Anti-Corrupção

A desconfiança em relação aos partidos políticos é muito grave e a recente Lei do Financiamento dos partidos agravou essa percepção.Não é possível- como se tem visto nos últimos vinte anos- que as reformas estruturais que todos sabem quais são, sejam efectuadas, enquanto perdurar este espírito de desconfiança.Assim, a primeira grande prioridade do próximo governo, seria lançar um pacote legislativo anti-corrupção!O actual governo tem vindo a tomar medidas que acentuam a desconfiança dos cidadãos,desde a eliminação de concursos públicos e a entrega por ajuste directo de obras públicas,até à Justiça cara e que não funciona, passando por prioridades em mega projectos questionados por todos e que se adaptam como uma luva aos grandes e costumeiros grupos económicos.O acentuar da crise arrasta os cidadãos para situações pessoais e familiares muito dificeis o que vai acentuar, ainda mais, a percepção da corrupção.Dois terços de nós consideram que o governo não tem sido eficaz no cambate à corrupção!Sem confiança e sem credibilidade nenhum governo conseguirá tomar e implementar no terreno as medidas estruturais que todos sabem quais são.É só preciso ter força política e a confiança dos cidadãos para tirar o país deste caminho que nos arrasta para o empobrecimento!Mas para isso o exemplo terá que vir de cima, não podemos desconfiar de quem nos governa,não podemos ter governantes envolvidos em práticas e em casos que não abonam a sua honestidade! Sem um pacote de leis anti-corrupção corajoso nenhum governo deixará obra!

5dias.net: não têm notícias sobre as eleições no GL?

Ora viva,
camaradas do 5dias.net: como está a contagem de votos? Vai bem?

A morte sobre Saigão

Um livro extraordinário escrito por um jornalista americano que cobriu a guerra no Vietname.
A aviação americana bombardeava a floresta durante o dia, enquanto havia a luz do sol. Não ficava viva alma à superfície da terra.
Passada uma hora a vida renascia. Veio depois a perceber-se a razão do milagre. Autênticas cidades tinham sido construídas no subsolo. Soldados vietnamistas a quem era dado o “tiro da misericórdia” e que antes de morrerem matavam uns quantos soldados americanos. Uma percentagem significativa de soldados USA morriam de ataques cardíacos.
No presente vemos no Iraque ataques suícidas de crianças e de adolescentes. Vemos comportamentos desumanos em interrogatórios e choques traumáticos pós-guerra que chocam o cidadão comum. A América horrorizada está agora a descobrir (ontem como hoje) que os seus melhores filhos, habituados ao calor de uma boa vida, recorrem a tudo o que é droga para aguentarem a pressão em teatro de guerra. O que explica comportamentos que nos envergonham enquanto cidadãos.
Ninguém quer compreender que uma sociedade que prepara pessoas para uma vida de facilidades não pode esperar que estejam preparadas para a guerra. É fácil premir um botão num avião a centenas de quilómetros de distância, sem ver a cara do inimigo! É muito dificil estar perto de sangue, músculos, ossos, sofrimento! Lá, como cá, esses jovens vão ficar esquecidos, a sociedade tambem não suporta a sua existência, prova última do seu fracasso!

Eurojust: Presidente de mota

Com este Governo todas as vergonhas nos vão acontecer.
Temos um magistrado presidente de uma instituição judicial europeia sujeito a um processo disciplinar. Confirmou, ele próprio, que falou com colegas sobre o processo Freeport a mando do Ministro da Justiça e usando o nome do Primeiro Ministro. O processo Freeport passa pelo Eurojust! Os colegas com quem ele falou são os titulares do processo!
O que é preciso para este senhor se demitir? Ter vergonha! Não é preciso ser um tribunal a dizer-nos o que pensamos do comportamento deste magistrado, nem os prejuízos que causa na UE ao bom nome de Portugal! Demita-se! O PS não quer deixar que o senhor Mota seja ouvido no parlamento. Pois não, mas seria bastante interessante saber as razões de o Sr Ministro e o Sr. Primeiro Ministro não o accionarem judicialmente.
Por bem menos acusaram jornalistas!

Um chip para mim, um chip para ti.

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Já não bastava as câmaras de segurança, os BI’s todos artilhados de chips e cenas electrónicas, agora sempre vão avante com o raio do chip na matrícula. Pensei que se tinham esquecido disso com esta coisa da “crise”. Ainda a semana passada falei nisso aqui em casa, e disse logo aqui ao pessoal para acabarem com a conversa que eles ouvem tudo. E não é que me vêm outra vez com a porcaria do chip? Eu avisei para estarem calados, mas nunca me ouvem. Pior do que isso, é que parece que o tal DEM (Dispositivo Electrónico de Matrículas), nem é na matrícula, é no sítio do outro aparelhómetro da Via Verde. Deviam mudar o nome para DEMOMNSAVV (Dispositivo Electrónico Mais ou Menos no Sítio do Aparelhómetro da Via Verde). Vai ser engraçado para aquele pessoal que já tem no tablier e no vidro um pequeno LCD, o VCD, as colunas, a Nossa Senhora de Fátima e o GPS, que qualquer dia têm de ir com a cabeça de fora para conseguir ver a estrada… Aqui, estes senhores, explicam tudo direitinho sobre o chip. Eu, que estou totalmente paranóico com tanta vigilância orwelliana, e ainda nem fiz nada(!), fico ao menos, totalmente descansado porque estão envolvidas empresas privadas nesta brilhante negociata. Uma delas é a Mota-Engil. Estou mais descansado. Assim sei que o “self-interest” desta empresa vai zelar pelo meu bem-estar e dos outros portugueses. Isto é que vai ser facturar: cobrar realmente em portagens virtuais. O sonho capitalista tornado realidade. Não! É o pesadelo capitalista tornado realidade. Quer dizer, já não sei… isto é um choque ideológico ultimamente que me confunde todo…
Em parte, eu até acho bem, porque já me roubaram a matrícula por duas vezes… e levaram o carro junto. Curiosamente, de uma das vezes, o carro apareceu, mas a matrícula não…

Fica só a pergunta: para quando o CHIP para políticos e legisladores? Só para sabermos onde eles andam.

Mario Benedetti, 1920-2009

Mario Benedetti Defensa de la alegría Defender la alegría como una trinchera defenderla del escándalo y la rutina de la miseria y los miserables de las ausencias transitorias y las definitivas defender la alegría como un principio defenderla del pasmo y las pesadillas de los neutrales y de los neutrones de las dulces infamias y los graves diagnósticos defender la alegría como una bandera defenderla del rayo y la melancolía de los ingenuos y de los canallas de la retórica y los paros cardiacos de las endemias y las academias defender la alegría como un destino defenderla del fuego y de los bomberos de los suicidas y los homicidas de las vacaciones y del agobio de la obligación de estar alegres defender la alegría como una certeza defenderla del óxido y la roña de la famosa pátina del tiempo del relente y del oportunismo de los proxenetas de la risa defender la alegría como un derecho defenderla de dios y del invierno de las mayúsculas y de la muerte de los apellidos y las lástimas del azar y también de la alegría.

Fim da crise ou começo do fim? Aproxima-se a hora da Negação da Negação… a hora da liberdade!

Após alguma aparente recuperação da economia mundial, quando as bolsas pararam provisoriamente de cair, logo veio um relativo optimismo. Os economistas lacaios do capital já chegavam a anunciar um fim próximo para a atual crise do capitalismo mundial.
Por exemplo: no Brasil, o economista da ditadura, Delfim Neto (hoje “companheiro” de Lula, ontem, no período entre 1967 e 1974, ministro da Fazenda, e depois, entre 1979 e 1985, ministro do Planeamento), logo se manifestou profetizando a recuperação breve do capitalismo brasileiro e de todo o mundo.
Fazendo coro com o “psicologismo” económico optimista de Delfim, muitos outros economistas lacaios se manifestaram na mesma direção.
No entanto, o optimismo psicológico dos economistas lacaios do capital e aliados de ditadores não é capaz ou suficiente para transformar os factos da realidade material.
A Bolsa de Valores de São Paulo, a Bovespa, na sexta-feira, dia 15 de maio de 2009, fechou em queda de 0,89%, terminando a semana com uma baixa total de 4.65%, interrompendo uma sequência de nove semanas de alta.
Na economia mundial, a situação não é muito diferente. Apesar de certas calmarias breves e das declarações pseudo-optimistas dos diversos economistas burgueses, nada mudou no rumo geral da barbárie capitalista que avança e avança. Palavras e prognósticos positivos não são capazes de mudar a realidade do movimento do capital a deteriorar-se e não conseguindo mais valorizar-se.
Na economia mundial, destaca-se como modelo o caso da GM. Sendo uma das maiores empresas automobilísticas do mundo, a GM anunciou o fecho de perto de 2.400 concessionárias nos Estados Unidos da América até o próximo ano de 2010. Só esse dado mostra a gravidade e profundidade da crise do sistema capitalista, hoje um sistema produtivo montado sobre rodas…
No entanto, as rodas já não conseguem girar. As múltiplas contradições de uma economia embasada, em grande parte, na irracionalidade da indústria automobilística e, mais, profundamente, no valor como sujeito, manifestam-se de maneira irreversível.
O capital cava a sua cova, pouco a pouco, como profetizou Marx. Na economia mundial, aprofundam-se os processos de compra ou fusão de empresas, tanto à escala nacional como a nível mundial. Aproxima-se a hora final!
No Brasil, por exemplo, a Perdigão e a Sadia negoceiam a unificação, que, na verdade, deve ser a expropriação da Perdigão pela Sadia, empresa beneficiada pelo governo desde que Furlan, ligado à Sadia, foi ministro de Lula. Neste caso, o Estado aparece como co-participante na “fusão”, expropriação, ou concentração de capital. Nada diferente ocorre à escala mundial: hoje, a Fiat negocia a absorção da Opel, filial alemã da GM. Múltiplos processos similares poderiam ser citados. Diversas grandes corporações estão a ser expropriadas pelas suas rivais. Esta é uma lei do sistema capitalista. Sobretudo em grandes crises, os capitalistas expropriam os próprios capitalistas e aumenta a concentração de capital. Mas, ao mesmo tempo e na mesma relação, aumenta o processo contraditório.
A expropriação dos capitalistas, pelos próprios capitalistas, só aumenta a concentração de capital e prepara uma nova expropriação, aquela realizada pela classe trabalhadora, a expropriação definitiva. Trata-se da expropriação feita pela classe trabalhadora contra aqueles que dominam os meios de produção.
Trata-se da Negação da Negação! Trata-se de negar os capitalistas negadores da vida! Trata-se de negar aqueles que poluem o mundo! Trata-se de negar aqueles que destroem a vida no planeta Terra, trata-se de negar aqueles que negam a vida, o trabalho e o amor de forma livre e libertária!

MNN – Movimento da Negação da Negação
http://www.movimentonn.org/

De volta ao mar


O hypercluster a criar pode ser o novo motor da actividade empresarial nacional, gerar emprego e criar riqueza.
O potencial económico relacionado com a zona marítima foi avaliado em 20 000 milhões de euros, ou seja, 12% do PIB! (in “Hypercluster da Economia do Mar”, de Ernâni Lopes). Este potencial pode ser atingido em 2025. Estas actividades abrangem vários sectores, desde os portos ao turismo, passando pelas pescas e pela energia até à biotecnologia.
Portugal já pediu nas Nações Unidas o alargamento da Zona Marítima Portuguesa, o que daria a Portugal a soberania sobre mais de dois milhões de quilómetros quadrados (23 vezes a área continental). A estratégia passa por:
i) reestruturar rede portuária
ii) centros de mar para náutica
iii) concessão de quintas marítimas
lV) observatório do mar
V) exploração energética
Vl) registo internacional
Vll) criação de estaleiros
Vlll) investigação aplicada
lX)monitorização do litoral
X) Marinha forma civis
Xl) áreas protegidas marinhas.
Iremos ao longo da semana desenvolver cada um destes conceitos. Oxalá o Governo tenha a coragem de colocar esta matéria com prioridade absoluta e deixar-se de TGV. Não há dinheiro para tudo e governar é optar. Esperemos então!

Orgias na sala de aula?

Do nosso comentador Nabor, o Príncipe Submarino, em comentário ao «post» do José Magalhães sobre Educação Sexual:

«Com muitos anos de profissão que já tenho, e permitindo-me também especular um pouco dado não conhecer este contexto (mas conhecendo o contexto das nossas escolas), os pedacinhos de gravações que ouvimos parecem-me, repito, uma reacção a palavras e comportamentos escabrosos dos alunos.
Não vejo ninguém a chegar à sala e dizer sem mais nem menos: “Já agora não querem contar também como perderam a virgindade para eu contar aos vossos paizinhos???”.
Os meninos desta idade, em algumas escolas, já fazem as tais “orgias” que se diz que a professora referiu. Já assisti a sexo oral em plena sala de aula, e perante a minha reacção de procedimento disciplinar, os alunos empertigarem-se todos e expeliram o grande clássico do:
“Que é que tem???”.
Pessoalmente, estou-me nas tintas para que a “Carla Vanessa” esteja mais que 2 minutos de joelhos debaixo da secretária do “Bruno Vandereleite” à procura da borracha, e que afinal esteja a fazer-lhe o dito acto.
Mas se eu o permitisse, é claro que estava na SIC a abrir telejornais com a seguinte parangona:

“PROFESSOR ORGANIZA ORGIAS NA SALA DE AULA”.

Só que a Carla Vanessa e o Bruno Vanderleite, primeiro desatam no “que é que tem”, passados 5 minutos já estão a negar.
E uma Carla Vanessa e um Bruno Vanderleite, que papam Morangos com Açúcar e fazem auto-abortos nas casas de banho com agulhas de crochet, dá-me o telemóvel já, etc., são evidentemente uns senhores cuja palavra não se questiona. Ao contrário de uma reles professorazeca que só teve que estudar 12 anos + 4 anos + 2 anos + tudo o que sabemos!
E deve ter sido qualquer coisa como isso que sucedeu aqui, pois a indignação da professora parece ir no sentido de os meninos se comportarem escabrosamente e negarem perante os pais.
O direito à indignação, quando nasce, não é para “professorzecos”!
O direito à presunção da inocência, idem!»

Não, comentador Nabor. O direito à presunção da inocência é só para o dr. Lopes da Mota e para o sr. José Sócrates.

Um professor enxovalhado: Testemunho de um docente da Escola E B 2 3 de Miragaia*

O recente livro do professor francês Nicolas Revol veio dar-me uma certa alegria. Chama-se esse livro “Maldito Prófe” e relata as traumatizantes experiências do autor numa escola secundária dos subúrbios de Paris. É irónico dizer que me deu alegria saber da existência de um jovem professor que, durante seis meses e até “meter” atestado médico, sofreu as mais graves ofensas psicológicas e até agressões físicas. Senti-me reconfortado por saber que não estou sozinho e que, ao contrário do que eu pensei, ainda há casos piores do que o meu.
Sou professor contratado da escola dos 2º e 3 º Ciclos de Miragaia, no Porto, como substituto de uma docente que partiu um pé. Lecciono o 7º e 8º anos de escolaridade a alunos entre os 12 e os 17 anos, que vêm maioritariamente de zonas socialmente mais degradadas da cidade, como é o caso de Miragaia, da Ribeira ou da Sé.
Cheguei apenas em meados de Novembro, mas vou ficar desempregado já em Janeiro, com o regresso da professora da turma. Com casa para pagar e familia para sustentar, sem nenhuma fonte de rendimento, estou quase satisfeito por ficar sem escola. É que vai ser um alivio, o fim de um pesadelo, o regresso à vida normal, a fuga de um mundo paralelo que a generalidade das pessoas não imagina sequer que existe.
Tudo aquilo que descrevo nesta página é a mais pura verdade. Omito apenas os nomes por questões éticas, mas principalmente por questões de segurança. Exagero? Quem convive diariamente com esta comunidade escolar, sabe que não é exagero; aceito que quem está de fora, pense que sim.
Se os senhores da politica, que afinal de contas nunca tiveram que lidar com situações práticas dentro de uma sala de aula, fossem obrigados a ouvir diariamente frases do tipo “não me chateie” ou “você pensa que me põe fora da sala?” e não pudessem fazer nada, não considerariam isto um exagero. Se os senhores da politica fossem cuspidos nas costas sempre que se virassem para o quadro, decerto que já teriam tomado alguma atitude.
Afinal, os problemas desta escola-modelo (as suas instalações, que incluem elevadores e cacifos individuais para os alunos, ganharam um prémio internacional de Arquitectura) são os problemas dos grandes centros urbanos. No Porto ou em Lisboa, em Miragaia ou na Trafaria, os meus alunos são, não raras vezes, filhos de toxicodependentes, alcoólicos ou presidiários. São meninos e meninas que não comem bem, não vestem direito nem habitam em segurança. São rapazes e raparigas que a vida tornou adultos, rapazes e raparigas que em crianças foram amarrados com cordas para estarem quietos, queimados com pontas de cigarros para estarem calados ou, pura e simplesmente, violados. São adolescentes que andam ao “Deus dará” sem o menor respeito pelas normas sociais, no fundo, sem qualquer futuro.
Os meus alunos, afinal, são vítimas. É por isso que eu até posso compreender algumas das suas atitudes, mas nunca aceitá-las. É que, agora, a principal vítima sou eu! Quando não consigo dar uma aula, quando consigo mas fico sem voz, quando sou insultado por um aluno, quando faço participação disciplinar e nada acontece, quando me sinto um zero dentro da sala, quando anseio (ilogicamente) pelo desemprego, quando vejo muitos dos meus colegas de atestado médico por não aguentarem a pressão, quando eu próprio começo a sentir-me perturbado.
Lecciono há 7 anos (9 contratos). Neste ano lectivo, já estive noutro estabelecimento de ensino. Passei por todo o tipo de alunos. Não sou um professor inexperiente. Foi por isso que, avisado em relação ao meio social que ia encontrar, entrei com firmeza e mantendo a autoridade; como sempre fiz, mas desta vez por razões maiores. Não deu resultado! Outros colegas entraram com simpatia e muitos sorrisos (“são putos carentes, precisam de carinho”), mas ainda foi pior. Eu também tentei levá-los a bem, mas não deu resultado. Não acredito que alguma estratégia tivesse êxito com estes alunos. Teorias, há muitas. A prática, sou eu que estou a vivê-la. É verdade que há alguns professores que aguentam anos seguidos, mas esses acomodam-se. É um deixar andar e deixar fazer.

1º dia – turma W. A aluna J entra na sala aos gritos, virada para mim. “Quem é o prof.?” ; como o seu comportamento é arrogante e mal-educado, peço-lhe calma. Minutos depois, como tudo continua igual, dou-lhe uma ordem de saída da sala. Acto contínuo, a aluna recusa-se a sair e começa a vociferar contra mim. Mantenho-me calado, volto a pedir-lhe para sair da sala e recuso-me a continuar. Chamo um funcionário para a retirar da sala, mas enquanto não vem, tenho de ouvir as frases que se seguem:
– “Está maluco! (faz o respectivo sinal)
– Calai-vos, pá!
– Você está a substituir a perneta?
– Dê a aula, foda-se!
– Você pensa que eu saio? Lá para fora é que eu não vou! Eu sou de apetites.”
Depois destas frases, levanta-se e vai ver a lindíssima paisagem pela janela. Chega finalmente o funcionário e retira a aluna à força.

2º dia – turma X, a aluna H cola nos olhos uns papeis cor de laranja e ri-se para mim sempre que eu olho. Finjo que não vejo. A certa altura, abre o guarda-chuva e começa a brincar com ele. Ao mesmo tempo, pega numa luva e coloca-a em pé virada para mim, com o dedo do meio em riste. Peço-lhe que pare. Não pára. Mando-a sair da sala.

3º dia – turma Y. A aluna F está sempre a bater na cabeça do colega do lado, que se irrita e lhe berra. Ela dá-lhe duas estaladas em plena aula e adverte-o, aos gritos e de cabeça perdida, de que a última pessoa que lhe falou assim foi parar ao hospital. Quando finalmente consigo pô-la fora da sala, minutos depois, agarra-se a mim a rir-se e começa a mexer-me na barriga. Já fora da sala, dá gritos estridentes e faz gestos obscenos através do vidro, esfregando nele as partes sexuais.

4º dia – Turma Z. Entro numa sala e vejo um aluno aos gritos com a minha colega. Ela tenta acalmá-lo, mas só se ouve a voz do aluno. Dou-lhe um berro e ordeno que se cale; pergunta-me porquê com maus modos, respondo-lhe que não se fala assim com os professores e ele acaba a discussão com a frase: “Não me chateie” – dou-lhe ordem de expulsão, mas a outra professora desautoriza-me dizendo que já é costume “ele falar assim” e “não tem assim tanto mal”.

Foram os meus primeiros quatro dias na escola de Miragaia. Alucinantes! Os registos deste género continuam diariamente, mas agora quase que me habituei. Quando um aluno mastiga pastilha elástica na aula, quando um aluno não tira o boné, quando um aluno me trata por você, quando um aluno se levanta sem autorização, eu acho normal. Quando um aluno é chamado à atenção e me responde: “espere aí!” ou “vou ali, já venho!”, quando um aluno vai ao WC sem pedir autorização, quando um aluno de outra turma entra na sala e dá um murro a um aluno meu, quando eu conto tudo isto à Directora e nada acontece, eu acho normal. Quando ouço os professores mais velhos dizerem: “Nós não podemos ter amor-próprio, nós somos enxovalhados e temos de calar!”, então eu compreendo como é que eles aguentam e eu não!
Eles acomodam-se à situação, eu não! Mas se calhar, como já não estou muito bom da cabeça, vou fazer o mesmo.
Quanto aos senhores da política, que continuem a legislar no mesmo sentido. Enquanto um professor não for morto em plena escola, eles não vão parar.

Ricardo Santos Pinto

* Publicado no jornal «Público» em 21 de Dezembro de 2000.
—–
Nota: Nunca fui um pofessor autoritário, do tipo «quero, posso e mando». Nunca precisei de reagir da forma que reagi em Miragaia. Mas poucas vezes tive de lidar com marginais.
Os meus primeiros alunos, do ano de Estágio, em Rio Tinto, foram todos ao meu casamento, provocando um problema familiar – convidei os meus alunos e não convidei os meus primos. Lembro-me que, na altura, juntaram-se e deram-me uma salva em prata e 50 contos – na altura, era dinhei
ro
. Ainda hoje janto com alguns deles de vez em quando.
Em S. Romão do Coronado, fui uma semana para o campismo, em Sines, com a minha Direcção de Turma. Depois de as aulas acabarem e assumindo pessoalmente toda a responsabilidade por tudo o que viesse a acontecer. Empenhei-me pesssoalmente para garantir patrocínios que possibilitassem a viagem – alguns dos putos nunca tinham visto o mar. Nesse mesmo ano, cheguei a estar na escola até à meia-noite para que os alunos pudessem receber o Jornal da Escola em tempo útil. Continuo a encontrar-me com eles.
Neste mesmo ano lectivo, 2008/2009, agora efectivo no distrito de Viseu, criei blogues para as minhas turmas do Secundário e rapidamente a nossa relação se tornou muito mais do que uma simples relação professor -aluno. Correspondo-me com eles dessa forma, sobre as matérias e não só. Com estes meninos, não preciso sequer de levantar a voz.
O mais extraordinário nisto tudo é ver que, nove anos depois deste texto, que escrevi para o «Público», ele continua tão actual. Quanto a Miragaia, parece que está como o costume.

A lente da velha e cinzenta senhora

Fortemente afectado pela crise financeira e económica, um dos mais importantes e influentes jornais de todo o mundo luta pela sobrevivência. Ainda não há muito tempo, alguns especialista norte-americanos em questões relacionadas com a comunicação social, diziam que o New York Times poderia fechar as portas em Maio. Não vai fechar. Mas nunca se saberá se essa profecia não se iria realizar se não tivesse chegado um empréstimo salvador. O milionário mexicano Carlos Slim, já accionista do jornal, injectou 250 milhões de dólares, o dinheiro necessário para manter o grupo em funcionamento.

O New York Times foi uma das primeiras e mais significativas vítimas da nova era informativa. Demorou a reagir, como muitas vezes acontece em estruturas pesadas e tradicionalistas. A “velha e cinzenta senhora” fez jus ao epíteto e tardou em mexer as pernas, os braços e, sobretudo, a cabeça. Se todos os jornais, sobretudo os mais antigos, tiveram dificuldades em perceber que algo estava a mudar, o NYT fez pior. Tentou remar contra a maré, pensando que, com o tempo, tudo voltaria a ser como já foi.

O tempo perdido neste processo foi fatal. Quando perceberam que nada havia a fazer, os administradores do NYT tentaram reagir. No entanto, demonstraram que entre o entender e o compreender há uma certa diferença. A reacção foi a pior possível. O jornal bloqueou diversas áreas do site da internet a utilizadores pagantes. Uma medida que não teve resposta junto dos leitores regulares do jornal em papel e afastou os novos consumidores de informação, que não estavam, e ainda não estão, habituados a pagar por aquilo que consomem na Internet. A estratégia não resultou e houve que voltar a acertar o passo.

Aos poucos, as empresas jornalísticas do grupo começaram a aproveitar as ideias de alguns jornalistas adeptos da inovação, num lento acordar para a realidade. Nasceram novas secções, novos projectos.

Um deles surgiu nos últimos dias. O NYT lançou no seu site uma nova faceta que representa mais um passo nesse processo. O jornal acaba de lançar Lens (Lentes). É um blogue de fotojornalismo que se propõe apresentar algum dos jornalismo mais interessante do ponto de vista visual e de multimédia. Apesar de ainda estar ‘verde’ é já um regalo para os olhos de toda a gente e, sobretudo, daqueles que gostam de fotojornalismo.

FMI – cinco regras contra a crise

Os países que seguiram os conselhos do FMI tiveram maus resultados no passado. Tudo se resumia à contenção orçamental o que levou, muitas vezes, à morte do doente por inacção. Agora,não desiste de dar conselhos,mas melhora: i)investir em infraestruturas tem um maior impacto do que cortes de impostos ou transferências de rendimento para o sector privado (não são as mesmas que o governo está a lançar.
São investimentos de proximidade que têm efeitos imediatos); ii) Cortes de impostos e transferências dirigidos às famílias e empresas mais afectadas podem tornar-se mais eficazes do que o habitual, porque deparam com a dificuldade em obter empréstimos bancários (O nosso governo meteu o que tinha e não tinha nos bancos à espera que o dinheiro chegasse à economia real; iii) Apresentar uma estratégia credível de sustentabilidade orçamental para o futuro(por cá nem vê-la); lV) governos devem assegurar a recapitalização das instituições viáveis e assegurar um fecho ordeiro das que que não são (O BPP e o BPN são dois grandes buracos onde o Estado meteu milhões); V ) Coordenação entre os países europeus é essencial.
Resumindo e concluindo, por cá à luz das receitas do FMI, já temos aí um par de falhas que leva o governo a não querer apresentar o Orçamento Rectificativo porque isso vai mostrar que “sustentabilidade Orçamental” não há, o que nos vai derreter o pouco que temos a pagar enormes empréstimos externos a preços elevadíssimos!

O bico ao prego

O texto de João Paulo (aqui abaixo) deixou-me espantado. O professor João Paulo, elemento activo de uma classe profissional que é das mais importantes de todas ao longa da história, prefere não julgar por antecipação, dado que não tem todos os elementos ao seu dispor sobre o caso da professora de Espinho. Aceito. Tem toda a lógica.

No entanto, aproveita o momento para analisar a riqueza linguística da letra de uma das bandas da moda. Uma letra cujo teor incomoda. Bem sei que a ideia não é desculpar o eventual erro da senhora professora. Acho, pelo menos é a minha ideia, que João Paulo quer dizer não haver grande mal, se o houver, em falar de sexo nas aulas, porque a miudagem está farta de ouvir falar disso.

Só que este é um argumento pouco consistente. A letra de Da Weasel hoje é tão agressiva como os gingares de anca do Elvis nos anos 50, as letras de alguns temas dos Beatles, Pink Floyd ou Deep Purple nos anos 60, para não falar de Sex Pistols nos anos 70, entre muitos outros. Será que o incómodo acontece porque, desta vez, a professora não é, não pode ser, considerada vítima, mesmo que possa não ser uma culpada? Será que é por, desta vez, a haver responsabilidades, não se pode atirar a culpa para cima do ministério ou da DREN?

É claro que os jovens, mesmo os acabados de chegar à adolescência, sabem mais de sexo, ou da palavra sexo, do que há uns anos atrás. É a evolução. Há sexo a toda a hora na televisão, nos programas juvenis, na publicidade, nas notícias, em conversas de café, em ‘bocas’ que se mandam em reuniões de família. Está lá, ponto.

O problema, aqui, não está apenas nos comentários impróprios. Está também, e sobretudo, na atitude, nas ameaças e intimidações que terão sido feitas. E, neste aspecto, não vale iludir as palavras.

Dialectos de Ternura – uma professora de História em Espinho

“Yoo
Ela diz que me adora quando a noite vai a meio
Eu sinto-me melhor pessoa, menos fraco, feio
Passa o dedo na rasta com a mão bem suave
Encosta o lábio no ouvido e diz-me: queres que a lave?
Vamos para o chuveiro e ela flui com a água,
Lava-me a cabeça, a alma e qualquer réstia de mágoa
Diz que o meu amor lhe dá um certo calor na barriga
É aí que eu sei que quero ser para sempre aquele
nigga
Que lhe mete a rir, rir, quando eu lhe faço vir
Da terra até à lua mano, é sempre a subir… “

[Dialectos de Ternura, Da Weasel]

Não quero correr e não vou correr o risco de “falar sem saber”. Não sou como o Grancho que disse que não gostou de ouvir.

Uma coisa eu sei – está tudo virado ao contrário! Tudo!
Continuem assim e o caos é o que nos resta.
Podem, por exemplo atentar na letra de uma das bandas que os meninos andam a ouvir. Isto só para começar conversa, tipo desbloqueador de conversa de elevador.
Eu sei que não tem nada a ver, mas é também por isto que dia 30 lá estarei em Lisboa!