Bichos-carpinteiros


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Vou pouco a “eventos sociais”, pelo menos àqueles que têm muita visibilidade, presença da comunicação social e de figuras ditas públicas. Há tempos, porém, fui a um debate cujo tema me interessava e no qual participavam um ou dois nomes mais ou menos sonantes. A sala era ampla e como eu não sabia se teria tempo para assistir até ao fim, sentei-me numa das últimas filas, para poder escapulir-me sem dar demasiado nas vistas. Tinha chegado cedo e tocava-me esperar.

As pessoas sem importância nenhuma, como eu, sentavam-se onde escolhiam sentar-se, ou onde ainda encontravam sítio, e aguardavam com serenidade. Relíamos o programa do evento, conversávamos com quem estava ao lado, íamos espreitando o relógio. Começaram, então, a aparecer os aspirantes. É uma gente irrequieta e a inquietude começa-lhes logo na escolha da cadeira. Querem sentar-se à frente, perto da mesa dos oradores, mas também querem sentar-se num bom ângulo para as câmaras, se as houver, e não querem estar longe da porta por onde hão-de entrar ilustres. E pode ser difícil conseguir tudo isto numa cadeira só.

À minha frente acabou por sentar-se uma mulher que era um perfeito exemplar de aspirante. Não parava quieta na cadeira e mantinha o pescoço permanentemente esticado como um periscópio para poder ser a primeira a detectar as pessoas de considerável importância que haveriam de chegar. Ao seu lado, um homem com expressão sofrida e que não partilhava a inquietude dela. Claramente, não aspirava a nada para si próprio, apenas para ela.

Entrou um vereador. Grande agitação na cadeira da frente. A mulher, mais inquieta do que nunca, soergueu-se na cadeira e esboçou um aceno ao vereador, que não a viu.

– Era o doutor A… – sussurrou ao seu companheiro, que, com ombros caídos e expressão de abnegado padecimento, lhe disse que sim com a cabeça.

A partir daí, a aspirante não voltou a ter o rabo pousado no assento por muito tempo. Entrava o doutor B, a professor C, o arquitecto D, a vereadora E, o músico F, a pintora G, e ela a saltar na cadeira, como se uma mola a impelisse, a dizer um adeus raramente correspondido, a mandar beijinhos que caíam entre filas de cadeiras antes de chegar à bochecha a que se destinavam. Quando uma senhora sorridente e presumivelmente importante veio ter com ela para dar-lhe um beijo pensei que a aspirante ia morrer ali mesmo, de excitação incontida.

Por esta altura, já eu começava a resignar-me à ideia de que, do debate, só veria o rabo da minha vizinha da frente.

A sala já se enchera, não se via uma cadeira vazia. Foi então que apareceu certo romancista, pouco conhecido fora do meio literário, mas que provocara um sobressalto na cadeira da frente. Assim que o viu entrar com passo arrastado, olhando para todo o lado à procura de cadeira livre, a minha vizinha ordenou ao seu companheiro:

– Sai daí! Deixa sentar o Dr. H!

O homem empalideceu.

– Ó querida… então e para onde é que eu vou?…

– Ficas ali ao canto, em pé. Isto também não vai demorar assim tanto!

E começou a fazer sinais ao Dr. H., que a viu pelo canto do olho, mas continuava a procurar assento mais oportunamente situado.

– Pssttt! Psst!! Doutor!… Aqui! Tem aqui lugar!

Chamava e acenava, mas o doutor, aproveitando a miopia e o passo arrastado, demorava a dar-se conta e a chegar-se a ela.

Já o desgraçado que teria de sacrificar a cadeira estava soerguido, costas tortas, os braços caídos a segurar o cachecol e o jornal, como se fossem o lastro que ainda o prendia à cadeira. Ficara-lhe no rosto um sorriso apagado, um sorriso para ela, para que percebesse que era só por ela que ele fazia todos aqueles sacrifícios, pelas suas ambições e inquietações artísticas.

Mas ela nem olhava para ele, só chamava e acenava com frenesi ao míope que, entretanto, ao vislumbrar que lhe faziam sinal da fila da vereação, guinou de repente para esse lado, e nem lhe agradeceu o convite.

Ela deixou-se tombar na cadeira, desconsoladíssima. Ele sentou-se também, com alívio.

– Deixa lá, ele não te ouviu.

– Pois não! Demoraste tanto tempo a levantar o cu da cadeira! És mesmo um carrinho metido na lama!

Um “Chiu!” imperioso varreu as nossas filas. O debate ia começar. Para a aspirante, porém, o melhor já tinha passado.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / pestreita.wordpress.com

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Há os “paparazzi”, “jornalistas” e “fotógrafos” para as ocasiões e os “corta-relva” tipo “vaca” ou “boi”, fundamentais para criar a ambiência da ordenação e do bom aspecto.
    E entre estes dois espécimes, ficam as cadeiras para o público e a mesa para os conferencistas …

  2. Lamento, mas pelo descrito a personagem NÃO merece o escrito. Escolha outras personagens P. F. Cumprimentos

  3. Vítor Cruz says:

    Bem escrito e retrato fiel de uma certa realidade corrente…

  4. Que delícia de relato, Carla.

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