Lettres de Paris #46

Et maintenant pour quelque chose de complètement différent…

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… comi verdadeiro frango assado português acompanhado por uma mini super bock, um cafézinho delta e um pastel de nata. Onde? Em Paris, bien sûr, Rue de l’École Polytechnique, perpendicular à Rue Valette e a que nunca tinha dado atenção. Bem sei que pareço uma verdadeira emigrante ultimamente com o tema da comida. Disse-me outro dia a Mónica que estes desejos são o primeiro sinal que nos estamos a tornar em emigrantes. Pois que seja. Quase 2 meses em Paris, com ligeiras interrupções, dão nisto. Falei-vos do desaire do poulet rôti há dois ou três dias. Le pire poulet rôti au monde. Na verdade fiquei mal disposta desde que o comi. Já devia ser frango velho, ou melhor, frango envelhecido no frigorífico ou no forno do lamentável restaurante da Rue Saint-Séverin. Mas eu não sou pessoa de desistir assim facilmente, sobretudo se o assunto envolve comida. Também sou de dar segundas oportunidades aos meus desejos, vá. E terceiras e mesmo quartas.
 
De modo que, quando me lamentei ao André da minha pouca sorte com o poulet rôti, o rapaz (aka #pingaamor) pôs-se em marcha. Bom, não veio até Paris com um frango assado na mala (coisa que, convenhamos seria ‘the ultimate romantic move’, especialmente se ao frango se juntassem umas batatinhas fritas e uma salada temperadinha ‘façon portugaise’ e umas duas ou três minis, pronto), mas pôs-se em marcha sobre o google (coisa que, obviamente eu mesma poderia ter feito) e anunciou-me triunfante passado um bocado que, mesmo na rua ao lado do Ladyss, havia uma churrasqueira portuguesa, justamente chamada ‘a nossa churrasqueira’. Não lhe dei grande crédito, confesso. Mas hoje, depois de um dia que começou bastante cedo (devido a um seminário na EHESS – École des Hautes Études en Sciences Sociales, por um lado e, por outro, devido ao barulho que fizeram logo de manhãzinha os homens das obras do prédio aqui da frente) e de estar 10 horas quase a trabalhar, ou enfim, qualquer coisa de muito parecido, quando saí do Ladyss às oito da noite, vi a Rue de l’École Polytechnique ali mesmo à minha direita e, considerando tudo mais o facto de nunca ter ido para aqueles lados, lá entrei na rua, bastante pequena, que desemboca numa praça muito bonita – a Place Larue – onde, justamente, fica a École Polytechnique.
 

Fui andando pela ruazinha, vendo luzes ao fundo, até que encontro uma bandeira portuguesa. Olho para a montra e lá está ‘poulet rôti portugais’, ‘tostas’ e mais um montão de coisas que, vendo bem, fazemos – nós portugueses – melhor que ninguém. Não entrei logo. Pensei primeiro que se calhar não era nada frango assado à maneira portuguesa e que o melhor seria refletir um bocadinho no assunto. Em casa não tinha, como frequentemente, nada de jeito à minha espera. Fui até à pequena Place Larue, admirei-a, considerei que é bastante parisiense e cheia de charme, ouvi um bocadinho de jazz que vinha de um dos café e voltei para trás. Entrei no pequeno (pequeno mesmo) restaurante, com mesas e cadeiras brancas e prateleiras onde se exibem galos de barcelos, sardinhas em louça, bugigangas portuguesas várias, azeite português, vinho português, biscoitos paupério, sumos compal, leite ucal, água do luso, água das pedras e, finalmente – o que realmente me convenceu da bondade do restaurante – um cartaz, lindíssimo, que assinalava os 20 anos do 25 de Abril. É que o frango podia até ser a maior porcaria, mas o cartaz perdoaria tudo.
 
Confiante dirigi-me aos camaradas, perdão, aos moços que estavam atrás do balcão e em francês perguntei se realmente o frango assado era frango assado genuinamente à portuguesa. O rapaz olhou para mim e disse, ‘mais oui, façon Aveirô’. Eu, que não imaginava que em Aveiro havia uma ‘façon’ especial de assar frangos, fiquei mais contente do que sei lá o quê e disse logo que eu era de Aveiro, mentindo descaradamente, mas pouco importa. E perguntei se o rapaz falava português. Mas claro que falava. E a rapariga, simpatíquissima, igualmente. De maneira que me sentei na mesa mais perto dos galos de Barcelos e das sardinhas de louça e preparei-me para comer ‘le meilleur poulet rôti au monde, façon Aveirô, a Paris’. A menina veio perguntar-me que parte do frango preferia e tudo. A perna e a coxa se faz favor. E metade de batatas fritas, metade de salada. E uma mini super bock. Pois claro. Ela ainda me quis tentar com uma alheira de mirandela, o ‘plat du jour’, mas não. Apesar da tentação ser grande, estava ali para comer ‘poulet rôti’ e era exatamente isso que comeria (suponho que a alheira, o bacalhau à brás e tudo e tudo ficarão para outros dias de emigrantite aguda ou apenas uma imensa fome). O frango era bastante bom, a cerveja estava fresquinha, a salada ótima e portanto tudo me sabia a Portugal.
 
No fim comi um pastel de nata, bom também. E um expresso. Delta, disse-me a menina com um sorriso cúmplice. O lugar foi-se enchendo, de franceses sobretudo. Evidentemente, pensei eu enquanto olhava para eles, evidentemente. Aprendam lá o que é um ‘vrai poulet rôti, façon Aveirô!’ e ia acrescentar ‘seus arrogantes’, devido ao que se passou no seminário de hoje sobre ‘ruralités contemporaines’, que basicamente – se querem a verdade completa – foi uma seca, com o orador a debitar sobre todos os seus livros e projetos, sem ter dito nada de interessante sobre as grandes questões da história rural francesa e espanhola, que, teoricamente, seria o seu tópico. Comprovei que, em algumas coisas, os franceses, vivem num mundo que é só deles, desdenhando de tudo o que fazem os outros, sobretudo se os outros forem ‘os ingleses’. O mesmo constatei na reunião que tive com a minha colega, de tarde. Basicamente levo muito tempo a justificar uma coisa com que ela não está de acordo, simplesmente porque não é em francês ou sobre a França. Na verdade, caros amigos franceses, agora que estou ‘en train de digérer le meilleur poulet rôti de tout la France… sauf qu’il etait portugais….’, quero lá saber se vocês pensam que inventaram a roda, se são muito mais complexos na definição de ‘paysannerie’ (campesinato) ou de ‘monde rurale’ do que o resto dos cientistas sociais todos no resto do mundo. Por mim, podem continuar assim mesmo, encerrados nas vossas cúpulas de cristal, a comer frango seco e a saber a mofo. ‘Peu m’importe’, agora que descobri que há uma ‘façon Aveirô’ de frazer frango assado, sempre vos digo que há também uma ‘façon Aveirô’ (ainda para mais hoje que a minha Universidade faz anos) de fazer estudos rurais e essa incluirá sempre os ingleses, os alemães, os finlandeses, os letões, os escoceses, os galegos, os catalães, os senegaleses, os etíopes, e todo o resto do mundo todo, incluindo os franceses, vá.
 
E agora, que já despejei a minha veia patriótica toda – devidamente ilustrada com a bandeira nacional (talvez uma estreia absoluta nestes postais) – vou dormir que amanhã os trabalhadores aqui da obra em frente são capazes de começar cedo com toda a espécie de ruídos infernais.

Comments

  1. Joao says:

    Só não percebi “uma mini. Uma?

  2. anónimo says:

    Continua o desfile de amigos do Dr Mário Soares.
    Coitado, não lhe bastava a debilidade…

  3. Nascimento says:

    Este ano em Setembro assisti a uma cena que só visto: em Rambuillet no Carrefour la do sitio, na secção do peixe, um garçon a vender sardinha tão nojenta, e a mandar frita-la a uma senhora que muito agradecida, sorria,toda plena de remoques oui,oui…so visto. O garçon com uma TESOURA ensinava a cortar a parte da barriga da sardinha, depois a cabeça ,etc.Quando lhe perguntei se aquela merda era para vender,, armou-se em sabichão, mas, levou um ensinamento sobre peixe que ainda deve de estar com as orelhas a arder. Quanto a senhora? Deixou de lado a ideia de ir mamar sardinha podre! Toma que já achas-te!

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