Curriculite, a doença do século XXI

f3bc5-diploma-canudoSala de consultas num hospital público (porque é fundamental defender o Serviço Nacional de Saúde). O doente (utente para ministros e gestores) entra, cumprimenta o médico e senta-se.

 

MÉDICO (semblante antecipadamente compreensivo, porque a maior parte dos pacientes é um cambada de hipocondríacos ou de chatos com problemas de saúde sem gravidade): Ora diga lá qual é o problema?

DOENTE: Sotôr, acho que me anda a nascer uma licenciatura aqui no currículo…

MÉDICO (chega-se à frente, preocupado): Mas o senhor esteve na Universidade?

DOENTE (levemente enojado): Nááá, sotôr, até evito passar lá perto!

MÉDICO: É que, isso, anda aí uma epidemia e é preciso ter cuidado, homem! Mas como é que isso lhe apareceu?

DOENTE: Foi no outro dia, quando um secretário de Estado foi à minha terra inaugurar um pavilhão polidesportivo.

MÉDICO: Pois, isso dos polidesportivos é muito perigoso, estão cheios de correntes de ar. E então?

DOENTE: Então, cumprimentei o secretário de Estado, assim com um passou-bem, e começou a aparecer-me… aquilo… no currículo…

MÉDICO: E é claro que não foi desinfectar as mãos a seguir…

DOENTE (envergonhado): Pois não, sotôr.

MÉDICO: É de uma irresponsabilidade! É que anda aí uma doença terrível. (Pausa verdadeiramente dramática). É a curriculite.

DOENTE (assustado): A curriculite, sotôr?

MÉDICO (grave, profundo): A curriculite.

DOENTE: Isso dá no currículo, é?

MÉDICO: Exactamente, meu amigo. Uma pessoa está muito bem, passa perto de uma universidade ou de um político e aparece-lhe uma licenciatura no currículo. Por vezes,… (outra pausa ainda mais dramática que a anterior, para que a outra personagem intervenha, criando suspense)

DOENTE (intervindo para criar o suspense já anunciado): Por vezes, o quê, sotôr?

MÉDICO: Por vezes, há currículos que chegam mesmo a desenvolver mestrados ou doutoramentos…

DOENTE (apavorado): O quê? Pode lá ser! Ainda é pior do que eu pensava. Pode aparecer-me um doutoramento?

MÉDICO: É muito perigoso, meu amigo.

DOENTE: Mas há tratamento?

MÉDICO: Felizmente, sim. (Pega num frasco) Aqui está!

DOENTE: É de beber, sotôr?

MÉDICO: Isto, meu amigo, é para esfregar vigorosamente na cara todos os dias.

DOENTE: Mas é o quê, ao certo?

MÉDICO (compõe um ar exageradamente grave, para compensar a parvoíce que passou pela cabeça do dramaturgo): É um produto pouco usado: é… vergonha.

DOENTE: Vergonha na cara?

MÉDICO: Tal e qual.

DOENTE: E resolve?

MÉDICO: Às vezes, não vai a tempo. Ainda recentemente, foi preciso proceder à ablação de membros do executivo e teve de se mandar o governo todo para análises.

DOENTE: Mas, ó sotôr, diga-me uma coisa?

MÉDICO (poisando o frasco na mesa): Com certeza, diga, diga.

DOENTE: Se eu deixar estar a licenciatura no currículo e se não doer muito, acha que posso fazer parte do governo?

MÉDICO: O senhor não tem mesmo vergonha na cara, pois não?

DOENTE: Então, o sotôr ainda não me passou a receita.

Comments


  1. Deliciosamente bom e mau, tudo ao mesmo tempo!

  2. barreira012 says:

    …..a doença de avíários……de canudos….no seu esplendor…..!!!!!


  3. Parabéns, António Fernando Nabais. Merece ser antologiado. Só aqui falta um trocadilho com o bloco (operatório?) central. É que não consta que a curriculite afecte indivíduos de outras áreas político-ideológicas. (Mas também é verdade que esses não costumam ser secretários de Estado).


  4. Soberbo!


  5. Bom!

Trackbacks


  1. […] Fonte: Curriculite, a doença do século XXI […]


  2. […] Leia-se, entretanto, o texto de Mariana Mortágua, a propósito deste mesmo tema, mesmo sabendo que, segundo Duarte Marques, o Bloco de Esquerda tenha contribuído para a ocultação do que se está a passar no SNS, confirmando-se a incompetência do BE, tendo em conta que os problemas estão  a ser abundantemente divulgados (mas, lá está!, Duarte Marques nunca desilude). Ao surpreendente deputado, por ser cúmplice de tudo o que se está a passar, recomenda-se o mesmo tratamento que um certo médico prescreveu a um paciente. […]

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