O FC Porto como valor acrescentado

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Um comentário do aventador Miguel Dias num “post” do Fernando Moreira de Sá, a propósito do tetracampeonato do FC Porto, levou-me ao baú das recordações. Nem foi preciso procurar muito, nem me enchi de pó, porque a memória que pretendia não morava longe. Tem uns dois meses. Foi escrita para um outro espaço mas permanece totalmente actual.

Lembrei-me dela por causa do breve comentário do Miguel Dias, que salienta haver “muito de revanche, de ódio visceral a raiar o sadismo”, na forma como os adeptos do FCP festejam. Fala de humilhação e de um dos factores de bloqueio do Porto serem as vitórias do principal clube da cidade. “Conclui-se que o porto cidade, porque noutras esferas não tem o poder (e competência, conceda-se do pinto da costa) não é mais do que é por causa doa poderes ocultos da capital”.

Não concordo. Bem sei que há alguns indivíduos que, em vez de exaltarem os triunfos próprios, preferem acicatar os orgulhos feridos das derrotas alheias. Acontece com adeptos do FCP como acontece com simpatizantes de outros. Mas não é a maioria.

O tempo em que o Porto olhava para Lisboa com um misto de desdém e inveja, também já lá vai, parece-me. O Porto, cidade e região, caíram num fosso em que já não vale a pena ter sentimentos desse género, por muito ridículos que fossem.

Lisboa é a capital do país e ainda bem. Para o bem e para o mal. Não é por aí que o Porto terá razões de queixa. Nem sequer vale a pena reforçar a ideia que a Invicta se irrita com o famoso centralismo que, de tão real, não vale a pena esconder. Às vezes enfurece-se com razão, noutras vezes não.

Vamos, se me dão licença, e com ligeiros retoque, ao que escrevi há dias.

Hoje, a cidade do Porto, a sua Grande Área Metropolitana do Porto e a região Norte mais parecem uma manta de retalhos que uma união de vontades e interesses. A fórmula de gestão do aeroporto parece ser, por estes dias, a única coisa que faz levantar de manhã a Junta Metropolitana do Porto. Demais, há um deserto enorme. Nem num instrumento determinante para a mobilidade da região há um debate sério e busca de consensos. A linha do metro para Gondomar, que deveria ter entrado na primeira fase do projecto, só agora começa a ser executada. Nada de mais, só tem 10 anos de atraso.

A administração estratégica, para lá da rotina do dia-a-dia, não existe. Cada município está feliz no seu cantinho, a brincar com as pequenas coisas, numa espécie de “The Sims” para os crescidos. De projectos comuns e ideias de coordenação, com poucas e honrosas excepções, nem vale a pena falar. Por falta de vontade, de querer, de saber ou, ainda pior, por invejas e egoísmos, a cidade e a região lá vão caminhando, cada um para seu lado. Mas é um percurso trôpego, com muitos tropeções e demasiadas quedas.

A transferência das sedes dos bancos do Porto para Lisboa (ainda hoje o Público lembrava o nascimento dos bancos na capital do Norte) fez quase desaparecer o peso económico de uma balança cada vez mais desequilibrada. Daqui até à saída da bolsa foi um instantinho. A indústria está em queda desde que os fundos de apoio do passado serviram, sobretudo, para melhorar a frota automóvel e comprar uns néons novos, em vez de uma séria reestrutura tecnológica e uma digna formação técnica dos funcionários. Nem os milhões de outros quadros de financiamento chegaram para lamber as feridas abertas. É certo que, neste aspecto, o panorama melhorou, mas perderam-se anos, empresas e empregos. A ‘capital do trabalho’ também mudou para a capital e arredores. No Porto e no Norte trabalha-se muito ainda, nalguns casos também muito bem, mas os índices mostram que a maior produtividade já não mora aqui. Os números, frios e cruéis, dizem isso. E os números, como todos sabemos, são como o algodão.

De peso mediático nem vale a pena falar. No passado os autarcas do norte ainda eram ouvidos sobre os grandes projectos nacionais e até sobre o orçamento de Estado se lhes pedia uma palavrinha. Hoje não há nenhuma televisão nacional que os queira ouvir. A não ser que haja chatices e problemas. O local dos jornais pouco mais é que um pequeno repositório do labor dos municípios e pouco mais, fazendo lembrar uma qualquer gazeta oficial.

O Porto, cidade e região, definha progressivamente. O norte, seguindo os traços da sua capital, acompanha esse processo. Nós, os portuenses, os nortenhos, orgulhosos da nossa história, da nossa Invicta e do patrimónios mundial tão desgraçadamente aproveitado, felizes por pertencermos à mais bela região do país, onde há montanhas, rios, planícies, praias, o vinho do Porto, uma gastronomia invejada e maternidade de grandes personalidades das artes, continuamos a assistir a esse definhamento.

Volta e meia, lá ficamos contentes por pequenas – ou grandes – vitórias pontuais. Porque o FC Porto volta a ser melhor que os outros (o que não é normalmente difícil), porque o Manoel de Oliveira fez 100 anos, porque o Carlos Tê e o Rui Veloso fizeram o “Porto Sentido” que é mais bonito que o “Lisboa menina e moça”, porque Agustina é uma mulher do Norte, porque o Infante de Sagres nasceu na Ribeira, porque temos a Fundação e o Museu de Serralves, ou o Parque da Cidade, ou a Lello, a mais bela livraria do mundo, e a Red Bull Air Race e os outros não têm, ou simplesmente porque sim.

Por isso é que as vitórias do FC Porto são apenas vitórias desportivas mas, ao mesmo tempo, vão para além disso. Sobretudo num momento em que Pinto da Costa parece ser o único timoneiro de uma entidade nortenha que é um verdadeiro valor acrescentado.

2 comentários em “O FC Porto como valor acrescentado”

  1. Ricardo, como sabes nasci em penafiel e os meus pais são dessa região, o sangue que me corre nas veias é igual ao teu.Estou, pois, à vontade para te dizer que o exercício que aqui fazes é de uma grande clarividência.Porque o Porto paga muito elevado por ser a “mui nobre e leal cidade,”paga por ser autêntico, por ser individualista, por correr atráz de quimeras que se esfumam todos os anos.E, quando se espreme a laranja ,está na situação que tu muito bem classificas. Há 25 anos atrás havia gente aí em Felgueiras e Longra (eu era administrador de uma empresa e a fábrica ficava aí na região)que já me diziam que seria este o caminho dessa região! Por caso por dizer isto Os nortadas deixaram de me falar!

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