Lettres de Paris #45

Au claire de la lune

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‘mon ami Pierrot,
Prête-moi ta plume, pour écrire un mot.
Ma chandelle est morte, je n’ai plus de feu.
Ouvre-moi ta porte, pour l’amour de Dieu (…)’
 
Não foi a primeira canção que aprendi nas aulas de francês, no então chamado 1º ano do ciclo preparatório. Mas deve ter sido das primeiras. Já agora, a primeira, que ainda sei de cor note-se, como se fosse a mesma miúda de 10 anos e longas tranças e meia pespineta que se sentava nos bancos da escola preparatória para aprender – entre outras coisas igualmente espantosas – francês, foi ‘Un, deux, trois, je vais dans les bois
quatre, cinq, six, cueillir des cerises
sept, huit, neuf, dans mon panier neuf
dix, onze, douze, elles sont toutes rouges!’
 

Não, bem entendido, que uma e outra cançonetas me tenham servido para alguma coisa ao longo da vida, vá, bom, talvez a segunda, para me lembrar como se dizem os números em francês, mas há coisas de que nunca nos esquecemos, é verdade. No ‘meu tempo’ – e já posso dizer, com à vontade, ‘no meu tempo’, porque faltam mais ou menos três (trois) semanas para eu fazer 50 anos (la cinquantaine, mon dieu!), a primeira língua estrangeira que se aprendia habitualmente não era o inglês, nem o castelhano. Era o francês. Tive 7 anos de francês e 5 de inglês na escola. Foi só isso. Nunca aprendi fora da escola nenhuma língua. Aprendi sozinha, pode dizer-se, a desenrascar-me bem. No inglês desenrasco-me um bocadinho melhor que bem, bem entendido. Mas leio bem em todas as línguas que sei falar, embora as fale todas mal, incluíndo, por vezes, a minha própria. Mas ler, leio bem em todas. Vejo cinema em todas, sem legendas, compreendo bem todas quando ouço alguém falá-las. Como digo sempre, compreender várias línguas é meio caminho andado para compreender melhor o que pode ser compreendido do mundo.
 
A verdade é que o poemazinho de ir ao bosque colher cerejas vermelhas com o meu cesto novo, tal como o pedido de uma caneta ao Pierrot, à luz da lua, entre outros, foram também úteis para a pronúncia. Devo dizer que embora fale muito devagar e me falte algum vocabulário tenho uma pronúncia bastante boa. A minha professora de francês do ciclo preparatório puxava por nós. Parece que a estou a ver, 40 anos passados, com a boca muito esticada como num beijo repenicado ‘ôooo’ e depois inclinava os lábios mais um bocadinho e ‘euuu’ e depois mais ainda e ‘uuh’ et bien, era um personagem interessante, bastante gorda, sempre vestida de maneira ‘irreprochable’ com o seu também ‘irreprochable’ batôn ‘rouge’ e com as suas maneiras de francesa. Ou isto pensava eu tentando ensaiar os ôoo os euuu e os uuh da melhor maneira possível. Há 40 anos, bolas, mas semana menos semana. O tempo passa a correr, é verdade. Se alguma vez eu, quando me sentava nos bancos da escola preparatória, me imaginei com 50 anos, velha, como achava então que era a professora. Mas já que aqui cheguei, posso dizer-vos que não se está mal, apesar de tudo. Sobretudo em dias de lua cheia, como hoje, e em Paris, já agora.
 
Reparei na lua quando cheguei à Maison Suger. Saí uns 10 minutos antes das 8 do Ladyss e toca a galopar (tanto quanto possível) pela Rue de Lanneau e Rue des Écoles até ao Le Champo. Quando passei lá mais cedo vi que estava um filme novo. Novo é como quem diz… consegue ser mais velho que eu, na verdade, de 1955, The Constant Husband*, de Sidney Gilliat. Uma comédia inglesa, dos anos 50, absolutamente deliciosa e divertida. Depois do filme, disse adeus a Monsieur Tati, pendurado na parede do Le Champo, com o seu eterna guarda-chuva debaixo do braço, e vim devagar para casa.
 
Antes de ir tratar do jantar, fumei um cigarro à janela e foi então que dei por ela. A lua. Absolutamente clara. E linda, com o halo de luz à sua volta. Fui buscar a máquina fotográfica decente, quero dizer, a melhorzinha, e zás, apanhei-a no meio do seu halo de luz primeiro e apanhei-a toda inteira, triunfante e quase tão perto que se poderiam ver pessoas, se houvesse pessoas na lua, bem entendido, depois. Por falar nisso, o meu professor de filosofia, no Liceu, costumava chamar-me selenita. Aprendi que podia ser dito de quem vivia na lua. Não é verdade que vivesse na lua aos 15 ou aos 16 anos. Num certo sentido vivia menos que agora. E nunca fui distraída, apenas impaciente e impulsiva. Para lhe mostrar que não era nenhuma selenita tirei 19 a Filosofia no exame de admissão à Universidade. Acho que ficou contente. Nessa altura já não tinha francês, nem inglês, nem sequer português. As coisas mudam muito em 3 ou 4 décadas e a mim custa-me acreditar que já vou fazer cinco (cinq) décadas. Olho-me ao espelho, como olho para a lua, e não vejo outra coisa senão tranças e uma miúda que canta em coro com as outras, com uma pronúncia ‘irreprochable’ para felicidade da professora bem vestida e de lábios vermelhos: ‘un, deux, trois, je vais dans les bois…’, ‘au claire de la lu (uuhh uuhh) ne’…
 
*não encontro o trailer do filme, por isso, deixo aqui o link para mais informações: http://www.imdb.com/title/tt0047948/

Comments


  1. Lembro-me tão bem das aulas de francês com o Dr.Monteiro Cardoso e do livro Mon Ami Pierrot e da pergunta que o professor colocou ao meu colega Leão : “porqua pas monsieur Pierrot iln’ha pas de chevoux ? resposta do Leão : “par ce quil é careca” ,belos tempos nos anos 50 na “universidade de Xabregas” !!! perdão pelos erros de francês porque já passaram tantos anos e a pratica não tem sido nenhuma !!!

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