Merce Cunningham (1929-2009)

(obrigada ao João Soares, do Bioterra, por ter partilhado este video)

Cartazes das Autárquicas (Porto)

(explicação da iniciativa aqui)
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Elisa Ferreira, PS, Porto.

Quem está a mentir? Que raio de pergunta!

 
Soube deste «post» pelo «5 Dias».
O Rui Herbon pergunta, no Simplex, por que razão se acha que é Joana Amaral Dias que está a falar verdade e não o contrário.
Com toda a amizade, Rui, que raio de pergunta! Ora, acha-se que é Joana Amaral Dias que está a falar verdade porque José Sócrates é mentiroso. Nem sequer percebo a lógica da pergunta.

TEXTO RECEBIDO DA ASSOCIAÇÃO ATEISTA PORTUGUESA

Prezado consócio:

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) está indignada com a forma como a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) se infiltrou no aparelho de Estado e conseguiu privilégios intoleráveis num Estado de Direito e indignos de um país laico.

A chantagem que a Igreja exerce sobre o Governo é da sua natureza, mas a capitulação do Estado é uma indignidade. Os bispos rejubilam com o acordo a que chegaram sobre a assistência religiosa.

Durante a ditadura salazarista havia assistência religiosa nos hospitais e nas forças armadas, agora foi alargada às forças de segurança. Só ficaram de fora os polícias municipais e os bombeiros. Um indivíduo com farda, um simples porteiro de cabaré, arrisca-se a ser borrifado com o hissope, na sequência do acordo sobre assistência religiosa assinado com o Estado Português.

O País paga à peça. A assistência passa a ser uma espécie de prestação de serviços ao Estado, sendo pagos segundo a tabela em vigor e tendo em conta o número de pessoas assistidas. Assim, se um bispo rezar pelas Forças Armadas e de Segurança, teremos de pagar dezenas de milhares de actos pios. Resta saber se um presidiário que se confesse a prestações, 10 vezes por dia, custa 10 vezes mais do que outro que pede a remissão dos pecados a pronto. Tudo isto sem taxa moderadora.

Há uma frase que me deixa perplexo, no telegrama da Lusa, referido no DN: «Um dos aspectos que ressaltou diz respeito ao artigo 16.º. Desta forma, quando um casamento for declarado nulo perante a Igreja, o Estado terá de o reconhecer». Fica a dúvida se esse «O» é pronome pessoal ou demonstrativo. Não sei, se em caso de anulação de um casamento pela Igreja – embora caro e difícil – o Estado tem de «O» reconhecer (a «ele», casamento, ou a «isso», anulação).

Como me parece uma monstruosidade a integração do direito canónico no ordenamento jurídico português, penso que é um pronome pessoal, mas tudo é possível de uma Igreja que pôs o PR e o presidente da AR a fazerem parte de uma comissão de honra da canonização de D. Nuno. Quando a ICAR obtém a conivência de Cavaco e Jaime Gama para o reconhecimento da cura do olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus, queimado com óleo de fritar peixe, por intercessão do espectro de D. Nuno, Portugal deixa de ser um país e torna-se um pântano de água benta.

Caro Consócio, enquanto não averiguo se o tal «O» é pronome pessoal ou demonstrativo, chamo a sua atenção para a regulamentação de matérias como o património da Igreja, a fiscalidade e o ensino da moral e da religião católica cujo acordo temo para breve. Aguardo os seus comentários e sugestões.

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) não deixará de denunciar e repudiar esta escalada beata e os atropelos cometidos contra a laicidade, na proximidade das eleições e no período de férias.

Saudações ateístas e votos de boas férias
Odivelas, 28 de Setembro de 2009
Carlos Esperança TM – 917322645

Os Índios da Meia Praia

A determinada altura tentou-se uma espécie de “reabilitação” do Zeca, que não seria apenas um cantor de intervenção, que as suas canções de amor, por exemplo, seriam recicláveis, uma ladainha que esquecia o facto de estarmos em presença de um poeta maior, e sobretudo de alguém capaz de transformar qualquer estória numa grande canção.

Mesmo a mais “datada” das suas cantigas vale por si, em qualquer dia da semana, em qualquer ano de um século, em qualquer década de um milénio.

Os Índios da Meia Praia, escrita para o filme de Cunha Teles, onde se narra como o povo fez de um quase deserto um sítio para viver, antes de dela fazerem o actual supermercado para turista curtir, é o melhor exemplo disso.

Nela pegaram as Vozes da Rádio e também Dulce Pontes, popularizando uma cantiga que verdade se diga quando foi lançada nem teve um sucesso assinalável.

Claro que se trata de uma cantiga de amor. De amor à humanidade e à justiça. E “quem diz o contrário é tolo“.

Segue a letra completa, parcialmente cantada na versão original em disco, e duas dessas versões.

Aldeia da Meia-Praia

Ali mesmo ao pé de Lagos

Vou fazer-te uma cantiga

Da melhor que sei e faço

De Monte-Gordo vieram

Alguns por seu próprio pé

Um chegou de bicicleta

Outro foi de marcha a ré

Houve até quem estendesse

A mão a mãe caridade

Para comprar um bilhete

De paragem para a cidade

Oh mar que tanto forcejas

Pescador de peixe ingrato

Trabalhaste noite e dia

Para ganhares um pataco

Quando os teus olhos tropeçam

No voo duma gaivota

Em vez de peixe vê peças

De ouro caindo na lota

Quem aqui vier morar

Não traga mesa nem cama

Com sete palmos de terra

Se constrói uma cabana

Uma cabana de colmo

E viva a comunidade

Quando a gente está unida

Tudo se faz de vontade Tudo se faz de vontade

Mas não chega a nossa voz

Só do mar tem o proveito

Quem se aproveita de nós

Tu trabalhas todo o ano

Na lota deixam-te mudo

Chupam-te até ao tutano

Chupam-te o couro cab’ludo

Quem dera que a gente tenha

De Agostinho a valentia

Para alimentar a sanha

De esganar a burguesia

Diz o amigo no aperto

Pouco ganho, muita léria

Hei-de fazer uma casa

Feita de pau e de pedra

Adeus disse a Monte-Gordo

(Nada o prende ao mal passado)

Mas nada o prende ao presente

Se só ele é o enganado

Foram “ficando ficando”

Quando um dia um cidadão

Não sei nem como nem quando

Veio à baila a habitação

Mas quem tem calos no rabo

– E isto não é segredo –

É sempre desconfiado

Põe-se atrás do arvoredo

Oito mil horas contadas

Laboraram a preceito

Até que veio o primeiro

Documento autenticado

Veio um cheque pelo correio

E alguns pedreiros amigos

Disse o pescador consigo

Só quem trabalha é honrado

Quem aqui vier morar

Não traga mesa nem cama

Com sete palmos de terra

Se constrói uma cabana

Eram mulheres e crianças

Cada um c’o seu tijolo

“Isto aqui era uma orquestra”

Quem diz o contrário é tolo

E toda a gente interessada

Colaborou a preceito

– Vamos trabalhar a eito

Dizia a rapaziada

Não basta pregar um prego

Para ter um bairro novo

Só “unidos venceremos”

Reza um ditado do Povo

E se a má lingua não cessa

Eu daqui vivo não saia

Pois nada apaga a nobreza

Dos índios da Meia-Praia

Foi sempre a tua figura

Tubarão de mil aparas

Deixar tudo à dependura

Quando na presa reparas

Das eleições acabadas

Do resultado previsto

Saiu o que tendes visto

Muitas obras embargadas

Quem vê na praia o turista

Para jogar na roleta

Vestir a casaca preta

Do malfrão capitalista

Mas não por vontade própria

Porque a luta continua

Pois é dele a sua história

E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança

Fazem tudo andar pra trás

Dizem que o mundo só anda

Tendo à frente um capataz

E toca de papelada

No vaivém dos ministérios

Mas hão-de fugir aos berros

Inda a banda vai na estrada

Eram mulheres e crianças

Cada um c’o seu tijolo

“Isto aqui era uma orquestra”

Quem diz o contrário é tolo

Para o Miguel

Caro Miguel
Como podes não ir lá ver, deixo aqui como post, o último comentário.
Cá em Portugal, há muito que a igreja devia estar no seu lugar. Ninguém a quer tirar do lugar que lhe pertence, dentro de um estado laico democrático. Sejamos sérios. Ninguém quer mandar a igreja para a fogueira, como ela sempre fez. E hoje, apesar do vaticano ainda o fazer, por outros meios, a igreja não o faz às escâncaras porque não pode, senão a inquisição era de novo realidade. Ninguém tenha dúvidas sobre isto. Há neste momento uns laivos medrosos de intenção governamental de definir os dois papéis. É um passo, muito pequenino mas é. A igreja esperneia, como qualquer um esperneia se lhe mexem nos privilégios. Que esperneie à vontade. Veja-se o que aconteceu em Espanha. É necessário firmeza, razão, compreensão e humanidade por parte do estado, e aceitação da mais democrática lógica por parte da igreja. Sem qualquer tipo de violência. E eu acredito piamente, que a haver violência ela não virá de um estado cauteloso em matéria tão delicada, mas será, não tenho dúvidas, instigada pela própria igreja. David Yallop, um dos mais creditados jornalistas de intervenção, diz, na última página do seu livro, e após inúmeras provas, que é prática corrente do vaticano”encobrir, mentir, prevaricar e negar” para atingir os seus fins.

Entrega as suas poupanças a Manuela ou a Sócrates?

Hoje no i António Capucho coloca a pergunta que se tornou incontornável, na nossa vida política.

O caminho a percorrer seja qual for o governo, é muito estreito, não dá para floreados nem para erros. Precisamos de um governo capaz tecnicamente mas, sobretudo, um governo composto por gente impoluta, ética e moralmente inatacável que mereça a total confiança dos cidadãos.

Precisamos de um governo que perceba que acima dos interesses instalados, ávidos dos megainvestimentos, dos subsídios estatais e dos contratos sem risco mas ruinosos para o Estado, dê prioridade às Pequenas e Médias Empresas, produtoras de bens e serviços transaccionáveis, exportadoras, inovadoras e criadoras de emprego e de valor.

Não podemos continuar a ter dois países, o que vive sumptuosamente no aparelho de Estado e nas Empresas Públicas, nos Bancos e nos grandes Grupos Económicos que vivem dos negócios que fazem com o Estado, e outro, do ordenado mínimo, da pensão miserável, do desemprego, da falta de oportunidades…

Temos que votar e dar a confiança a alguem que não ande nas bocas do mundo pelas más razões, que nos assegure que cada contrato que o Estado subscreva não seja um “roubo de igreja”, que voltem os concursos públicos que se diga não aos “ajustes directos” aos amigos, que diga não aos contratos tipo ” contentores de Alcântara”!

Temos que ter a certeza que cada Euro é um euro bem gasto, que foram definidas as prioridades, feitos os estudos necessários e que não se gaste mais do que o valor contratado.

E precisamos de saber que o Primeiro Ministro de Portugal não vê o seu nome envolvido em casos escuros, em histórias mal contadas e que, por isso, seja pressionável em tomadas de decisão que se podem revelar catastróficas para as gerações vindouras.

Temos que dormir descansados sabendo que o nosso dinheiro está a bom recato!

Vamos entregá-lo a Manuela Ferreira Leite ou a José Sócrates ?

É, no essencial, o que está em jogo nas eleições Legislativas de 27 de Setembro!

DEUS COMO PROBLEMA OU A COMPLEXA SIMPLICIDADE DA EVIDÊNCIA (5)

Deus como problema ou a complexa simplicidade da evidência (5)

Por que razão o Papa apelou aos muçulmanos “para que recusem rancores, intolerância e violência como via para suster a propagação do terrorismo e frenar a vaga de fanatismo cruel que põe em causa o progresso e a paz”, e não apelou aos cristãos do lado de cá para pararem as agressões, os assassínios, os assaltos e as invasões? A evidência é demasiado evidente para ser contornada e camuflada.
Quando Saramago fala “nos motivos de natureza política, económica, social, psicológica, estratégica e até moral em que se presume terem ganho raízes os movimentos islamistas agressivos, motivos que levaram à colocação de bombas transportadas às costas em mochilas, e que foram suficientes para que os alicerces da nossa tão luminosa civilização estremecessem e abrissem fendas, criando o mais extremo terror”, só mostra que os pés desta civilização não só são, realmente, de barro, como perderam a mais sólida base de apoio, a mais segura das seguranças, o sentido do Direito, da Moral e da Justiça. Por isso eu não concordo muito com José Saramago quando dá a entender que o problema do Deus de lá e o problema do Deus de cá, o deles e o ocidental são idênticos. Penso que o não são, sobretudo nos tempos que correm. Aquilo que o Deus de cá permite é muito mais terrível, cruel, injusto e sanguinário. Já não falo em Hiroshima e nos muitos Vietnams, ou no quase milhão de vítimas do Iraque, mas lembro apenas, como exemplo, o que se passou no tenebroso massacre de Faluja e no selvagem, bárbaro, irracional e desumano esmagamento de Gaza, que nem os próprios algozes conseguem calar. (Continua).

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MORALES NÃO QUER A IGREJA CATÓLICA

MORALES NÃO QUER A IGREJA CATÓLICA

Evo Morales não quer a igreja católica na Bolívia, ou, pelo menos, quer que a sua actividade seja controlada pelo Estado e reduzida ao mínimo. Diz ele que a igreja católica é um “símbolo vivo” do colonialismo europeu. Mas não é só isso. A igreja católica é um símbolo, infelizmente vivo, da apoplexia mental, da epidemia da ignorância, da anulação da razão, do agrilhoamento das liberdades e da exploração dos povos em qualquer parte do mundo. Se tivesse havido e houvesse muitos Morales a pensar como este, o mundo era outro, e bem melhor, não tenhamos dúvidas.

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Cartazes das Autárquicas (Marco de Canaveses)

(iniciativa explicada aqui)
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Avelino Ferreira Torres, candidato independente, Marco de Canaveses

«À sombra da legalidade democrática, mantêm-se e até se acentuam as injustiças sociais que existiam antes do 25 de Abril» (José Afonso)

Excertos de uma entrevista concedida por José Afonso à revista «Questões e Alternativas», nº2, de Abril de 1984. Tendo sido gravada, foi conduzida por Rui de Oliveira. A questão posta pela publicação a diversas personalidades de esquerda era – «O 25 de Abril dez anos depois – que mudança?»).

«O facto de eu poder ir a uma colectividade e poder dizer abertamente que é urgente uma subversão em relação ao momento actual que vivemos, que essa atitude subversiva não deve ficar apenas na consciência das pessoas, deve ter consequências colectivas e dirigir-se ao poder, constituir um desafio ao poder, tem alguma coisa de novo.»(…) «Existe uma democracia dita representativa, existe um parlamento que discute as leis, partidos políticos que representam correntes de opinião segundo o modelo europeu. A esse nível há um conjunto de aquisições.» (…)
«Continuamos com a sociedade de classes, sabemos por exemplo, que quem tem acesso ao ensino superior é uma pequena elite, que o ensino superior visa preparar indivíduos que, uma vez no poder, perpetuam a desigualdade de classes e, também, o sistema político que a conserva. A este nível, as coisas mantêm-se, portanto, na mesma. À sombra da legalidade democrática mantêm-se e até se acentuam, as injustiças sociais que existiam antes do 25 de Abril.» (…)
»As perspectivas abertas por essa liberdade dependem da classe social a que se pertence. Digamos que, para a classe operária que vive na cintura industrial de Lisboa, não abre perspectiva alguma em relação ao desafogo a que aspira.» (…)«Agora, por exemplo, para um intelectual, cujo fim possa ser uma coluna num jornal onde possa colaborar» (…)«existe de facto liberdade para essas coisas. Mas a liberdade de uma classe pode não ser a liberdade de outra.» (…) «No que respeita à liberdade, as instituições existem. Mas funcionam num conjunto de alternativas que não favorecem o exercício da liberdade.»
«Penso que, após o 25 de Abril, devia ter havido uma prática pedagógica do exercício da democracia. As populações deveriam experimentar, directamente, quais são as possibilidades de inserção na realidade, de a transformar. Essa, para mim, é a forma mais sã de exercer a democracia. O voto de quando em quando, após 50 anos de obscurantismo, é uma coisa para especialistas em demagogia. Até porque os deputados não estão na Assembleia para resolver os problemas mais imediatos do povo, mas para cumprir desideratos políticos.» (…) «Por outro lado, todo o discurso parlamentar, com os meios de que dispõe, é de molde a configurar as consciências. É exactamente o que não acontecia imediatamente a seguir ao 25 de Abril, quando se organizaram as comissões de trabalhadores, de moradores, todos esses organismos que saíram quase espontaneamente do processo popular. Está-se hoje num círculo vicioso. A democracia só serve para confirmar, sancionar, o tipo de desigualdades a que me referi.» (…)
«Há, sem dúvida, uma diferença entre o fascismo e a democracia burguesa, embora, por vezes, em certos aspectos, esta possa resultar naquele.»

O Mar é Nosso!

Conhecia o Tiago Cravidão, não sabia desta sua competência a filmar. Boa Tiago.



Sucessivas leis têm vindo a privatizar o espaço público. Tenta-se proibir a pesca nos parques naturais, depois nas zonas costeiras, agora também em rios. Estas e outras leis são formas de privatização da propriedade, formas de expulsar as populações aí residentes, tirando-lhes os meios de subsistência para vender aquilo que era de todos – primeiro é um parque natural, uma reserva, depois passa para a gestão privada.

Projectos turísticos e de agricultura intensiva estão previstos em toda a costa de Portugal, uns vendidos para resorts à filha do José Eduardo dos Santos ou ao Sousa Sintra, outros para marinas privadas. Já vedaram as Pedras d’el Rei para campos de golfe; deram entrada projectos para fazer o mesmo em Odeceixe, na foz do Alcoa na Nazaré, na Polvoeira… Do Minho a Sagres, como mostra o cartaz divulgado pelos movimentos.

Um movimento de pescadores e outros cidadãos de todo o País está a lutar contra estas leis. A eles juntaram-se milhares de pessoas em todo o País que defendem o mar livre, são contra praias privadas e querem ter na costa um meio de lazer público.

(…)

Fomos à Costa Vicentina e à Nazaré ouvir dezenas de testemunhos locais e fizemos um filme que mostra quem aí vive, como vive e todos os negócios escuros por trás de uma proibição de ir à pesca.

Realização Tiago Cravidão, produção Rubra

Prémio Melhor Grande Reportagem na primeira edição do Grande Angular – Festival de Jornalismo Televisivo.

Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (IV)

(continuação daqui)

D. Os Vampiros e Menino do Bairro Negro

Em 1962, nos Estados Unidos, é editado o álbum Coimbra Orfeon of Portugal, que inclui duas baladas de Zeca: Minha Mãe e Balada Aleixo, «Homenagem a António Aleixo, poeta cauteleiro, natural de Loulé.» Nestas duas composições é acompanhado à viola por José Niza e por Durval Moreirinhas. Participa em digressões pela Suiça, Alemanha e Suécia. Em 1963 conclui o curso, com uma tese sobre Jean-Paul Sartre – Implicações substancialistas na filosofia sartriana. Divorcia-se de Maria Amália, casando depois em Olhão com Zélia. Sai o LP Baladas e Canções (Ronda dos Paisanos, Altos Castelos, Elegias…). Diz Zeca sobre a Ronda, que depressa será entoada de boca em boca – em reuniões de estudantes, em fábricas, em serões pequeno-burgueses e até nos cárceres políticos: «A música ocorreu-me no WC do rápido, Faro-Lisboa, depois da estação da Funcheira» (…) «Em Lisboa inteirei-me dos postos do exército, que são muitos e soantes. Rimados às parelhas dariam uma canção popular, capaz de ser entendida por soldados e generais.» E foi.

Em 1963 surge então o disco Baladas de Coimbra que inclui Os Vampiros, Menino do Bairro Negro, Canção Vai… e Vem… e Pombas. O título da capa não reflecte a realidade, pois este disco marca uma ruptura com a elitista tradição da balada e do fado coimbrões. A voz do Zeca passa os muros da velha cidade universitária e, como um rio caudaloso e de irresistível força, salta para os lábios de milhões de portugueses – torna-se impossível não associar os seus vampiros aos ávidos barões do regime salazarista: Eles comem tudo/ eles comem tudo/eles comem tudo/e não deixam nada… O Zeca explica: «Numa viagem que fiz a Coimbra apercebi-me da inutilidade de se cantar o cor-de-rosa e o bonitinho» (…) «Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja actualidade poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair.»
Como nota de humor, refira-se que uma então famosa marca de pudins quis comprar os direitos do refrão de Os Vampiros para servir de música de fundo a um spot publicitário. Obviamente, Zeca recusa. Em Menino do Bairro Negro, inspirada na vida dos meninos de um bairro degradado – o Barredo, no Porto – essa intenção de «molestar consciências» torna-se ainda mais evidente. A emigração forçada pela miséria e pela guerra colonial, bem como o aparecimento, nas periferias das grandes cidades, de bairros de lata (fruto do começo da desertificação do interior), eram, no começo dos anos 60, realidades inseridas a fogo no quotidiano dos Portugueses.

AS QUESTÕES ÉTICAS NOS CUIDADOS DE SAÚDE (3)

AS QUESTÕES ÉTICAS NOS CUIDADOS DE SAÚDE (3)

Hoje em dia, a informação científica cai sobre nós em catadupa, dando mais trabalho seleccionar o que se há-de ler do que ler o que foi seleccionado. Informação unidireccional e unidimensional, acrítica, dirigida e digerida, mastigada, intencional, programada, impura, irreflexiva, tantas vezes estéril nos amontoados de endeusadas “guidelines”, de que a maior parte dos doentes, ao fim e ao cabo, pouco beneficia, e que só ficcionalmente contribuem para a evolução da verdadeira saúde social. E isto porque o doente não é, rigorosamente não é, o fim em si mesmo, a meta das autênticas preocupações da Saúde, a célula que é necessário preservar para que o tecido social não sofra, mas apenas o número, o caso, o pretexto para atingir outros fins que nada têm a ver com éticas ou com critérios de humanidade.
Ninguém pretende negar o valor da informação e de toda a reunião científica idónea, mas há reuniões, demasiadas reuniões com pouco interesse, sem finalidade científica real, orientadas e palestradas por pessoas medíocres, autêntico fluxo mental fragmentário e desconexo, sobreposição de monólogos e silêncios, sem repercussão prática na evolução dos cuidados de saúde, obedecendo muitas vezes a interesses difíceis de definir.
É indispensável que o doente faça parte integrante da motivação profissional, da preocupação que leva o médico a deslocar-se aqui e além, tantas vezes à sua própria custa, como é o meu caso pessoal. Para lá dos vencimentos e dos honorários, que se exigem justos para não serem indignificantes, o médico tem de sentir-se parcialmente pago pela consciência de que está a fazer o melhor que pode com os melhores conhecimentos que até à altura pôde obter. Aprender a fazer-se pagar, também, com a moeda da sua consciência é o melhor ensinamento que podemos deixar aos vindouros.
Um outro fenómeno que se encontra em ligação directa com a consciência e dignidade médicas é a relação do médico com a indústria farmacêutica. Ninguém pretende negar o valor da investigação por ela conduzida. Antes pelo contrário, todos os médicos têm obrigação de a enaltecer, perante a inoperância, a negligência e a incapacidade do Estado, realçando o seu papel, absolutamente fundamental, nas mais importantes descobertas da actualidade de que tantos doentes têm beneficiado. Mas a indústria farmacêutica não é santa nem constitui, propriamente, uma instituição humanitária. Deixemo-nos de rodeios e de ilusões. Se a indústria farmacêutica não obtiver super-lucros, a sua preocupação com os doentes esvai-se como nevoeiro, o maior dos seus males. E o menor dos males não é, ao contrário do julgamento de muitos, o arrastamento dos médicos pelos campos magnéticos desta indústria, de molde a situá-los nas órbitas seguras de todas as suas esferas de influência e acção. Fácil é a este sector industrial, possuidor da anuência e conivência interesseira ou acrítica de muitos médicos responsáveis ou irresponsáveis e de muitas instituições colonizadas ou dependenciadas, justificar, pelo universal destaque e pelo intocável poder económico-financeiro que possuem, todos os seus actos, ainda que reprováveis. (continua).

          (adao cruz)

(adao cruz)

QUADRA DO DIA

Ó meu rico S. João
Santinho do manjerico
Manda todos os loureiros
Lá pró fundo do penico.

Treinador de fato de treino nunca deu bom resultado

A minha auto-avaliação

Há cerca de um mês, o Paulo Guinote lançou o desafio: que os professores dessem a conhecer a sua auto-avaliação. Na altura, não tive tempo de responder, mas aqui fica a forma como me avalio neste ano lectivo que agora termina. Não participei em nenhum momento de avaliação, não entreguei os Objectivos Individuais e não solicitei a avaliação na componente científico-pedagógica. Apenas entreguei esta auto-avaliação, como faço todos os anos desde que dou aulas. Neste sentido, vou ser tão avaliado neste ano como fui nos anos anteriores. Mas depois deste texto, já só espero o Muito bom!
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RELATÓRIO CRÍTICO DA MINHA ACTIVIDADE DOCENTE
ANO LECTIVO 2008/2009

Como faço todos os anos desde que sou professor, 1994, farei neste relatório uma súmula dos principais momentos da minha actividade docente durante o ano lectivo que agora termina.

Ao longo do ano lectivo 2008/2009, procurei cumprir com zelo e dedicação as minhas responsabilidades enquanto docente da Escola.

Na prática, só cumpri 2/3 do ano lectivo em serviço efectivo na escola. O facto de ter tido uma filha em Julho e de a minha esposa ter sido obrigada a ir trabalhar logo em Setembro obrigou-me a ficar em casa com o bebé, exercendo a licença de paternidade a que tinha direito. Assim sendo, só regressei em Dezembro, mas fiquei-me pela Sala de Estudo até ao fim do período, visto que as minhas turmas estavam atribuídas à professora que me substituíra e com ela ficaram até às avaliações. Estive presente nos Conselhos de Turma do 1.º Período e tomei contacto, pela primeira vez, com os restantes elementos da turma.

Inicialmente, tinham-me sido distribuídas cinco turmas – três de 8.º ano, uma de 10.º ano e uma de ensino profissional – e uma Direcção de Turma. No entanto, dada a minha ausência no 1.º Período, a Direcção de Turma acabou por ser entregue definitivamente a outra professora.

Cumpri o meu serviço lectivo com toda a dedicação. Cada turma é uma turma e cada aluno é um aluno, e foi com esse espírito que conduzi toda a relação professor – aluno ao longo do ano lectivo. A relação pedagógica que implementei foi a mesma de sempre, baseada no respeito mútuo e, quando tal respeito não tivesse correspondência por parte do aluno, na imposição de regras claras: a autoridade do professor na sala de aula é um valor que não pode ser posto em causa, nem ontem, nem hoje, nem amanhã, seja por que legislação for e sejam quais forem os agentes políticos responsáveis.

Neste sentido, posso dizer que todos os meus objectivos foram cumpridos. Não os Objectivos Individuais previstos na legislação, porque esse não os entreguei, pelo facto de me opor ao actual modelo de avaliação do desempenho docente, mas os meus objectivos individuais, aqueles que norteiam desde sempre a minha actividade enquanto docente. E que são, numa só frase, conseguir, através de uma relação ensino/aprendizagem completa, que os meus alunos atinjam os objectivos a que se propõem, que melhorem as suas aprendizagens e que se tornem melhores pessoas.

Não significa, como infelizmente acontece nesta escola, que todos os alunos tenham de transitar de ano só porque sim e que, em nome dessa pacóvia bondade para com os alunos, se alterem níveis e classificações conscientemente atribuídas pelos professores das disciplinas. Ao invés, a melhoria das aprendizagens, a obtenção de competências e a melhoria geral, como ser humano, só se conseguem, muitas vezes, com uma retenção. Fazendo ver ao aluno, dessa forma, que há uma diferença entre querer e não querer, entre estudar e não estudar. Sei que todo o sistema educativo português, desde há alguns anos, está organizado de forma a que os alunos quase sejam obrigados a transitar – dantes, os do básico; agora, também os do Secundário. Sei que remo contra a maré mas, consciente da minha razão, não irei mudar.

Preparei e organizei as actividades lectivas da mesma forma de sempre. Para além da utilização do manual, criei recursos audiovisuais, como fotografias e vídeos, e promovi trabalhos de grupo para uma melhor interacção entre os elementos de cada turma. Infelizmente, a escola não se mostrou preparada para corresponder às minhas necessidades. O facto de existirem apenas dois projectores no único pavilhão onde leccionava e de não existir uma única televisão em toda a escola levou a que, muitas vezes, mesmo com a maior antecedência possível, não fosse possível executar a aula conforme planeado. Quero destacar o papel incansável dos Auxiliares de Acção Educativa da escola, sempre prontos a tentar resolver os problemas dos professores e a procurar soluções alternativas.

Em relação à turma do 10.º ano de escolaridade, socorri-me de um recurso extra, essencialmente utilizado fora do contexto de sala de aula e que teve como objectivo aproximar-me de uma turma com as quais estava a ter algumas dificuldades de relacionamento: a criação de um blogue na internet. Fi-lo a título experimental, porque nunca antes o tentara, com o objectivo de promover um maior contacto entre professor e alunos e entre os alunos da turma. Os resultados foram excelentes e a relação que fomos estabelecendo no blogue, sobretudo nas caixas de comentários dos «posts», teve reflexos claramente positivos na relação dentro da sala de aula. No final do ano, como não devo continuar na escola, «passei a pasta» e forneci aos alunos interessados palavras-chave, para poderem eles próprios dar continuidade ao blogue. Quero apenas registar que «abri» esta experiência a todos os professores do Conselho de Turma, mas nenhum se mostrou interessado em utilizar este recurso.

Daqui resulta que a minha relação pedagógica com os alunos foi muito boa, tanto com os do 8.º ano de escolaridade como com os do 10.º ano e com os alunos do curso profissional. Pude conhecer muito bem os alunos da turma do 10.º ano, já que tinha três aulas por semana. O mesmo não poderei dizer das turmas do 8.º ano, com as quais tinha apenas uma aula semanal. Ora, em 90 minutos semanais, é impossível conhecer os alunos. E quando há uma queda de neve que impossibilita as actividades lectivas, uma greve, uma visita de estudo, a situação agrava-se.

Mesmo assim, não resisto a descrever um episódio ocorrido na última aula de uma das turmas do 8.º ano, episódio esse que demonstra a excelente relação pedagógica que mantive com os meus alunos. Descrevo-o da forma que o descrevi num blogue do qual sou autor:
«ADEUS MENINOS, A GENTE VÊ-SE POR AÍ
Chega, como sempre em Junho, o fim do ano lectivo. E aqueles que foram os amores de um ano vão-se embora. Para sempre. Fazem-se rapazes e raparigas e lá vão eles.
Falo dos meus alunos. A verdade é que eu é que vou. Eles ficam. A Ministra bem prometeu, em 2006, que ia ser por três anos e eu, feito burro, acreditei. Deixara de ser contratado nesse ano e pensei que ia finalmente estabilizar. Que ia poder acompanhar os meus meninos durante três anos. Vê-los crescer. «Ei, estás tão grande, puto. Há 3 anos eras tão pequenino», poderia dizer-lhes no final de um ciclo.
Pois bem, mesmo com os tais concursos de três anos, e mesmo como QZP, foram quatro escolas desde 2006. E no final, sempre a mesma angústia de me despedir sem tê-los conhecido a sério.
Nada de novo, pois, neste final de ano lectivo. Só que, como sempre, a gente afeiçoa-se mais a umas turmas do que a outras. Quem é professor sabe disso e compreende.
Com esta turma, a relação foi-se desenvolvendo ao longo do ano, dentro da sala de aula e através do blogue que criei para eles e onde partilhámos interesses, momentos e solidões. E na última aula do ano, após o
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umário do costume («Auto-avaliação. Despedidas») e a sua concretização, deu-se algo de muito especial. Disse-lhes adeus, desejei-lhes boa sorte para a vida e deixei-os sair mais cedo. Acto contínuo, de forma completamente espontânea, TODOS os alunos, em vez de irem embora, vieram ter comigo. Cumprimentaram-me, abraçaram-me, beijaram-me. E agradeceram-me. Não sei o quê, mas agradeceram-me.
Foi um momento único, mesmo que se vá repetindo ano após ano. É sempre um momento único. E esse ninguém mo tira. Foi apenas um minuto, mas parece que, naquele bocadinho, foram apagados quatro anos de humilhações, insultos e tentativas de esmagamento de uma classe. Por parte de uma Ministra e de dois Secretários de Estado que, depois de terem destruído a Escola Pública, sairão como entraram. Sem saberem o que são momentos como o que eu descrevi. Sem saberem o que é o amor de uma turma. Sem saberem o que pode ser a relação entre um professor e um aluno – algo que nunca nenhuma avaliação poderá aferir.»

Em relação à relação que mantive com os alunos do 10.º ano de escolaridade, volto a remeter para o blogue acima referido e para as caixas de comentários dos «posts». Aliás, como se poderá ver consultando o blogue, este instrumento servia também como complemento às aulas, sobretudo através da postagem de resumos da matéria, revisões para o teste ou correcção do mesmo. Não foram raros os casos em que alunos tiraram dúvidas para o teste via blogue, sendo que a minha resposta era imediata. Para além disso, tinha no meu horário nove horas por semana na Sala de Estudo, e sempre me mostrei disponível para atender os alunos que sentissem dificuldades em determinadas matérias. Nunca o fizeram, talvez porque a Sala de Estudo é um espaço onde os alunos (e mesmo os professores) são constantemente maltratados.
Ainda com o objectivo de auxiliar os alunos com dificuldades, inscrevi-me voluntariamente no programa de Tutorias. Assim, acompanhei ao longo do 3.º Período dois alunos do 7.º ano de escolaridade que, na maior parte das vezes, não compareceram.
Todos os indicadores do processo ensino/aprendizagem pesaram na avaliação dos meus alunos. Como se sabe, estamos num processo de avaliação contínua e tudo é importante para formar um juízo valorativo relativamente a um aluno. E mais do que os testes de avaliação, as aulas são fundamentais para se obter um juízo rigoroso, objectivo e, acima de tudo, justo.
Nas turmas do 8.º ano de escolaridade, o facto de ter tido apenas uma aula por semana tornou-se um obstáculo impossível de superar. Como avaliar um aluno através das aulas se as mesmas ocorrem de forma tão espaçada? Restaram, pois, os testes de avaliação, já que, no ensino básico, sobretudo no 8.º ano, recuso-me a marcar Trabalhos para Casa – os célebres TPC’s, sobretudo por causa do ridículo «curriculum» dos alunos, com 16 disciplinas ou áreas disciplinares e quase sem tempo para estudarem e, no final, serem aquilo que devem ser – adolescentes.
A este propósito, de resto, e tendo no pensamento os meus alunos do 8.º ano, deixei num outro blogue do qual fiz parte o seguinte Manifesto contra os TPC’s:
«Regressei na segunda-feira ao trabalho, após uma saborosa licença de paternidade de quase três meses.
E como no ano passado estive nas «Novas Oportunidades» e, aí, o trabalho é totalmente diferente (sobretudo de acompanhamento dos aprendentes – pois, é assim que os alunos são chamados), já não me lembrava do verdadeiro disparate em que está transformado hoje o ensino básico.
Tenho, entre várias turmas do Secundário e de Cursos Profissionais, três turmas do 8.º Ano. Quando olhei para o horário deles, fiquei espantado. Têm mais de 35 horas de aulas por semana. 35!!! Trabalham mais do que a maior parte das pessoas, porque depois, fora da escola, ainda têm de fazer os trabalhos para casa e de estudar no dia-a-dia e, sobretudo, na véspera dos testes.
A panóplia de disciplinas, por sua vez, é quase interminável: Português, Inglês, Francês ou Espanhol, História, Geografia, Matemática, Ciências Naturais, Físico-Química, Educação Tecnológica, Artes Plásticas, Educação Visual, Educação Física, Estudo Acompanhado, Área de Projecto, Educação para a Cidadania e Educação Moral e Religiosa Católica (ufa!). 16 disciplinas, 16 professores.
São miúdos com 13 anos, porra! Estão na idade de viver um pouco que seja, não de estarem enfiados dentro de uma sala de aula quase oito horas por dia. Para socializar, têm os intervalos e a hora de almoço, já que nem com as faltas dos professores podem contar (curvo-me respeitosamente perante essa excelente invenção, no fundo com mais de 10 anos, que foi a das aulas de substituição). Não lhes chega tanta socialização?
Nas escolas de província, como é a minha neste ano, o mais normal é esses alunos terem de se levantar antes das sete da manhã e chegarem a casa quase às oito da noite. É jantar e dormir – pouco mais.
E o que é que eu faço quando apanho uma turma de 28 alunos às 17 horas, uma única vez por semana, sabendo eu que eles já estão dentro de uma sala desde as 8.30 da manhã e que, pelos seus olhos, já passaram inúmeros professores, cada um com as suas matérias, as suas exigências e as suas manias?
Tudo isto para dizer que me recuso a marcar trabalhos para casa, os célebres TPC’s. Aproveito as aulas ao máximo, da maneira que sei, tentando sempre abrir-lhes os olhos para o mundo que os rodeia (para mim, é o mais importante). Que cheguem a casa e que descansem, que brinquem, que vejam televisão. Estão na idade disso! Já bastam os testes para terem de se preocupar.
Os meus alunos, a primeira coisa que me perguntaram foi de onde eu era. A segunda foi se, sendo do Porto, era portista. A terceira foi quando é que iam ser os testes.
Não marco TPC’s e pronto. Assim como assim, no fim do ano o Ministério quase que nos obriga a passar todos os alunos, por isso, se era para ser um indicador do aproveitamento e do esforço do aluno, vai dar ao mesmo.
Tenho pensado muitas vezes no projecto educativo da Escola da Ponte, na Vila das Aves. É único no país. Ali, respeita-se o ritmo de cada aluno. Não há propriamente disciplinas nem aulas, não há testes, o Conselho de Pais/Encarregados de Educação é o órgão de legitimação do Projecto e é ele que tem de resolver os problemas que não são passíveis de ser resolvidos dentro da escola. Voltarei ao assunto.»

Em relação à turma do 10.º ano de escolaridade e à turma do ensino profissional, os instrumentos de avaliação puderam ser muito mais diversificados. Aulas, trabalhos de pesquisa individuais, trabalhos de grupo, testes de avaliação, visitas de estudo. Neste sentido, organizei para a turma do 10.º ano uma visita ao Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota, ao Mosteiro da Batalha e à Vila de Aljubarrota. Fiz uma aula de preparação para a visita, enquadrada na matéria que estávamos a dar nesse exacto momento, elaborei um guião para acompanhamento da visita e fiz a sua avaliação. Em relação à turma do ensino profissional, participei na Qualifica/09, visita de estudo à Exponor, e numa palestra sobre a água que decorreu na Casa da Cultura de Cinfães.

A minha participação nos Conselhos de Turma pautou-se sempre por critérios de rigor e objectividade. Defendi com toda a convicção os níveis que tinha para atribuir, por considerá-los os mais justos e adequado às competências reveladas pelos alunos. Da mesma forma, insurgi-me contra todas as alterações de classificações, minhas ou não, que tivessem como justificação única permitir que no ano seguinte o aluno acompanhasse a sua turma. Não concordei com a maneira como determinados alunos transitaram com um número inaudito de níveis negativos, e disse-o em Conselho de Turma. Para mim, fazer transitar esses alunos era pactuar com quem
faz da bandalheira o seu percurso escolar, era pactuar com a permissividade que tem sido apanágio da política do Ministério da Educação, sobretudo nos últimos quatro anos. Deixei-o registado em acta.
Em sede de Departamento, deparei-me com uma espécie de órgão intermediário entre o Ministério da Educação e os professores. Ou seja, nas reuniões de Departamento, pareceu-me sempre estar a ouvir a senhora Ministra da Educação. Era necessário que os alunos transitassem e que o número de níveis negativos fosse o mais baixo possível. «Repensar estratégias», neste caso, interpretei-as como subir os níveis aos alunos. Reuniões privadas com os professores do Departamento, se fosse necessário, para ultrapassar o «problema». Valha a verdade que, perante este tipo de discurso, o melhor era nem sequer dizer nada.
Ao invés, encontrei no Conselho Executivo um órgão sempre colaborante e pronto a resolver tudo o que estivesse ao seu alcance. Várias foram as vezes em que me dirigi a esse órgão com questões concretas cuja resolução urgia. A internet foi uma questão recorrente, pelo facto de ser desligada pouco tempo depois do fim das actividades lectivas. Estando eu deslocado na vila, e sem computador pessoal que se pudesse substituir aos da escola, via-me assim impedido de preparar com todos os recursos necessários as aulas do dia-a-dia. Devo esclarecer que me foi explicada a razão de tal procedimento. Naturalmente, aceito que assim tivesse de ser feito.

Em relação aos meus conhecimentos científicos e pedagógicos, devo dizer que desenvolvo ao longo dos anos um trabalho de pesquisa e investigação constantes, como o atestam as várias dezenas de livros publicados nos últimos anos. Ao nível das capacidades de utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação, devo dizer que estão claramente acima da média da classe docente. Não senti a necessidade, até hoje, de desenvolver acções de formação contínua enquanto tal, pelas razões atrás aduzidas.

No final de um ano lectivo mais desgastante do que o habitual, em especial devido à guerra promovida contra os professores pelo Ministério da Educação, e que neste ano lectivo terá atingido o seu auge (o que motivou a minha candidatura a Delegado Sindical da escola, visto que não havia), considero que a minha missão foi cumprida e que o meu desempenho profissional pode ser considerado MUITO BOM. A minha relação com a comunidade foi mesmo EXCELENTE – tanto com a comunidade educativa como com a comunidade da vila. Em relação aos alunos, fiquei com um amigo em cada um deles. Em relação aos professores, foi um entre os muitos que, com honestidade e sem incoerências, procuraram dignificar a sua profissão.

Ricardo Santos Pinto

Ai a Madeira

Falar da ilha da Madeira é sempre um prazer.

Só lá fui uma vez, mas gostava de lá voltar.

Até aqui, poderia dizer que, adaptando uma conhecida canção sobre Alcobaça, quem vai à Madeira, não passa sem lá voltar.

Gostaria eu de voltar mas de preferência sem o Sr. Doutor Alberto João Jardim no poder.

Diz o povo que “cada tiro cada melro”…

Diz mal de tudo e de todos e ainda quer implantar um regime anti-comunista na sua ilha.

Diz mal dos “cubanos do Continente”, principalmente o Sr. Sousa (José Sócrates) ou do Sr. Silva (Cavaco Silva).

Mas depois queixa-se que não mandamos dinheiro para lá.

Senhores políticos portugueses, para quando a independência da Madeira?

Queria ver como é que aquele senhor se governava.

Protestos Educativos, SIMplex – resposta a Sofia Loureiro dos Santos

No SIMplex, ponto de encontro dos que vão votar PS, a Sofia Loureiro dos Santos faz a apologia da política educativa do actual governo, a propósito da intenção declarada da FENPROF em continuar a lutar.
E se me permite, Sofia, gostaria de reflectir um bocadinho em torno do que escreve até porque estou preocupado com o súbito interesse do seu secretário pela blogosfera.
Eu explico. No vosso manifesto escrevem que “Interessa debater o que foi feito, de bom e de mau, neste últimos quatro anos; mas também projectar o que de melhor se pode fazer para a próxima legislatura. Queremos que o ritmo das reformas se mantenha ou acelere. Queremos transformações concretas na justiça, na segurança social, na saúde e na educação. A dignificação dos profissionais, em todas as áreas, é fundamental. O fosso entre ricos e pobres não pode continuar a alargar.”

Obviamente, sabemos os dois, que nunca como nos últimos quatro anos avançou o fosso entre ricos e pobres em Portugal, mas disso dirá que a culpa é do estrangeiro. Claro, se até o BENFICA entra em campo com 11 forasteiros…

Mas, a minha chamada ao Manifesto vai também no sentido de perguntar onde está a sua capacidade de debater o que de mau foi feito, por exemplo, em termos de educação?

No que diz respeito ao conteúdo, uma contradição, se me permite:

Valida a divisão na carreira dos professores porque “dando aos mais experientes a possibilidade de terem funções mais específicas e diferenciadas, entre as quais a avaliação de desempenho dos colegas mais inexperientes” se está a dignificar a carreira.

Depois, mais à frente escreve que a FENPROF combate a avaliação do PS porque ” o reconhecimento do mérito não lhe interessa.”

Ora vamos lá ver se a gente se entende: o que interessa é dividir a carreira para os mais velhos avaliarem os mais novos? Ou é o reconhecimento do mérito?
Sabe, por acaso, como foram escolhidos os titulares?
Se calhar poderia ir procurar saber.

Por exemplo, pense nesta contradição: para ser Coordenador de Departamento tem que se ser titular. Algo enquadrado na lógica dos mais velhos a orientar os mais novos.
Mas, e para ser Director, o órgão máximo da escola?
Pois… É algo do tipo o Secretário de Estado tem que ser titular, mas alguém para ser Primeiro-Ministro não necessita de tantas “habilitações”… É coerente.

Depois, termina com uma frase “roubada” à FENPROF: “Haverá que corrigir e melhorar muitas coisas, mas sempre com o sentido numa escola pública de qualidade, que é um dever do estado e o único meio de garantir igualdade de oportunidades a todos os cidadãos.”
Integralmente de acordo. Por isso é que sou Socialista e por isso é que colaborei na elaboração do Programa do PS nas eleições anteriores. E, também por isso, é que me sinto enganado.
Obviamente reconheço o trabalho na área das TIC, o alargamento da oferta no 1ºciclo, as obras nas secundárias…
Mas, e a Sofia? Consegue reconhecer o que não correu bem?

Só para concluir: as manifestações de professores, significaram o quê, para si?

CONCURSO PARA DIRECTOR DO CENTRO GAIA SUL

No MUP a não perder!
Nota de redacção complementar ao post do MUP:
Os candidatos são:
1. Benilde de Sá Fardilha (Ex-Executivo de Espinho)
2. Maria de Lurdes da Silva Rodrigues
3. Maria Rosa Gomes da Silva Sousa.
4. Olinto António Santos Silva (Ex-Executivo de Canelas)
O responsável pelo Processo é o sr. Presidente do Conselho de Escolas.
Mais info no site do Centro.

Priscilla, Queen of the desert

Pelas razões óbvias, este é o filme ideal para a silly season, o que quer que isso seja. E também porque não tarda nada, as “questões fracturantes” voltarão a estar na agenda política. Tenho a certeza que este filme elucida mais e melhor o mundo homofóbico que qualquer palestra séria e entediante. Além de tudo isto, o filme é mesmo bom e raramente encontro alguém que o tenha visto. Este é verdadeiramente um filme de homens; Terrence Stamp, Guy Pearce e Hugo Weaving, grande guarda-roupa, uma recordação inesquecível dos Abba e truques com bolas de ping-pong. A não perder, apesar de já ter sido editado há uns anos atrás. Fica a sugestão.