Sabe quantas armas nuclear podem atingir o Porto?

Se entretanto recuperar do choque, amanhã respondo.

A Cruz do Vítor

Compreendo mal esta obstinação do Governador do Banco de Portugal de se considerar sem qualquer responsabilidade nos casos BCP, BPP e BPN.

Os resultados estão aí, e o BdP existe para que estes casos não aconteçam. Não vale a pena dizer que não cometeram erro nenhum, ou que tudo foi feito como mandam as boas práticas. Todos nós temos que ser avaliados pelos resultados, e os resultados são muito maus. O BdP existe, exactamente, para se antecipar a resultados destes.

Não colhe a argumentação de António Costa e do PS quando diz que a Comissão da AR , persegue o “polícia” e deixa em paz o “ladrão”. O que aconteceu é que o “ladrão” roubou os bancos com a “polícia” a ver. Ora o “polícia” é pago para evitar os roubos, pelos menos os que são efectuados à frente dos seus olhos. Se o BdP considera que não viu nada, então ainda é pior porque um “polícia” não pode ser cego.

O Dr. Constâncio quer dizer com a sua posição neste assunto que tem tanta responsabilidade quanto eu ? Alguem acredita nisso? Nem sequer vale a pena enumerar as razões . Desde logo pelos imensos meios que tem à sua disposição e que não soube utilizar com êxito.

E a questão volta à primeira forma. Perante os resultados ninguem é responsável ? E refiro-me aos resultados da Supervisão, que aos das Administrações dos bancos a Justiça trata (tratará?)

Esta irresponsabilidade de quem ocupa elevados cargos, muito bem remunerados, deixou de estar no “limbo” da vida dos portugas para passar a ser mais um “cruz ” assumida!

Valha-nos São Tomé (ver para crer)!

Poemas com história – Canção para Maria

A receita desta nova série é muito simples: pego num poema meu, já publicado ou inédito, e explico em breves palavras a sua génese, o sentimento ou o acontecimento que o provocou. Uma advertência: alguém me disse que devia chamar à série «poemas com estória». Há empréstimos da norma brasileira e do português falado no Brasil que aceito e outras que não. Essa de estabelecer diferença entre História, para definir a ciência que relata os factos públicos, militares ou políticos de uma nação ou estado, e estória, para qualificar a arte da ficção narrativa, diferença que, grande parte das pessoas (algumas muito respeitáveis) adoptou com o entusiasmo de quem descobriu a pólvora, a mim não me apanha. Uso o termo história nas duas acepções. O facto de em inglês se usar History e story, respectivamente, a mim não me diz nada. A única diferenciação que aceito (desnecessária pois, pelo contexto, logo se percebe do que estamos a falar), é utilizar o H maiúsculo no caso da disciplina científica. Em suma, gosto muito de ouvir falar os brasileiros a falar com o seu sotaque e expressões próprios e não gosto nada de ouvir os portugueses a macaqueá-los. Está explicado – poemas com história.

fanhais

Francisco Fanhais cantando Canção para Maria (Queria Um País de Sol Para te Dar) na FNAC do Fórum Almada.

O primeiro poema que apresento nesta série, intitula-se Queria um país de Sol para te dar e foi publicado no meu livro A Poesia Deve Ser Feita Por Todos. Escrevi-o no presídio do Reduto Norte de Caxias em 1968, dedicado a minha mulher. O Francisco Fanhais musicou-o e ainda hoje o canta com frequência. Mudou-lhe o título para Canção para Maria. Há uma história interessante relacionada com este poema, para além do facto das circunstâncias em que foi escrito e da forma como, com muitos outros textos, saiu comigo quando fui posto em liberdade, após seis meses de cativeiro – dentro de sapatos, entre a palmilha e a sola: o Francisco Fanhais cantava o poema por muitos lados e antecedia-o sempre da mesma história – o Carlos Loures uma tarde disse para a mulher: – Vou até ao café, venho já! – e o Fanhais fazia uma pausa e rematava – voltou passados seis anos! Isto tinha-se passado assim, eu de facto fui preso no café, mas foram seis longos meses e não seis anos. Quando, finalmente, já depois do 25 de Abril conheci pessoalmente o Fanhais, pedi-lhe para ele fazer a rectificação. Aqui vai o tal poema:

Queria um país de Sol para te dar

Para a Maria Helena

Queria um país de Sol para te dar,

com amantes e crianças nos jardins,

pássaros livres a cantar nas árvores

e a luz em liberdade pelas ruas

– as coisas nos lugares onde as sonhámos

e não nos sítios onde estão,

com armas aperradas a guardá-las.

Um país onde sulcássemos as límpidas manhãs

com sorrisos claros vestindo as faces.

Um país sem muros, sem medo

nem carimbos nas cartas que escrevemos

e ouvidos nas palavras que dizemos,

em segredo.

Mas, meu amor, nascemos cedo,

chegámos ainda a tempo de viver

este tempo que vivemos

com lágrimas ocultas no sorriso,

a raiva escondida nas carícias

e uma secreta esperança aprisionada

nos nossos corações aprisionados.

Viemos ainda a tempo de sofrer

Este tempo que sofremos

dia a dia e que sulcamos,

com os beijos vigiados,

com os nossos segredos desvendados,

com este amor amputado e prisioneiro

com que amamos.

Meu amor, não desertemos

Do tempo e do país em que nascemos

(e viver outro tempo dentro deste

ou estar fora do país

dele não saindo,

também é desertar).

Já que foi este o tempo que nos coube,

já que foi este o país que nos deixaram,

temos de conquistar o Sol que os ilumine,

roubando-o ao silêncio e à mordaça

que nos sufoca a voz – Não desertamos

– o ódio, o medo, a morte

que fujam, que desertem

se o amor os insulta e ameaça.

– Nós ficamos!

Com ao companheiros

e o amor dos companheiros,

o amor será mais forte

do que o ódio, do que o medo, do que a morte.

A luz também se constrói com os nossos beijos,

com as palavras clandestinas que escrevemos,

aquelas que a opressão não vê nem ouve.

A luz também se constrói com os nossos filhos,

eles tingem de luz nova

as sombras que com ódio vêm pôr

entre as carícias, os beijos e as palavras.

Neles se erguerá a luz para amanhã

e a liberdade prisioneira nos nossos corações

inundará de Sol as ruas,

meu amor.

Nota final: Este poema também ficaria bem na minha outra série Apontamentos & Desapontamentos. A democracia, esta «democracia», desapontou-me. Em todo o caso, não alimento saudosismos estúpidos por esse tempo de odiosa e criminosa repressão. Desse período negro, só invejo nostalgicamente a «mocidade perdida», como diz o faduncho.

Pedro diz que não, mas já não jura

Pedro diz que não. Que não regressa. Prefere outros desafios, mais executivos, mais aliciantes que ser deputado da Nação. Pedro, Santana Lopes, claro, garante que não faz tensões de voltar a ser deputado. Não diz nunca. Agora não diz nunca.

Voltou atrás vezes demais para agora arriscar certezas. O homem que, quando presidente da Câmara da Figueira da Foz, jurou abandonar a política por causa uma rábula humorística num programa de televisão, prefere uma linguagem mais cuidada, já sem as certezas de outros tempos. Agora parece não querer cometer os mesmos lapsos e deslizes.

Deve ser da idade.

À atenção do nosso colaborador Luís Moreira


A Administração do Aventar deseja umas Boas Férias ao seu colaborador Luis Moreira, na certeza de que os seus receios, manifestados num texto de ontem, são completamente infundados. O facto de terem caído vários aviões nos últimos dias não deve constituir factor de receio. Nem isso, nem o facto de Lockerbee ser na Escócia. Nem o surto de Gripe A.
Em resumo, queremo-lo são e salvo, porque não há neste blogue quem escreva tanto e tão acertadamente. Desejamos o seu rápido regresso, em plena forma para continuar a aventar os muitos podres que andam por aí.
Entretanto, só por precaução, solicita-se ao colaborador Luís Moreira que deixe no cacifo da Administração as chaves do blogue e que deixe agendados textos para os próximos dois ou três anos – afinal, a esperança de vida que o nosso bom ancião teria se tudo corresse bem.
Se não for pedir muito, solicita-se ao colaborador Luis Moreira que, no caso de algo correr mal (o que não vai acontecer de certeza!), envie rapidamente um texto para o Aventar a descrever os seus últimos momentos. Se tiver tempo, claro!

À boca de cena

Hoje, na véspera da minha viagem, estou a recordar-me de algumas estórias que se contavam na minha cidade.

O mesmo grupo de teatro do “Cheira-me a papel rasgado” estava afadigado em ensaios para a “premiére”. Um dos rapazes, por evidente falta de jeito, não entrava na peça, era uma espécie de “moço para todo o serviço”. Mas aquilo magoava-o, nem que fosse um pequeno papel, ele gostaria de uma vez que fosse pisar o palco.

Insistia junto do Director que no meio da confusão geral lá se lembrou de uma oportunidade. Pá, levas isto, decoras muito bem decorado e aparece cá no dia da estreia, não precisas de vir aos ensaios.

E o pobre do rapaz, actor sem ensaios, lá foi para casa convicto de ir mostrar que podia fazer tão bem como os outros.

Chega o grande dia. A peça desenrola-se no meio de grande nervosismo. Sala cheia de familiares e amigos. O nosso jovem já arrependido, vai entrar pela primeira vez num palco perante uma sala cheia.

No momento, na sua deixa, é empurrado pelo Director para o palco.

Entra vestido de empregado de mesa com uma bandeja e com um serviço de chá. Dirige-se para a boca de cena e diz trémulo. “Entra, põe a chavena em cima da mesa e sai.”

O que estava escrito no papel que o Director lhe dera para decorar, o que devia fazer que era entrar, pôr a chávena em cima da mesa e sair, sem dizer peva!

Lá se foi um talento!

O melhor amigo da mulher…

…é o Photoshop. Tenho noção que poucas pessoas conhecem o Photoshop. Menos ainda as que sabem utilizar o programa. No entanto, ele “anda” por aí. Pelo que conheço, posso garantir que mais 90% das imagens impressas em publicações, passam pelo Photoshop. Como conhecedor e utilizador regular, vejo com um profundo sentido de “deformação profissional” tudo o que é impresso. E fico sempre na dúvida: isto será verdadeiro? Eu bem sei a quantidade de postes, fios de electricidade e gruas que “retirei” de fotografias, apenas porque eram ruído visual. Perdi a conta ao número de manipulações que tive de executar, desde colorações, apagar objectos indesejados e “colar” elementos novos para tornar aquela imagem, numa imagem melhor. Atenção! O Photoshop não é uma arma terrorista! Mas se for preciso, consigo “sentar” o Bin Laden ao meu lado numa bela fotografia tirada em Madagáscar em 1936. O limite é praticamente a minha imaginação. Já o programa em si, desde há anos que o venho confirmando, não tem mesmo limites. Não conheço ninguém que o domine totalmente e acredito que nem sequer os seus brilhantes programadores o conheçam totalmente, tal é a sua complexidade e variedade de ferramentas. E nesta altura, eu pergunto-me quanto tempo continuarei a ter capacidade de reaprendizagem para trabalhar com ele. Se a minha imaginação não terá limites, já a minha capacidade de aprendizagem terá certamente…
Tenho de lidar com coisas tão estranhas como layers, masks, saturation, image size, resample, cmyk, profiles, sharpens, blurs, histogram, clipping masks, hue, crop, etc, etc, etc… e isto apenas no Photoshop. Ainda faltam o Freehand, o Illustrator, o Acrobat, o Quark, o InDesign e o Corel Draw, já para não falar numa parafernália de programas complementares. Tanta tralha!
Como é que terei algum tempo para, como alguns homens, desfolhar a FHM, a Playboy e afins e apreciar aquelas esbeltas mulheres, quando estou tão ocupado a manter-me actualizado informaticamente? Pior ainda! Como é que poderei apreciar aquelas belas imagens de belas mulheres quando sei que provavelmente foram manipuladas, muito provavelmente por um outro geek como eu, alterando aqui e acolá, tapando aquele mamilo destemido que salta fora do soutien, ou retirando aquelas gordurinhas extra?
Como exemplo, apresento aqui algumas imagens. Tudo pode ser manipulado e na maior parte das vezes é mesmo manipulado. É muito mais fácil, retocar, alterar, cortar ou tirar um pouco de luz no Photoshop, do que estar a fazê-lo em set. Não se pode dizer: “Olhe, encolha um pouco mais a barriguinha!” ou “Não pode esconder essas rugas?”. Com o rubber stamp e o healing brush tira-se a barriguinha, a flacidez e a celulite e faz-se uma cura milagrosa anti-rugas mais rápida que a Corporacion Dermoestetica e nem sequer se abre a boca!

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Luís, no teu regresso queremos ver-te assim

mostra-me essas pernas!

Cheira-me a papel rasgado!

A Manuela Ferreira Leite quis dar uma nota acima do seu registo e saíu-lhe um “rasga” que tem sido mote para muita conversa.

O Engº Sócrates já tirou a conclusão que o PSD vai retirar os apoios sociais aos mais pobres e aos desempregados. Como se isso fosse possível!

Mas isto recorda-me uma deliciosa estória que se contava na minha juventude, acerca de uns bravos que se tinham enredado nos prazeres do teatro. Numa das cenas a D. Inês de Castro, rodeada pelas suas aias esperava pelo seu amor D. Pedro. Nisto entra um fogoso paio com uma carta, que dá a ler a D. Inês, que muito exaltada, a manda destruir.

Aqui, o nosso paio devia queimar a carta mas, para grande desespero de todos, tinha-se esquecido da tocha para lhe pegar o fogo. A D. Inês percebe o problema e tem uma saída genial para a situação. E grita, rasga-a antes que D. Pedro saiba do que seu pai, El-Rei de Portugal, é capaz!

Rasgada a carta, entra em cena D. Pedro que furibundo, grita:

Cheira-me a papel rasgado!

Enfim, o espectáculo, que era um drama, deu numa gargalhada geral.

Os manifestos dos 28, 52 e 26 dizem o mesmo!

Há muita poeira levantada no sentido de se querer mostrar que há graves diferenças de opinião entre os manifestos sobre os Megaprojectos!

Mas não há! Todos dizem, basicamente, que se houvesse dinheiro, se não estivessemos mergulhados nesta crise, e se o quadro macro da economia e finanças públicas fosse outro, os projectos não levantariam as dúvidas que conhecemos.

E todos dizem que há prioridades que devem ser tidas em conta, como sejam os projectos que criam emprego a curto prazo, que não sugam as mesmas enormes quantidades de dinheiro, que não exigem a importação de tecnologia que não temos e que se dirijam para as PMEs exportadoras.

Todos os manifestos dizem isto, no essencial. O governo, avisadamente, e porque percebeu que não são só os economistas e “cientistas sociais” que pensam assim, que a opinião pública tem “colada” a imagem deste governo de braço dado com os Bancos e os grandes grupos económicos, recuou!

Há sempre quem seja mais ” sócrates que o próprio Sócrates” que descobrem agora que há economistas do primeiro manifesto que estiveram contra a primeira ponte, de nada lhes interessando em que quadro isso ocorreu.

Mas se havia dúvidas, muitas dúvidas, dentro do próprio governo que os megaprojectos eram a resposta eficaz no quadro economico-financeiro em que estamos, as suas recentes posições quanto aos mesmos e quanto às PMEs são disso prova concludente!

Só não vê quem acha que o Primeiro Ministro é tão obtuso que vai perder as legislativas “por ser um animal feroz”.

Neste momento, nenhum dos megaprojectos avança antes das eleições, o que quer dizer que não avançará nos próximos três anos! No mínimo!

Falando de democracia: Indios e cowboys

Pelo menos os da minha geração, lembram-se de uma das brincadeiras favoritas dos miúdos – os índios e cowboys (cóbois, no nosso inglês simplificado). Nascido no centro de Lisboa, não podia brincar na rua. Mas nas férias grandes desforrava-me. Numa vila de praia da margem Sul, hoje transformada num caos urbanístico, mas na altura pacata e tranquila, reunia-me a um grupo de amigos certos, todas as tardes, depois do almoço, antes de uma última ida à praia, quando o sol já não «fizesse mal». Dividíamo-nos em dois grupos, os maus e os bons, os índios e os cóbois. Não havia lugares fixos, a divisão era aleatória. Mas quem se atrasasse na chegada já nem tinha direito a escolher. Ninguém discutia as regras.
*
Antonio Gramsci (1891-1937), filósofo e político italiano, perseguido pelo regime fascista de Benito Mussolini, dizia na sua obra Os Intelectuais e a Organização da Cultura: «Cada grupo social essencial» (…) «surgindo na história a partir da estrutura económica anterior e como expressão do desenvolvimento desta estrutura, encontrou – pelo menos na história que se desenvolveu até aos nossos dias – categorias intelectuais pré-existentes, as quais apareciam, aliás, como representantes de uma continuidade histórica que não fora interrompida nem mesmo pelas mais complicadas e radicais modificações das formas sociais e políticas.» Ao recordar estas palavras de Gramsci, sou levado a reflectir sobre o facto de a realidade histórica dos últimos dois séculos nos permitir verificar que são oriundos da burguesia quando não mesmo da aristocracia, os intelectuais que surgem à superfície das grandes e pequenas perturbações sociais e que construíram, não só os suportes teóricos do sistema capitalista, como também os pressupostos ideológicos de quantas revoluções se produziram.
A Revolução Industrial, ao mesmo tempo que veio criar um novo modo de produção – o que, pode dizer-se, não acontecia desde o Neolítico – provocou o aparecimento de uma estrutura intelectual adequada, do mesmo modo que a aristocracia fundiária, no sistema feudal, criou a sua própria categoria intelectual – a dos sacerdotes. Estes monopolizaram, durante um longo período da história, a ideologia religiosa que, para todos os efeitos, constituía a ciência da época. Em contrapartida, poder-se-ia afirmar que a classe operária, nasceu, sobreviveu e, provavelmente, extinguir-se-á sem ter organizado (ainda que a partir de categorias intelectuais «pré-existentes» uma intelectualidade própria, acabando o marxismo, numa análise superficial, fria e pragmática, por surgir como uma ruptura interna na superstrutura da burguesia, não ultrapassando na prática a concepção hegeliana que atribuía aos intelectuais o papel de «aristocracia do Estado».
Esboça-se um quadro de luta de classes em que, a nível superestrutural, um dos contendores estaria numa total dependência dos quadros formados pelo adversário, aparecendo a luta, no campo das ideias, como uma dissensão no campo de burguesia – a clivagem entre intelectuais «burgueses» e intelectuais «proletários» seria determinada por um jogo de opções pessoais baseado na pressão moral que a natureza cruel e desumana da exploração sempre tem exercido sobre camadas sensíveis da classe dominante, nomeadamente entre a juventude. O campo revolucionário, nessa luta que, embora tão anunciada nunca chegou a travar-se, dependeria das deserções que essa pressão ontológica provocasse. Não falarei aqui do papel desempenhado nessas deserções do campo burguês motivadas por ilusões românticas e a esperança no advento de uma sociedade justa. Não falarei também de apressadas «opções de classe» feitas em ordem a objectivos obscuros de oportunismo, carreirismo, servidas por consabidos artifícios de demagogia. Desde o século XIX até ao século XX, organizações operárias fizeram esforços no sentido de criar estruturas culturais autónomas do tipo das universidades livres. Porém, salvo uma ou outra excepção, todas elas desembocaram em arremedos do ensino burguês.
No fundo, toda esta problemática radica num ponto – o socialismo não criou um modo de produção alternativo ao do capitalismo. Procurou pôr o modo de produção capitalista ao serviço do proletariado. Porém, tal como o carro não consegue puxar os bois, é o modo de produção que determina a estrutura cultural e não o contrário. Entrou-se num labirinto sem saída. Melhor, num labirinto cuja única saída deita para o depósito das revoluções abortadas. O «socialismo real» tinha falido muito antes da queda do muro de Berlim. Quando na União Soviética se chamou stakanovismo à mesma coisa a que os capitalistas chamavam taylorismo, a revolução acabara já. Porque o problema não era uma questão de nomenclatura. Nessa altura, em que os operários se emulavam para ver quem ganhava o título de «trabalhador do mês», nascera uma nova forma de exploração – o capitalismo de Estado, com a economia posta ao serviço de uma nova classe dominante. As pessoas mudaram, a exploração capitalista manteve-se. A bem dizer, não houve revolução.
*
Nesta era pós-industrial em que vivemos, observando a classe política que temos em Portugal, verifico que ainda há muita gente do «meu tempo». Na grande vaga de prisões que se verificou em meados dos anos 60 – o controleiro do sector universitário do Partido Comunista deu de mão-beijada à PIDE toda a estrutura do sector, nomes, pseudónimos, moradas, ligações – tudo. Ao mesmo tempo, um acidente com uma bomba artesanal desencadeou a prisão de muita gente da Frente de Acção Popular, um movimento proveniente de uma cisão no PCP. As prisões regurgitavam de jovens estudantes. Naquela altura, há mais de quarenta anos, estavam concentrados em duas organizações de esquerda (muitos mais no PCP). Eram jovens da classe média na sua generalidade, «filhos da burguesia», usando o linguarejar politiqueiro da época.
No começo dos anos 70, tinham começado a constituir-se outras formações políticas – a LUAR, as BR, o MRPP e, em 1973, a ASP, que daria lugar ao PS. No seio do partido único, a ANP, nascia uma ala liberal. O leque político que durante as décadas anteriores se resumira ao PCP, aos republicanos históricos (que só se organizavam em vésperas de eleições) e à Causa Monárquica, diversificava-se. Muitos dos militantes destas organizações, geralmente estudantes, provinham da geração seguinte à minha. Porém, os dos anos 60, formados na sua grande maioria no PCP, espalharam-se pelos novos movimentos (alguns em lugares de liderança) nomeadamente pelo PS, um ou outro pelo PSD. Não digo nomes, mas quem viveu aqueles tempos, sabe que foi como digo. Ministros e secretários de Estado do PS, foram e são, gente desse tempo, provenientes das hostes do PC. O que não tem mal nenhum – embora para 0o PC quem sai para o PS ou para o PSD seja um traidor, mas ache normal que se faça a viagem em sentido contrário (o que raramente acontece, diga-se). Onde quero chegar é à conclusão de que, tal como nos jogos infantis de índios e cóbois, a escolha do campo político em que se actua, não sendo aleatória por corresponder, na melhor das hipóteses, a convicções políticas (há casos em que corresponde a interesses da mais variada espécie, mas não vou por aí), nada tem a ver com a chamada origem de classe. Toda a gente, da extrema-esquerda mais extra parlamentar à direita mais conservadora, pertence, grosso modo, à mesma classe, bebeu a sua formação nas mesmas fontes. Assumindo uns, em diversos graus, o papel de defensores da classe a que pertencem e outros, em diversos graus também, o de revolucionários. Não explicará esta circunstância a falência sucessiva de quantas experiências de derrube da sociedade burguesa que têm sido empreendidas? Através dos intelectuais, dos quadros herdados, como sapatos de defunto, do capitalismo e introduzidos, mercê das tais opções de classe, sub-repticiamente no cerne do
te
cido revolucionário, a burguesia ressurge, mais cedo ou mais tarde, metamorfoseada em casta dirigente proletária, como erva daninha agarrada às estruturas de Estado, revestida da sacrossanta autoridade das altas hierarquias do Partido, montada solidamente no cavalo do poder. Cóbois disfarçados de índios. Ou vice-versa, se preferirem.

As temperaturas por decreto

“As 17 potências reunidas (…) em L’Aquila, Itália, no Fórum das Grandes Economias (MEF) aceitaram limitar o aumento da temperatura média global do planeta a 2ºC e recusaram comprometer-se com percentagens concretas na redução das emissões. Na declaração final ficou para a posteridade que estes países se comprometem a “identificar uma meta global para reduzir substancialmente as emissões até 2050”.

A cada cimeira, sempre as mesmas promessas. Mudam os anos, passando de 2020 para 2050, mudam os detalhes, que aqui até nem estão destituídos de importância, mas permanece quase tudo na mesma.

Agora com a nuance de se decretar que a temperatura do planeta não pode subir mais que dois graus. Se, por um acaso, a temperatura se atrever a subir 2,1 graus, estes senhores vão reunir de novo e, estou certo, decretar medidas penalizadoras. Quem sabe se não ameaçam o planeta com sanções económicas ou, até mesmo, uma invasão.

A segunda vida de Cartola

Por essa época, lá pela década de 1930, havia fundado, em conjunto com outros sambistas, aquela que viria a ser a mítica Estação Primeira de Mangueira, a mais famosa escola de samba do mundo, e havia sido ele a escolher como símbolo as cores verde e rosa que ainda hoje a identificam.

Era também já muito conhecido no Rio como sambista e cantor e algumas das suas composições tinham sido interpretadas por gente como Carmen Miranda ou Araci de Almeida.

Mas na década de 1940, todas as tempestades do mundo se abateram sobre ele: perdeu a mulher, vítima de um ataque cardíaco, contraiu meningite, zangou-se com alguns dos velhos amigos da Mangueira. E mergulhou numa década de esquecimento e solidão, ao ponto de nesse período se terem gravado sambas em homenagem àquele que todos julgavam morto. Ia já a meio a década de 1950 quando o reencontram, afastado da música, a trabalhar como lavador de carros. Graças ao empenho do jornalista Sérgio Porto, também conhecido como Stanislau Ponte Preta, volta ao meio musical e recomeça a compor.

A partir daí, surgirão novos sambas, o reconhecimento pelos pares e pelo público, e até um novo amor, que o acompanhará até à morte. Com que fantasmas se bateu Cartola nos seus anos de negrume? Morto para o mundo que o conhecia, solitário, enfraquecido pela doença, terá encerrado o seu coração à música ou palpitaria ela a cada instante, nutrindo-se da desgraça e guardando-se para o dia em que viria a florescer uma vez mais?

Hoje cruzei-me duas vezes com um homem que dormia no chão. O local era insólito para ser o refúgio de um sem-abrigo e o homem mais parecia ter ficado a dormir ali para curar uma bebedeira que não o deixava ir mais longe. Eu passei apressada para cima, passei apressada para baixo, e o homem continuava a dormir. Soube depois que alguém chamou o INEM e o levaram.

E não pude deixar de carregar de volta a casa uma pontinha de culpa. Talvez fosse um bêbado em quem todos os apressados da cidade não tiveram tempo de reparar. Mas lembrei-me, entretanto, do Cartola e quem pode garantir que o bêbado não seria afinal um génio açoitado pela desgraça, à espera no passeio, com a cabeça tombada sobre o ombro, a boca aberta e um fio de baba a correr-lhe pelo queixo, de uma segunda oportunidade?

E que poderia, também ele, erguer-se a custo do chão e sair cantando:

“A sorrir / eu pretendo levar / a vida / Pois chorando / eu vi a mocidade / perdida. / Finda a tempestade / o sol nascerá. / Finda esta saudade / hei-de ter outro alguém / para amar.”