Adoro o cheiro a teclas pela manhã

Napalm e teclas de computador – armas de destruição maciça. Aproveitando a ponte de hoje, feita com um dia de férias, já agora, fui ver o que se anda a rabiscar no terreno educativo. Foi um pagode à conta da risota.

Os motores quase não passaram do morno à conta de todos quererem reivindicarem a paternidade quanto ao banquete da Noite de PISA, como apropriadamente lhe chamou o Nabais. Da direita, uns vieram logo dar louvores a Crato, incluindo o próprio, ao mesmo tempo que outros, desde o Roque e a amiga, passando pela corte e pelos soldadinhos de chumbo, lamentavam as “reversões”, referindo-se, possivelmente, aos saudosos exames da quarta-classe e de já não se ensinar o nome dos rios e dos seus afluentes. Claramente, a realidade é coisa que não lhes assiste. Quanto à esquerda, perdão, ao PS, Maria de Lurdes Rodrigues, em causa própria, reclama a sua parte da paternidade, vá lá, da maternidade, sobre os resultados. Remeto para o texto do Guinote sobre o branqueamento geringonciano desta governante, assim poupando tempo e caracteres. Entre o que li, o texto que me pareceu mais interessante não saiu da pena da ministra dos colégios privados, mas sim de Bárbara Wong, que sublinha que tudo começou com a obrigatoriedade da educação pré-escolar, lançada, veja-se lá, no século passado, por Marçal Grilo.

Por entre estas deambulações, acabei por cair no surrealismo, daquele que é divertido e gostoso. Constatei que Ramiro Marques está de volta à blogosfera – e agora vou parar por uns momentos para me rir um pouco mais.

Pronto. Já passou.

Para quem esteja neste momento a interrogar-se sobre o assunto agora introduzido, deixo aqui um pouco arqueologia blogosférica. O Ramiro teve uma panaceia de blogs e contas em tudo o que era serviço da então chamada web 2.0, onde escrevia abundantemente sobre política educativa e sobre coisas. Passou de acérrimo malhador no ministério da educação durante o consolado socrático, para um dócil apoiante desse mesmo monstro quando Crato se tornou ministro. Nada de novo na política. A parte gira é que, em Dezembro de 2013, Ramiro Marques apagou tudo o que havia escrito durante anos na web, num momento que coincidiu com a sua nomeação  para o Conselho Nacional de Educação. E, perguntará o leitor, onde é que está a graça? Está no facto de alguém, que durante anos vestiu a pele de guru da blogosfera e que semeou conselhos para quem os quisesse recolher, não saber que o que se escreve na net nunca desaparece. Basta usar o archive.org. Nem a sua fantástica página na Wikipédia sobreviveu, se bem que esta foi removida por ter sido considerada propaganda.

ramiro aconselha os sindicados

Cópia do site profblog.org em 2 de Maio de 2009

Mas, aposto, ainda não viram onde está a piada, pois não? É que alguns desses conselhos gratuitos do Ramiro eram sobre como escrever na blogosfera, recomendando aos noviços da bloga que não usassem adjectivação. E como é que Ramiro encena o seu regresso? Com um tal chorrilho de adjectivação que até parece uma transcrição da Enciclopédia Luso-Brasileira.

Os esquerdopatas vão inventar mil e uma desculpas para retirar o mérito às políticas educativas postas em prática pelo anterior Governo. Acusaram-no, meses a fio, de estar a destruir a Educação. Perseguiram, durante anos, Nuno Crato, insultando-o onde quer que ele estivesse, interrompendo os seus discursos com ameaças e insultos, fazendo de cada visita a uma escola um ordálio.

A canalha sindical, paga pelos contribuintes para executar as políticas do PCP, andou 4 anos a insultar Nuno Crato, interrompendo discursos com “grandoladas”, insultando-o, ameaçando com greves e boicotes.

Os parasitas sindicais calcorrearam o país, durante 4 anos, numa campanha organizada e paga pelos contribuintes de boicote a todas as iniciativas e visitas de Nuno Crato. Hoje, perante estes números, voltarão a mentir aos portugueses porque a mentira está na natureza da esquerdopatia e o objetivo último dos social comunistas é destruir a economia do país para poderem reinar entre ruínas. O controlo da Educação é apenas um objetivo instrumental: fazer dos portugueses uns idiotas dependentes do Estado. Uns cordeiros caminhando em direção ao matadouro sem se darem conta para onde os conduzem. [Ramiro Marques, 06/12/2016]

Vejam só como, de facto, o mundo é feito de mudança. Ramiro passou de mentor que dava conselhos aos sindicatos em 2009, para agora lhes cuspir uns mimos como “esquerdopatas”, “canalha sindical” e “parasitas sindicais”. Pelo caminho esqueceu-se de apenas citar factos, em vez de recorrer à adjectivação, como chegou a pregar. Eu até ia ali ao archive.org procurar a prosa em questão, mas a manhã já lá vai e as teclas agora não cheiram tão bem. E preciso de fazer outra pausa para ir ali dar uma gargalhada.

Comments

  1. Mónica says:

    Muito bom! 😀

  2. ZE LOPES says:

    Não é por nada, mas aconselho vivamente a leitura do post que o suposto “Ramirote” (atenção: ele não assina nada! Nem no novo “profeblogue”!) colocou como resposta no post do Guinote “O Casal Maravilha” (no blog “O Meu Quintal”), como reação a uma modesta resposta minha…É de ir ás lágrimas!


  3. Vamos aguardar as novas avaliações Pisa com o resultado da epoca do ministro Nogueira e repectivos nabais e teoricos da não avaliação para vermos os factos.

    • Mónica says:

      A época do Nogueira é superior ao Crato e à Lurdes! Portanto há mais probabilidade de ele ser um dos pais destes resultados. Os próximos teste PISA mostrarão o resultado das políticas de Crato.

      • nuno says:

        Lurdes foi ministra de 2005 a 2009. Mário Nogueira foi eleito em 2007. Lurdes caiu quando o Governo mudou e o primeiro-ministro não a reconduziu. Crato foi ministro de 2011 a 2015. Caiu quando o Governo caiu, mas também não tonha sido eleito. Ao contrário do que as artistas sugerem, Mário Nogueira não está há décadas à frente da Fenprof. Desde essa data foi reeleito duas vezes pelos pares, coisa que não acontece aos ministros. Para já, está dentro do que se permite aos autarcas, mas parece que com sindicalistas há é que pô-los a andar.

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