga à balança comercial portuguesa.
As exportações de serviços registaram, nos nove primeiros meses do ano, um crescimento mais acentuado do que as vendas de mercadorias, graças sobretudo ao contributo do turismo, dando um forte contributo para o saldo positivo na balança comercial.
[Público, 21/11/2013]

Com notícias como as desta semana, era de supor que a comunicação social faria grandes destaques sobre o assunto. Afinal de contas, foi exactamente isso que fez quando, segurem-se, o anterior governo teve espantosos crescimentos… da mesma ordem de grandeza. Não isso que vimos. Houve uma ou outra notícia, mas nada que tenha tido o destaque que notícias semelhantes tiveram no passado. Por outro lado, notícias sobre o crescimento abaixo do estipulado pelo “modelo” do Centeno sempre deram grandes destaques, como se constata com uma pesquisa rápida. Opções.

Realisticamente, as notícias não são, em si, motivo para grandes festejos. Já a constatação de que é possível obter os mesmos resultados que a governação pafiosa obteve, mas sem a constante produção de orçamentos de estado inconstitucionais, sem o permanente ataque a tudo o que é estado, sem a ameaça de cortes em pensões e salários e sem o discurso de dedo em riste contra os portugueses, isso sim é uma boa notícia.

Há alternativa e respira-se melhor no rectângulo. A TIA (There Is an Alternative) correu com a TINA (There Is No Alternative).

Comments

  1. Tempero Correia says:

    Ó Mamede Passos, brilhante comunicador e não menos brilhante profeta: já que não tens nada que fazer, bem podias ir comunicar o teu ex-Vice Primeiro que a Geringonça dele(?), afinal, não só veio ao mundo com um carburador bem afinado como está em vias de dispor de injecção electrónica de última geração; ou seja, não só rola bastante bem como até acelera que se farta.

  2. Tempero Correia says:

    Em tempo: onde se lê ” . . . bem podias ir comunicar o teu” deve ler-se ” . . . bem podias ir comunicar ao teu . . .”

  3. Mónica says:

    “Engraçado” que na SIC essa boa notícia nem foi comentada por José Gomes Ferreira, que apareceu logo de seguida a comentar a notícia da Caixa Geral de Depósitos…

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