Lixo Jornalístico IV: a realidade paralela do jornal I

LJIV

Para enorme tristeza de significativa parte do eleitorado que conduziu Marcelo Rebelo de Sousa a Belém, a convivência entre o Presidente da República e o actual governo parece reflectir uma certa harmonia, o que deverá sempre ser relativizado porque o futuro é incerto e nada nos garante que não chegue o dia em que Marcelo acabará por tirar o tapete a António Costa. Até ver, é legítimo dizer que o presidente tem colaborado com o governo na defesa do interesse nacional.

Porém, e apesar do optimismo manifestado por Marcelo, nomeadamente no que diz respeito aos números do défice (onde até espetou uma alfinetada no seu amigo Passos Coelho) e da execução orçamental, o jornal I parece discordar de algo aparentemente unânime para a restante imprensa nacional, tendo inclusive publicado a capa que podemos ver em cima, onde se pode ler que o presidente não confia nas contas do governo. Palavras para quê, é o jornal de António Ribeiro Ferreira.

Fotomontagem@Os Truques da Imprensa Portuguesa

A Síntese e o Acordo Ortográfico: “sem problemas de maior”

Acabo de ler (através de ligação, neste excelente texto da Sarah) a Síntese. Por qualquer motivo que me escapa, lida a Síntese, lembrei-me, não de um, não de dois, mas de três, sim, três Orçamentos do Estado.

Vejamos aquilo que a Síntese nos conta: “terceiro sector” e “por setor de atividade”; “outros subsectores” e “transferências para outros subsetores“; “despesa efectiva” e “conjunto da receita efetiva“; “impostos indirectos” e “impostos indiretos“; “impostos directos” e “impostos diretos“; “última actualização” e “pela atualização das pensões”; “outros activos financeiros” e “com ativos financeiros” — ia-me esquecendo quer da cereja em cima do bolo (“Direção-Geral de Protecção Social”), quer da pièce de résistance (“pelo fato da informação não estar disponível”).

Sim, foi há dez meses que o ILTEC nos garantiu que:

o AOLP90 já foi quase plenamente aplicado, como o Estado determinou, sem problemas de maior

Execuções sumárias

Esquizofrenia: no terraço do hotel de luxo, junto à piscina em pastilha azul turquesa, enquanto bebem champagne de Champagne em flutes e comem canapés de caviar Petrossian servidos por imigrantes ilegais, os governantes mandam lançar os foguetes, e sorriem muito com dentes branquíssimos, e no céu os foguetes desenham um espectacular relógio com contagem decrescente que só pára em Maio próximo. Os governantes brindam: já está quase! Lá em baixo, na escuridão do túnel da austeridade branca e fina como um estilete, o povo, cheio de cortes por todo o lado, anda aos caixotes, e bebe Camilo Alves do tetrapak, e olha para cima e o que vê? Os governantes a fumar charutos (parece-me que são Davidoffs, mas sem certeza, cá de baixo não se consegue perceber) e a mandar flyers com os números e as palavras acordizadas da execução orçamental de 2013.

Esta é a execução orçamental do governo, sem torpezas nem cunhas

As contas curtas e cunhadas:

  • Balança de Bens e Serviços: 432.000.000 € (+)
  • Balança Corrente e Capital = 868.000.000 € (+)
  • Balança Corrente = 162.000.000 € (+)

As contas do Relatório de  Execução Orçamental de Maio 2013 do governo:

Página 49

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A análise e interpretação deste quadro são morosas e trabalhosas. São tarefas incompatíveis com actos de propaganda de feirante, destinada a influenciar os menos atentos.

Ser competente e honesto é indispensável, sendo também necessário estar de boa-fé. Segundo Vítor Gaspar afirmou ontem na AR, não estão considerados nestas contas a recapitalização do Banif, 1,1 milhões de euros; a ser considerada pelo Eurostat, a elevação do défice do 1.º trimestre atingirá 10%.

Para agravar as frustrações dos governantes, a que estamos sujeitos, e indefectíveis apoiantes, a CE acaba de sair-se com esta:

Bruxelas já vê mais riscos no cenário macroeconómico do Governo

Eu diria mesmo que Portugal é país completamente riscado e há muito.

Superavit de banha da cobra

No Expresso, 17 de Março de 2011

Execução orçamental: Governo atinge superavit histórico de 836 milhões de euros até Fevereiro

Lisboa, 17 mar (Lusa) — O Governo vai apresentar um superavit histórico de 836 milhões de euros na sua execução orçamental de Fevereiro quando comparado com um défice de 230,4 milhões de euros para o mesmo período de 2010, disse à Lusa fonte governamental.

Hoje

FMI avisa: sem medidas adicionais, défice será maior este ano

Se o Governo não tomar medidas adicionais, no âmbito do pacote da ajuda externa que está a ser negociado, Portugal não conseguirá cumprir com a meta do défice prevista para este ano (4,6 por cento do PIB). De acordo com as previsões do FMI, o défice orçamental ficará nos 5,6 por cento.

Em menos de uma mês, toda a propaganda se desmorona. Alguém pode fazer o favor de pedir um comentário ao senhor Nicolau Santos? E já agora, podem avisar os eleitores que é de abrir os olhos perante a banha da cobra? Obrigado.

A execução orçamental está a correr bem

José Sócrates, contratado pelo governo alemão para desempenhar as funções de carrasco do orçamento das famílias portuguesas, declarou que a execução “está a correr bem, para não dizer muito bem, em Janeiro e Fevereiro.” Quando interrogado sobre se os métodos utilizados não serão demasiado dolorosos, Sócrates declarou que é adepto da morte lenta: “Apesar de tudo, é mais humano, acho eu: um corte agora, outro mais tarde, e os orçamentos vão perdendo as forças e a capacidade de reacção. A srª Merkel preferia uma coisa mais tipo guilhotina, mas eu lá a vou convencendo.” José Sócrates aproveitou, ainda, para elogiar os seus assistentes, com realce para Pedro Passos Coelho: “Embora ainda não tenha muita prática com o machado, vê-se que há ali potencialidades. Quando eu sair, o lugar de carrasco ficará, com certeza, porreiramente entregue, pá!”

Cartoon roubado aqui

Ir aos dos costume e à bruta

Vem no Económico: «acumular remunerações no Estado que, no total, excedam 1.500 euros verá o seu salário reduzido com efeitos a 1 de Janeiro». A estratégia é, obviamente, arranjar mais dinheiro vindo dos impostos.

Foi anunciado que em Janeiro de 2011 a banca começaria a pagar um novo imposto, os lucros da banca estão em franca ascensão e os respectivos impostos em queda e todos os outros impostos estão jubilosamente a ser cobrados, levando a um aumento da receita fiscal em 15%.

Portanto, que justificação tem este governo para ainda não ter concretizado o que se propôs fazer? Será para “beneficiar das melhores práticas dos diferentes países da União Europeia neste domínio”, como afirmou Sócrates há algum tempo? Se é assim, olhe-se ali para o IVA e para o ISP (Imposto sobre Produtos Petrolíferos) de Espanha, que também é Europa. Ou será que IVA a 18% e 50.5% de carga fiscal sobre os combustíveis na Espanha (respectivamente 23% e 58% em Portugal) não “das melhores práticas”?

O primeiro-ministro diz que este novo imposto “estará regulamentado no primeiro semestre deste ano” e que reportará a “1 de Janeiro de 2011”. Cá estaremos para ver se tal acontece. Certo, certo é que aos do costume já se está a ir e à bruta.