Medo e democracia

Sim, o referendo italiano era uma distorção redutora e maniqueísta de um conjunto complexo de problemas. Um golpe, portanto. Que, entre outras questões, evidencia a impossibilidade de discutir em profundidade o mérito das propostas em confronto, já que elas jamais se reduziriam a uma dicotomia tão simplória.

Terminados os actos, vejo, não sem surpresa, muitas pessoas a verberar aqui os votantes que escolheram o “não”, acusando-os de abrir as portas a eleições e, portanto, à ofensiva eleitoral da extrema direita. Ora, se nos lembrarmos que a Itália era governada por um comissário político não eleito e imposto pela força hegemónica na União Europeia, pergunto: desde quando este terror pela possibilidade de eleições tomou conta da nossa razão? O que vale o argumento segundo o qual os votantes do “não” estão ao serviço da extrema-direita pelo facto de quererem eleições?

Perguntando de outro modo e tentando compreender estes receios: o que é, agora, a democracia? Ou: o que vamos fazer do que fizemos da democracia? Era bom trocarmos umas ideias sobre o assunto.

Comments

  1. António Correia says:

    A democracia dá muito trabalho, é sempre o melhor argumento para os sacados sufragar os sacadores, e no fim la vem a Dita dura para resolver o problema. Não há volta a dar.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Eu acho é que deveria discutir porque é que, de repente, a extrema direita está a tomar conta das estruturas de estado.
    Que erros foram cometidos, que consciência cívica têm os votantes nas eleições e como agem os agentes da democracia?
    O fenómeno da emigração e dos refugiados, parece-me ter as costas demasiadamente largas para explicar as atitudes xenófobas de muitos governos europeus.
    Sobretudo, não esqueçamos que se os políticos estão no poder, é porque lá foram colocados.
    Onde acabam as desculpas e começa a verdadeira responsabilidade?
    O debate para se encontrarem as causas de raiz deveria centrar-se na relação eleitor-eleitos… e não em fenómenos aleatórios como efeitos cíclicos, crises económicas … Estas são consequências e se a discussão começa por aí, na minha óptica, estamos a identificar mal o problema. E se ele é mal identificado, não pode ter solução viável.
    Provavelmente esta “democracia” onde os factores que para ela contribuem estão completamente desequilibrados, tenha uma responsabilidade muito grande. Basta pensar na intoxicação que os “merdia” vêm executando e como o poder político se demarca de verdadeiros crimes de informação. E ainda, como se exploram os sentimentos primários das pessoas em detrimento da pesquisa e da informação.
    Nenhum sistema é saudável num ambiente poluído. Nem a democracia.

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