Professores apoiam declarações sobre acordo ortográfico

O título deste texto é tão enganoso como o do Diário de Notícias de hoje, em que se pode ler “Professores lamentam declarações sobre acordo ortográfico”. Na verdade, desconhecemos, o DN e eu, o que sentem os professores, de uma maneira geral, acerca das declarações de Francisco José Viegas, pelo que seria da mais elementar honestidade termos escolhidos ambos títulos diferentes. É claro que a minha escolha é provocatória; a do DN é, apenas, incompetente. O título escolhido pelo Paulo Guinote no comentário que faz a esta mesma notícia corresponde, afinal, à pergunta que deve ser feita.

Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português (APP), representando-se a si própria e falando, eventualmente, em nome dos associados da dita associação, lamenta as declarações de FJV e considera que se anda a “a brincar com os professores, alunos, pais, e toda uma comunidade”. Devo dizer que, em grande parte, concordo com muito daquilo que afirma a minha ilustre colega e, desde há vários anos, que vejo a APP participar em muitas dessas brincadeiras, tendo em conta a facilidade acrítica com que tem cavalgado várias ondas, incluindo a cobertura dada ao empobrecimento dos programas de Português do Secundário, passando pela aprovação dada à nova terminologia gramatical e terminando na aceitação deslumbrada do Acordo Ortográfico.

O DN quis também ouvir o professor Carlos Reis, um estudioso rigorosíssimo de matérias como a obra literária de Eça de Queirós ou a Teoria da Literatura. Na defesa do Acordo Ortográfico, no entanto, Carlos Reis tem revelado um entusiasmo inimigo do rigor e uma pobreza de argumentos que repete aqui, ao deixar implícito que só pode haver “política da língua” se houver um acordo ortográfico, como se a primeira implicasse necessariamente o segundo. Ao admitir “ajustamentos pontuais” coloca-se, no entanto, numa posição que se pode confundir com a de Francisco José Viegas.

Finalmente, aproveito para deixar aqui uma palavra de pesar para a displicência com que a comunidade docente aceita muitas imposições: é especialmente grave que continue a não existir uma reflexão sobre o Acordo Ortográfico. Como tem acontecido em muitas outras ocasiões, os professores limitam-se a encolher os ombros e a dizer, com um desencanto sofrido: “Agora é para fazer assim…”

Comments


  1. eu sou professor, de uma área que não de línguas, e não posso deixar de constatar – com muita tristeza minha – a falta de amor à língua, à escrita, à leitura, de grande parte dos meus colegas. claro que aceitam sem crítica o AO, estão preocupados em corrigir os testes antes das novelas da noite! ainda há uns dias assisti, incrédulo, a uma conversa de colegas sobre entrevistas a celebridades da casa dos segredos que usam como material de leitura nas aulas…

  2. Margarida Alegria says:

    Subscrevo o texto na íntegra!
    E concordo que muitos professores, com a sua subserviência conformada, acabam por deixar disparates como estes irem para a frente.
    Por vezes sentia-me a remar contra a maré, perante tantos que capitularam depressa.
    Foi assim também com a capitulação à absurda e “assassina” TLEBS “gramatical”.
    Porém esse tipo de conformismo docente tem uma atenuante: os docentes (os que estão no terreno e não os de uma pseudo-associação que não representa quase ninguém) nunca são ouvidos nestas questões. Quando enviam, das escolas, pedidos de esclarecimento e de protesto ao ME, nunca recebem resposta. E sintomático de como até a Comunicação social só se vira para os docentes quando se surpreende com manifestações de 100 ou 120 mil é o facto de só AGORA, quando o SEC fala de uma provável suspensão do AO, virem os jornalistas escrever títulos a veicular, supostamente, os professores a uma oposição às declarações de FJViegas.
    Antes nunca criavam títulos assim: consultavam a opinião de linguistas, tradutores, políticos, estas associações de “Professores de Português” fechadas nas suas redomas, mas nunca os professores.
    Para fazerem valer a sua voz, os professores só tinham os blogues e um ou outro artigo de jornal, caso fossem conhecidos (ex, a colega Maria do Carmo Vieira e a s suas posições corajosas anti-AO)…
    Por isso os docentes nunca mais deveriam aceitar este tipo de inovações constantes e a eito, quer em AOs, quer em programas, quer em currículos, sem serem auscultados directamente (pois os sindicatos servem apenas para debater questões laborais).

  3. António Fernando Nabais says:

    #2
    Também sou professor e, portanto, conheço bem as atenuantes que refere. Hoje, apeteceu-me falar só sobre as agravantes, o que não exclui autocrítica, claro.


  4. o que não exclui autocrítica, Edviges cavou um nicho ecológico muito particular na selva de nichos existentes, Carlos Reis que costuma aparecer na Televisão está mais no ramo da aquacultura

    pelo que esse Carlos Reis deve pertencer ao famigerado círculo Eça de Queirós que desde o estado novo se veio engrandecendo em nomes que o comum dos mortais desconhece

    os profes de português em vez de discutirem melhorias curriculares ou quiçá um apelo mais interessante às massas de alunos que se borrifam com o acordo

    fazem o mesmo que autarquias empresas púbicas e sindicatos estão contra qualquer reforma (neste caso particular de uma língua que já morreu há anos com o 1º vitamina T e suas 4 gerações de sucessores com sms….

    assis escondem a cornadura na areia e a tempestade que passe por cima…
    melhor nã seria d’esperar


  5. Resumindo mais uma força de bloqueio….já são uns 25 milhões de a força esteja connosco

    o problema é que só somos 10 milhões e picos….

    se os 400 trabalhadores camarários a 700 euros cada x 3 anos devem 840.000

    quem são os outros que devem os restantes 150 mil (são menos de 40?

    os sindicatos de professores já chegaram a um acordo sobre qual vai dominar o ministério este ano?

    o acordo ortho gráfico implica mais uns milhões de livrinhos….as editoras já deram brindes
    agora depois de pagos querem ver se ainda dão mais?

    um bom político depois de comprado fica comprado…

    nosso tecnocrata de serviço o grande Carvalho da Silva sabia disso…

    infelizmente substituiram-no por um não-profe….

    ainda somos 150 mil votos cambada….ou nos desacordam

    ou vamos prá rua fazer piadaS com o prior do Crato


  6. Carlos Reis, essa Edviges, estaremos muito provavelmente a falar de gente próxima da maçonaria que em Portugal se vai tornando um exemplo do mal que uma sociedade secreta com cadeias de lealdade e obediência próprias pode fazer a uma democracia.


  7. Estamos entregues à bicharada.


  8. A Edviges é boa gente nada de calandraus…cada um amanha-se como pode…

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  1. […] se afastem daquilo que é essencial: a sua condição de intelectuais. No último parágrafo deste texto, já tinha feito referência à displicência com que a comunidade docente aceita muitas […]

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