Lettres de Paris #42

Swagger

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“What hempen home-spuns have we swaggering here, so near the cradle of the fairy queen?”** pergunta Puck, em a Midsummer Night’s Dream, de Shakespeare. Atribui-se a Shakespeare a introdução de mais de 20 palavras completamente novas no léxico inglês, e, no caso de algumas delas, no léxico global. Swagger é exatamente uma dessas palavras. Descreve alguém que tem atitude, que caminha e fala e age com confiança e acredita que é importante, em suma, um bocadinho fanfarrão, até. Num certo sentido devíamos ser todos swaggers, creio eu, que, dependendo dos contextos, também faço um bocadinho de swaggering, como quase todos nós, suponho.
Vem isto a propósito do filme que fui ver hoje à tarde, no Mk2 – coté Saint-Michel. Um documentário chamado exatamente Swagger*, de Olivier Babinet, que nos mostra o que se passa na cabeça de 11 crianças e adolescentes que vivem nos bairros pobres e suburbanos de Paris onde, apesar de se avistar a Torre Eiffel, Paris chega apenas dificilmente. Uma das adolescentes diz que nunca viu um francês de gema, mas acrescenta ‘que é isso, um francês de gema?’, cheia de swagging, claro. Outra confessa ter uma amiga mesmo francesa, mas depois reflete melhor e conclui que afinal não, ‘elle est portugaise’. Não aparecem jovens de origem portuguesa no filme, mas há algumas menções, como esta e a de outro adolescente que conta estar apaixonado de ‘une belle fille, elle a les yeux verts, elle est portugaise’. Supõe-se que estas ‘portugaises’ frequentem o mesmo liceu que estes 11 rapazes e raparigas – o Claude Debussy, em Aulnay-sous-Bois .

Estes rapazes e raparigas, de origens diversas (árabes, italianos, indianos, de diversos países africanos) têm sonhos como todos nós. E, basicamente, Olivier Babinet procura que percebamos isso e de que é que os sonhos destes jovens são feitos. Das mesmas coisas que os nossos. As personalidades deles são surpreendentes, é um facto. Os interesses, os gostos, as atitudes também. Uma menina de 13 anos, de olhar profundo, Naïla, explica-nos que o rato Mickey é maléfico e inquietante (‘un souris que parle et chante et danse?!’) e que ‘les poupées Barbie sont pires’ porque ‘elles sont toutes blondes et ont toutes la même taille’. Ambos, diz-nos Naïla, só existem para encher de porcarias as cabeças das crianças. Quase todos têm uma religião e acreditam em deus e todos rejeitam o modo de vida dos traficantes que vêem nos seus bairros. Um quer ser estilista, é o mais swagger de todos, outra quer ser arquiteta, outro adora rock n’ roll e toca bateria… outro acha que se não se apaixonar não vale a pena viver, outra diz que ficou mais otimista à medida que falava com as pessoas…
Não há um único momento de olhar miserabilista, nem de superioridade, do realizador sobre estes jovens. Filma-os apenas, a falar do que são, do que querem, do que pensam da França e dos franceses, do que pensam da vida nos seus bairros, do amor, da família, da religião. Como poderia ter filmado quaisquer outras pessoas, com um olhar desassombrado e sem clichés ou preconceitos. É um belo documentário que gostaria de voltar a ver, legendado em português. Não porque não o tenha compreendido, mas porque por vezes as crianças e os jovens falam depressa de mais e algumas palavras perdem-se.O meu francês não será assim tão bom. Em algumas coisas não vale a pena ser swagger, claro. Saí do cinema contente. Mais do que quando para lá entrei. Tinha a intenção de ir a uma exposição na Universidade René Descartes, mas quando lá cheguei bati com o nariz na porta, apesar de estar um cartaz com grandes letras que informava que a exposição terminava a 11 de dezembro. Que dia foi hoje, afinal? De maneira que, um tanto desiludida, lá me encaminhei para o cinema na Rue Hautefeuille.
Pensei que era um documentário um tanto sociológico, mas depois pensei melhor. Não é. Não é um filme de todo analítico. É, apenas, o que os jovens e as crianças dos subúrbios de Paris são. Observa, não analisa, não conclui. E deixa-nos observar também, sem concluir, nem analisar. Coisa que, evidentemente, estou a tentar fazer agora, feita parva. Coisa que faço geralmente com tudo, acrescento, muitas vezes feita parva também, apesar de em algumas delas adotar um estilo swagger, deve dizer-se a bem da verdade inteira. Sentei-me, a seguir ao filme, na esplanada do Paul, no Boulevard Saint-Michel, comi um ‘escargot aux raisins’ e bebi um café expresso. Comprei uma baguette (ótima, por sinal) que, umas horas mais tarde e algum trabalho feito depois, haveria de comer (parcialmente) ao jantar. Enquanto estava na esplanada pus-me a contemplar as luzes acesas nas janelas dos prédios, uma coisa que gosto tanto de fazer como ir ao cinema ou passar uma tarde a fazer peoplespotting. Windowspotting, se quiserem. Não é só o Shakespeare que inventava palavras, diria a swagger que há em mim. Mas gosto de ver aquilo que as janelas deixam ver das casas das pessoas. Como num écran de cinema. Perguntei-me inutilmente se viveriam ali ‘des français de souche’ ou franceses de outra origem qualquer. Eu não sou ‘de souche’ de nenhuma parte e gosto disso, já se sabe, desse desenraizamento que me faz ser de qualquer parte onde esteja. Mesmo daqui, desta esplanada ao frio, a olhar para as vidas dos outros através das janelas iluminadas, sem nenhum propósito analítico (enfim… tanto quanto sou capaz), sem nenhuma conclusão.
*Informações completissimas sobre o filme em: http://www.swagger-le-film.com/
**Esta é também a primeira pergunta do filme-documentário de Olivier Babinet. Basicamente, numa má tradução certamente: ‘Mas quem são estes personagens rústicos que se armam em fanfarrões (swaggering, fanfarronam?) tão perto do leito da rainha das fadas?’

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