AS QUESTÕES ÉTICAS NOS CUIDADOS DE SAÚDE (3)

AS QUESTÕES ÉTICAS NOS CUIDADOS DE SAÚDE (3)

Hoje em dia, a informação científica cai sobre nós em catadupa, dando mais trabalho seleccionar o que se há-de ler do que ler o que foi seleccionado. Informação unidireccional e unidimensional, acrítica, dirigida e digerida, mastigada, intencional, programada, impura, irreflexiva, tantas vezes estéril nos amontoados de endeusadas “guidelines”, de que a maior parte dos doentes, ao fim e ao cabo, pouco beneficia, e que só ficcionalmente contribuem para a evolução da verdadeira saúde social. E isto porque o doente não é, rigorosamente não é, o fim em si mesmo, a meta das autênticas preocupações da Saúde, a célula que é necessário preservar para que o tecido social não sofra, mas apenas o número, o caso, o pretexto para atingir outros fins que nada têm a ver com éticas ou com critérios de humanidade.
Ninguém pretende negar o valor da informação e de toda a reunião científica idónea, mas há reuniões, demasiadas reuniões com pouco interesse, sem finalidade científica real, orientadas e palestradas por pessoas medíocres, autêntico fluxo mental fragmentário e desconexo, sobreposição de monólogos e silêncios, sem repercussão prática na evolução dos cuidados de saúde, obedecendo muitas vezes a interesses difíceis de definir.
É indispensável que o doente faça parte integrante da motivação profissional, da preocupação que leva o médico a deslocar-se aqui e além, tantas vezes à sua própria custa, como é o meu caso pessoal. Para lá dos vencimentos e dos honorários, que se exigem justos para não serem indignificantes, o médico tem de sentir-se parcialmente pago pela consciência de que está a fazer o melhor que pode com os melhores conhecimentos que até à altura pôde obter. Aprender a fazer-se pagar, também, com a moeda da sua consciência é o melhor ensinamento que podemos deixar aos vindouros.
Um outro fenómeno que se encontra em ligação directa com a consciência e dignidade médicas é a relação do médico com a indústria farmacêutica. Ninguém pretende negar o valor da investigação por ela conduzida. Antes pelo contrário, todos os médicos têm obrigação de a enaltecer, perante a inoperância, a negligência e a incapacidade do Estado, realçando o seu papel, absolutamente fundamental, nas mais importantes descobertas da actualidade de que tantos doentes têm beneficiado. Mas a indústria farmacêutica não é santa nem constitui, propriamente, uma instituição humanitária. Deixemo-nos de rodeios e de ilusões. Se a indústria farmacêutica não obtiver super-lucros, a sua preocupação com os doentes esvai-se como nevoeiro, o maior dos seus males. E o menor dos males não é, ao contrário do julgamento de muitos, o arrastamento dos médicos pelos campos magnéticos desta indústria, de molde a situá-los nas órbitas seguras de todas as suas esferas de influência e acção. Fácil é a este sector industrial, possuidor da anuência e conivência interesseira ou acrítica de muitos médicos responsáveis ou irresponsáveis e de muitas instituições colonizadas ou dependenciadas, justificar, pelo universal destaque e pelo intocável poder económico-financeiro que possuem, todos os seus actos, ainda que reprováveis. (continua).

          (adao cruz)

(adao cruz)

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