Paco Bandeira e o ódio dos 40

É conhecida aquela anedota, já bem antiga, que desvenda a verdadeira razão de ser do pseudónimo Paco Bandeira. Ao que parece, o pai dele chamava-se Mário Ninha e a mãe Isabel Nassa. Se adoptasse o nome do pai ficaria Paco Ninha, se adoptasse o nome da mãe ficaria Paco Nassa. Assim, preferiu escolher Paco Bandeira.
Lembrei-me desta anedota quando veio a público, nos jornais, o julgamento do cantor por violência doméstica. A ex-mulher acusa-o de maus-tratos constantes enquanto estiveram casados e mesmo de lhe apontar uma arma à cabeça. A mesma arma que vitimou a primeira mulher de Paco Bandeira, que apareceu morta na casa do casal e que, na altura, a Polícia interpretou como tendo sido um caso de suicídio. O irmão da falecida, à luz dos novos acontecimentos, exige a reabertura do processo.
É extraordinário como a violência doméstica é uma praga transversal a toda a sociedade portuguesa e que não escolhe idades, profissões ou grupos sociais. Casos incríveis, que conheço directamente, como o de uma Juiza que é alvo de violência doméstica, ou de uma advogada de um organismo do Estado que é ameaçada e perseguida diariamente pelo marido à frente de toda a gente. [Read more…]

E diz ele à sua protegida…

“Vou ali falar com aqueles senhores. Quando eles vierem, tens de ter abertura e flexibilidade, ouviste? E fazes tudo o que te pedirem ou vamos ter problemas, estás a perceber? E se os senhores disserem que tens de lhes pagar, pagas e mais nada, entendeste? Fica aí, que depois falamos melhor!”

Não é vítima de violência doméstica quem quer

Um homem, ou algo parecido, foi condenado pelo crime de violência doméstica e recorreu para o Tribunal da Relação de Évora.

O Tribunal da Relação de Évora não negou que o arguido tenha agredido diversas vezes a mulher, desde 2004. Não pôs em causa que no dia “06 de Junho de 2008, o arguido, agricultor, agrediu a mulher com uma cadeira, dando-lhe uma pancada no peito e provocando-lhe uma contusão da parede torácica, um hematoma na região frontal e na mama e escoriações nos lábios e cotovelo.” O mesmo tribunal, no entanto, considerou que a sentença da primeira instância é vaga e, a propósito das agressões não “esclarece o número de ocasiões em que as agressões ocorreram, a quantidade de murros e pontapés em causa ou qualquer elemento relativo à forma e intensidade como foram desferidos, ao local do corpo da ofendida atingido e suas consequências, em termos de lesões corporais.” Finalmente, a propósito da agressão do dia 6 de Junho de 2008, o Tribunal da Relação de Évora considerou que “uma contusão da parede torácica, um hematoma na região frontal e na mama e escoriações nos lábios e cotovelo” não configuram uma agressão “suficientemente intensa”.

Não me espantaria que os juízes, para terem chegado a uma conclusão destas, tenham experimentado ser agredidos com um sofá de três lugares, uma cristaleira antiga e uma cama IKEA. Face a isso, o que vale, efectivamente, uma cadeira? Para além disso, esteve mal a vítima ao não trazer consigo um caderno onde fosse anotando, em pormenor, as agressões do marido, desde 2004. Será importante, aliás, que as mulheres portuguesas aprendam a lição e tenham sempre material de escrita à mão, o que lhes poderá ser útil enquanto o marido lhes dá pontapés na cara ou outros afagos menos intensos.

Enfim, é bonito registar como há uma saudável concorrência entre os tribunais.

Os juizes portugueses serão atrasados mentais?

Tudo no mesmo dia:

. O Tribunal da Relação de Coimbra considerou que o homem que deu duas bofetadas na ex-mulher não pode ser condenado por violência doméstica.

. O Supremo Tribunal de Justiça ilibou a REFER do pagamento de uma indemnização de 80 mil euros à família de uma jovem que foi colhida por um comboio na Estação de Ovar depois de ter conseguido passar por um buraco no muro que impede o acesso às linhas.

. O Supremo Tribunal de Justiça condenou um professor de Educação Física ao pagamento de uma indemnização de 75 mil euros a uma aluna que se lesionou ao fazer um salto mortal, exercício obrigatório no 9.º ano.

Ora, temos aqui que dar duas bofetas não é violência doméstica (quantas seriam necessárias?, pergunta muito bem Ana Matos Pires), que uma empresa não tem de cuidar das suas infra-estruturas, sobretudo aquelas que oferecem perigo para os seus utentes, e que um professor é o responsável por uma aluna se magoar ao fazer um exercício obrigatório e tem o dever de estar em todo o lado ao mesmo tempo. Agora que o Governo quer acabar com os pares pedagógicos em EVT, quando um aluno vazar um olho com um x-acto já têm quem responsabilizar. O professor, claro.

Perante estas inexplicáveis decisões da Justiça portuguesa, que, comme d’habitude, penaliza sempre a parte mais fraca (a mulher em detrimento do marido, a jovem em detrimento da grande empresa, o professor em detrimento da aluna), aguarda-se com expectativa a febril intervenção desse paladino da verdade e da honestidade, desse infatigável defensor dos pobres e dos oprimidos que dá pelo nome de Marinho e Pinto.

A minha história de violência doméstica

Venho pela primeira vez partilhar a minha história de violência doméstica.

Namorei durante 5 anos com a pessoa mais querida e doce do Mundo. Era atencioso, querido e carinhoso, conheci-o no emprego e estava a atravessar uma época muito má da minha vida. Estava carente e só e ele aproveitou-se disso. Após 5 anos, decidimos casar. Na noite de núpcias, houve uma coisa que me disse, tu és minha para sempre’. Na altura, não liguei, até que ao fim de 2 anos de casamento tudo mudou.
Começou com uma bofetada, só porque não tinha as mesma ideias dele. Pediu desculpa e durante alguns meses não aconteceu nada, até que passou para as agressões psicológicas. Começou a controlar com quem falava, se saia, fez-me despedir do meu emprego para ficar em casa. Sempre que chegava a casa bêbado, bastava ver-me para as agressões psicológicas começarem. Era ‘puta’, ‘cabra’, que ele me iria educar, porque estava mal educada. Quando uma vez fiz-lhe frente deu-me um murro que fiquei KO, ai ele obrigou-me a fazer sexo com ele, sempre a bater-me, fiquei grávida da minha filha nessa noite, mas, mesmo assim continuou a bater-me em toda a gravidez, por isso tive sempre em risco de aborto. Quando ela nasceu, as coisas pioraram, tirou-me o meu carro, cartões bancários, BI, tudo o que pudesse, proibiu-me de falar ou ir a algum lado, tinha que estar em casa isolada do Mundo, telefonava várias vezes por dia para me controlar. Emagreci 22 Kilos, estava esqueléctica, não dormia e não comia, partiu-me 3 costelas, e a cana do nariz, fui parar 3 vezes ao Hospital, a ultima vez estava com 15 equimoses no meu corpo, fora as vezes que eu me curava em casa. O ano passado disse para mim ‘BASTA’, sai de casa a meio da noite, sem dinheiro, com a minha filha de 15 meses atrás, e meia dúzia de tarecos. Não se importa com a filha e continua a querer ‘mandar’ em mim, mas, prometi a mim própria que nunca mais, teria medo dele, nunca mais ele teria as rédeas da minha vida, nunca mais me humilhava, nem me batia. Por isso vivo actualmente um dia de cada vez, com os meus fantasmas, e os meus medos, mas com a esperança que um dia acordo sem eles em mim.

Boa Tarde,
Venho pela 1º vez partilhar a minha história de violência doméstica. Namorei durante 5 anos com a pessoa mais querida e doce do Mundo, era atencioso, querido e carinhoso, conheci-o no emprego, e estava a atravessar uma época muito má da minha vida, estava carente e só, e aproveitou-se disso. Após 5 anos decidimos casar, na noite de núpcias, houve uma coisa que me disse, ‘tu és minha, para sempre’, na altura não liguei, até que ao fim de 2 anos de casamento, tudo mudou, começou com uma bofetada, porque não tinha as mesma ideias dele, pediu desculpa a durante alhuns meses não aconteceu nada, até que passou para as agressões psicológicas, começou a controlar com quem falava, se saia, fez-me despedir do meu emprego para ficar em casa, e sempre que chegava a casa bebado, bastava ver-me para as agressões psicológicas começarem, era ‘puta’, ‘cabra’, que ele me iria educar, porque estava mal educada. Quando uma vez fiz-lhe frente deu-me um murro que fiquei KO, ai ele obrigou-me a fazer sexo com ele, sempre a bater-me, fiquei grávida da minha filha nessa noite, mas, mesmo assim continuou a bater-me em toda a gravidez, por isso tive sempre em risco de aborto. Quando ela nasceu, as coisas pioraram, tirou-me o meu carro, cartões bancários, BI, tudo o que pudesse, proibiu-me de falar ou ir a algum lado, tinha que estar em casa isolada do Mundo, telefonava várias vezes por dia para me controlar. Emagreci 22 Kilos, estava esqueléctica, não dormia e não comia, partiu-me 3 costelas, e a cana do nariz, fui parar 3 vezes ao Hospital, a ultima vez estava com 15 equimoses no meu corpo, fora as vezes que eu me curava em casa. O ano passado disse para mim ‘BASTA’. Saí de casa a meio da noite, sem dinheiro, com a minha filha de 15 meses atrás e meia dúzia de tarecos. Não se importa com a filha e continua a querer ‘mandar’ em mim, mas, prometi a mim própria que nunca mais, teria medo dele, nunca mais ele teria as rédeas da minha vida, nunca mais me humilhava, nem me batia. Por isso vivo actualmente um dia de cada vez, com os meus fantasmas, e os meus medos, mas com a esperança que um dia acordo sem eles em mim.

Lara Lino, publicado originalmente como comentário ao «post» Que nunca vos faltem as balas

Vítimas de Violência Doméstica: Que nunca vos faltem as balas #2:

Ao ler mais ESTA notícia só posso recordar esta posta:

“….Cada tiro dado por uma mulher vítima de violência doméstica é um grito, o grito do desespero, de dor e raiva contra a indiferença. A todas estas mulheres, a todas estas vítimas arredadas das construções teóricas dos doutos senhores do direito pátrio, só posso deixar uma frase solidária: “Que nunca vos faltem as balas!”.

Ler o resto AQUI.

Vítimas de violência doméstica: Que nunca vos falte a Ana Matos Pires!

Outros aventadores já abordaram o tema aqui, aqui e aqui.
Marcou-me muito quando, em criança, vi um tipo a dar uma valente estalada à mulher dentro do autocarro. E ela comeu e calou à frente de toda a gente. Essa imagem marcou-me até hoje.
É um dos crimes mais hediondos. Por mais que me esforce, não consigo compreender como é possível bater numa mulher ou numa criança e fazê-lo repetidamente durante anos. Bater repetidamente em quem não tem a mesma força, em quem não se pode defender. Da mesma forma que não consigo compreender que muitas mulheres não se revoltem mais cedo, sobretudo quando não precisam dos maridos para nada.
Eu sei, eu sei. São sempre questões complicadas, geralmente há filhos, por vezes há dependência económica e/ou psicológica. Continuo sem perceber alguns dos casos que conheço pessoalmente – um dos quais tem como vítima uma juiz do Grande Porto.
Quanto ao castigo, nunca é demais. Sou contra a pena de morte, porque o Estado não tem o direito a tirar a vida de ninguém – quem é um juiz para fazê-lo? Mas quando uma mulher, habituada a levar pancada durante anos, mata o marido em desespero, encaro-o apenas como legítima defesa. Que nunca lhes faltem as balas!, como diz o nosso Fernando. Infelizmente, é quase sempre ao contrário – a estocada final culmina uma vida de agressões.
Apesar da seriedade do tema, faz-me espécie que alguém se entretenha a contabilizar diariamente, no seu blogue, o número de vítimas de violência doméstica e a fazer apostas – quantos é que serão nos próximos dias? Chamar a atenção para o assunto, tudo bem, mas o que é demais é moléstia.

Vítimas de violência doméstica: que nunca vos faltem as facas!

Na sequência do post anterior do FMS permitam-me que vos pergunte:
– Têm 10 anos! O vosso (cruzes! credo! canhoto!) Pai, separado da mãe e fora de casa, teima em aparecer por lá para se servir dela. Um dia têm a possibilidade de pegar numa faca e fazer justiça?
Fazem o quê?
Espetam?
Pois… Aqui ao lado foi isso que aconteceu e podem acreditar nisto: qualquer semelhança com a ficção, é pura realidade

Vítimas de Violência Doméstica: Que nunca vos faltem as balas!

Ontem uma mulher matou o marido a tiro quando tentava sair de casa a caminho do paraíso depois de mais de trinta anos de inferno.

Eu andei uns anos em Direito, mas andei torto. Não gostava daquilo nem com molho de tomate. Cada vez que tentava ler um livro jurídico passava por algo como tomar óleo de fígado de bacalhau. Salvo uma ou outra honrosa excepção como História do Direito Romano. Foi no 3º ano, quando dei de caras com a cadeira de Penal, que interiorizei que estava a prazo, apenas me faltava a coragem pois o motivo já o tinha. Chegado ao 4º ano, chegou a coragem e parti. Em boa hora pois assim abracei um sonho antigo e realizei-me. Ao ouvir todas aquelas teorias do direito criminal, velhas e retintas, tão desfasadas da realidade, adaptadas a autómatos e não a seres humanos e a uma sociedade actual, fiquei apavorado. Depois, depois foi assistir a uma meia dúzia de doutos professores de direito ufanos na sua pretensa sabedoria, vomitando saberes de experiência nunca feita, de braço dado com as suas tradições coimbrãs absurdas e estranhas, transpirando um qualquer ressentimento fruto de uma qualquer frustração escondida nunca entendida.

Foi deles que me lembrei, é deles que me lembro sempre, quando leio mais uma notícia de uma mulher assassinada às mãos de mais um monstro que se julga não marido mas seu dono, como se de um cão, gato ou periquito se tratasse. Nesta merda de país onde, com a mais absoluta impunidade, milhares – sim, milhares, leram bem, milhares – de mulheres são selvaticamente abusadas, violentadas, agredidas e assassinadas por monstros que se julgam maridos ou companheiros – desculpem insultar as palavras marido e companheiro que são a antítese destes filhos da puta que por aí andam – com a total indiferença do sistema jurídico, político e da sociedade. Eles violentam as mulheres, assim como os filhos que nascem dessa união maldita.

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Quando a água e o azeite se misturam

Por vezes o azeite mistura-se com a água. Quando acontece nem tudo é assim tão transparente. Por isso, nem todos os casos de violência doméstica são de diagnóstico simples, porque esta violência, como outras, não é sempre clara como água.

 

Não são as nódoas negras, nem os braços partidos. São outros sinais, outras mazelas, que um estudo europeu (de nome DoVE) pretende avaliar. Portugal está na primeira linha desta investigação. Ainda bem.