Para perder o medo do nuclear…

Stanley Kubrick, George C. Scott e Peter Sellers. Muitas bombas nucleares. Que mais se pode pedir num filme?

“You can’t fight here. This is the war room!”

Sabe quantas armas nucleares podem atingir o Porto? E Lisboa?

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Porto: 7728 ogivas nucleares. Destas, 2347 são dos EUA, 4568 são da Rússia, 192 são do Reino Unido, 121 da China, 300 de França e 200 de Israel.

Lisboa: 6645. Destas, 1264 dos EUA, 4568 da Rússia, 192 do Reino Unido, 121 da China, 300 da França e 200 de Israel.

A nossa sorte é que nos damos bem com toda esta gente.

Num post anterior, em que apresentava a primeira parte deste título diziam-me para não dar importância a esta questão e que só interessava a primeira, porque as seguintes seriam irrelevantes. Concordo. Não dou demasiada importância a esta matéria e só a primeira é que interessa, porque as restantes seriam, com efeito, irrelevantes.

O espectro nuclear já não paira tão intenso sob as nossas cabeças como num passado que hoje soa longínquo. Mas não deixa de arrepiar a enorme quantidade de armamento nuclear que existe no nosso mundo.

Recentemente, o The Guardian fez um trabalho sobre as ogivas nucleares activas no mundo, a propósito da negociação entre os EUA e a Rússia. Adam Charnock não perdeu tempo e concebeu um algoritmo informático para mostrar as ogivas que estão no raio de alcance de várias cidades do mundo. Nasceu assim o Nukeometer.

Esta é uma matéria que pode não assustar como antigamente, mas que dá que pensar, lá isso dá.

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Poesia hondurenha de anteontem

A semana passada dei uma boas googladelas para perceber o que se passa nas Honduras. Fiquei esclarecido e do lado dos que escrevem:

“Que fique claro de umas vez por todas: não somos nem políticos, nem revolucionários, nem nenhuma outra merda: apenas defendemos a dignidade, que neste momento está do lado de Mel Zelaya.”

Porque é de dignidade que se trata, a dignidade dos que gritam:

El pueblo: Su libertad para decir qué putas quiere

Dessas voltas guardei os feeds de algumas páginas de poetas, escritores e fotógrafos hondurenhos, o que me tem oferecido a experiência, fantástica, de os acompanhar durante um período tão complicado  para a vida do seu país.  Um período de sensações fortes, para usar uma expressão fraca, de onde naturalmente brotam palavras e imagens fantásticas.

Ao poeta Fabricio Estrada roubei esta foto e tentei verter para português o poema que aqui vos deixo.

Photo de Fabricio Estrada

Profundidade* das Termópilas

Há uma chuva que se enremoinha lentamente
ameaça e cai por fim
com a força de milhares, intensamente inevitável
todo o peso da transparência
num assobio
que vai ensurdecendo o vento
numa profundidade
que chega
às raízes das sumaúmas**
no percorrer de um rio tumultuoso.

.

Há uma chuva que trespassa a terra
e alimenta
o romper das árvores novas,
de bosques subterrâneos emergindo
de ossos que retomam
a figura primeira de homens e mulheres andando.
.

Há uma chuva
que esborrata os uniformes
encurrala, agita e lava o corpo,
amansa,
ordena,
cobre o céu
para que lutemos
debaixo da sua sombra.

.

Fabricio Estrada, poeta hondurenho,versão minha a partir do poema original publicado na sua Bitacora del Parvulo

*Em castelhano: Hondura
**“A sumaúma (Ceiba pentandra, da família Bombacacea) foi para os índios da América Central a árvore-da-vida.”

Nunca na vida te deixarei sozinho

Um amigo do Aventar, que dá pelo nome de Chico da Tasca, enviou-me um mail dizendo que eu escrevia tanto que até lhe tirava o tempo para foder. Que grande elogio! Deixar de foder para ler os meus posts? Eu não o faria. Post fosse ele! Bem, se o meu amigo deixasse de comer, eu ainda pensaria duas vezes, podia levá-lo a morrer de fome. Agora, deixar de foder? Ele tem muito tempo para foder, eu é que não.
Assim sendo, aqui vai mais um post. Mais uma estorinha verdadeira da Guiné, a que dei o título:

Nunca na vida te deixarei sozinho.

Nunca na vida te deixarei sozinho, disse a Isabel ao seu marido joãozinho, na véspera de meter outro homem na sua cama.
A Isabel não andou na Faculdade, para assim falar tão bem nas traseiras do sentimento, mas foi criada de servir em Bissau, o que, numa aldeia do mato, era um curso superior. Isabel era uma mulher muito bonita, daquelas que são sempre futuro, ainda que a pele se engelhe. As suas formas afeiçoavam-se aos olhos, mais despindo a existência do que o corpo. Uma espécie de mulher à flor da pele, bem calculada por dentro. Mulheres paridas de si mesmas, sem vida nos outros. Mulheres de além-desejo, voo de ave, caminhando fora dos passos. Isabel, o torvelinho das tonturas do Joãozinho.
Joãozinho, servente da messe, sabia a mulher que tinha e todo se babava quando a gente dizia que ela era mais linda que surucucu empinada, mais pura que fruto de cajú. Todo ele era uma viagem por dentro da Isabel, adivinhando-lhe o mundo no contar das coisas. Manhã levantada era sol de todo o dia, noite deitada era sonho que não morria.
Um dia…
Encontrava-me eu frente à palhota da Isabel, limpando com uma compressa embebida em permanganato de potássio, as feridas do dorso das vacas, verdadeiros buracos abertos pelos estilhaços das granadas e pelos pássaros pica-sangue, impiedoso tormento dos animais, quando ouvi atrás de mim uma voz de asas, leve de tempo onde não havia destino, medida por lonjuras de sonho.
– Sr. Doutor, Sr. Doutor.
Do peito me nasceu um soluço que só anos mais tarde se escapou.
-Olá Isabel, que bela surpresa!
– Doutor, tenho galinha que consegui arranjar e vou fazer frango à cafreal para Doutor e nosso Capitão.
– Isabel, tu és um anjo, e nosso capitão, todo católico, vai pensar que é dádiva do céu, quando eu lhe contar.
Todos somos fingimento quando o sangue não se entorna no desaconchego da solidão. O provisório serve o regresso da alma, o fogo de outros calores invade os olhos através de janelas que há muito se não abriam. O capitão não mediu a fome nem a galinha, esqueceu a comunhão do Padre Gama, sonhou o despir da Isabel até à nudez pecaminosa e espetou os olhos no cair da noite.
Ao cair da noite, lá fomos os dois à palhota da Isabel, enquanto o Joãozinho lavava a loiça na messe. A Isabel estava no último acto da confecção do delicioso cafreal da tabanca. Primeiramente refogado, apenas em sumo de limão e piri-piri, depois grelhado na brasa e em seguida frito com cebola.
Notei que os olhos do capitão se cruzavam constantemente com os meus, não na galinha mas nas ancas da Isabel. Seguiam a luz sensual do petromax, que penetrava abusivamente na malha de tule até às roupas que vinham de dentro. Senhora de reflexos e de encontros, Isabel não prestava menos atenção à sedução do que à galinha.
-Doutor, nosso Capitão, tenho gira-disco e morna, mim dançar para doutor e nosso capitão.
Não nos empenhámos em perceber como é que uma pequena caixa e um disco de madeira giravam música. O esvoaçar do tule era o centro do mundo, o arder da fogueira de todo o nosso frio. Toda a força daquele colo maternal, toda a ternura da silhueta envolta em cabelos penosamente desfrisados durante longos anos, toda a firmeza das carnes subtis, todo o trigo desse abrigo adormecido, toda a tempestade recolhida nesse pedaço de noite tombaram sobre nós quando a Isabel iniciou o sreep-tease.
Não me lembro do sabor da galinha. Recordo apenas uma espécie de vento fustigando as entranhas, reduzindo-me a um calção e uma camisa, ardendo dentro de mim com sabor a cinza.
Olhámos um para o outro, sorrimos, assumindo o que sempre estivera assumido, antes de darmos ao espírito a momentânea liberdade de um passeio pelo sonho que morre ao pé dos coqueiros.
Aconteceu nessa noite ou na noite seguinte. O Joãozinho entrou em casa e deu com alguém a fugir da cama da Isabel. Pobre do Joãozinho, sofreu mais com a sova que deu na mulher do que com a traição. Sofreu mais pelo avesso do que ela dissera na véspera, nunca na vida te deixarei sozinho, do que em todas as noites que passara enterrado na bolanha à espera de turra.
Doeu muito mais do que picada de escorpião.
Isabel apresentou queixa no Chefe de Posto. Argumentava e provava com as equimoses dificilmente visíveis na sua pele de negra. Dolorosas como as equimoses em pele de branca. Afastara bondades de Joãozinho, denegrindo sua violência, grande de mais para coisa de momento. Não ser vontade de ela mas força de imaginação que vem de dentro. Destino de todo fogo que acende rápido.
Foi constituído o tribunal. Perante o Chefe de Posto, Capitão e eu, compareceram queixosa e réu. O Joãozinho estava disposto a perdoar, a despeito de um sonoro desabafo, bengala de toda a sua alma, letra de toda a sua filosofia, resguardo de toda a sua defesa.
– Boca de ela ser boca de mim, olho de ela ser olho de eu ver, dor de ela corpo de mim qui dói, vida de ela valer morte de mim, mim ca pude pensar que Zabel durme cum gajo na cama de mim, dibaxo di memo tecto…inda si foi sinhô dôtô ou nosso capeton…!

    Nunca na vida te deixarei sozinho  (adao Cruz)

Nunca na vida te deixarei sozinho (adao Cruz)

Lezíria – ponte sem carros e aborto ambiental*


A ponte pura e simplesmente não tem tráfego. Se tráfego é haver carros em movimento para este e aquele sentido, então esta ponte é mais um hino ao desperdício.

Fui lá uma primeira vez para a ver. Quatro/cinco carros nos dois sentidos. Pensei que a população ainda não estava feita àquela ponte e que seria uma questão de tempo. Nada! Tenho um amigo que mora por ali perto e que me diz que é a melhor ponte do mundo, passa por lá e nunca parou uma vez que fosse.

Não tem carros! Uma ponte sem carros. A TVI hoje veio confirmar mais este maravilhoso exemplo do investimento público, exemplo de rentabilidade e utilização.

Na altura houve muita gente que torceu o nariz, mas a máquina montada e ávida de obras de betão, poderoso lobby que nos há-de “enterrar” a todos, ganhou mais uma vez. Tal como agora, é preciso é avançar, fazer circular dinheiro, postos de trabalho, arrastamento de actividades a montante, blá, blá, blá…

Mas claro que agora passam à frente, ninguem foi, ninguem viu, ninguem é responsável!

É preciso acabar de vez com estas obras públicas não necessárias, que não provam no exame do custo/benefício, que só servem para alimentar o “monstro” insaciável” das grandes empresas de construção civil.

Para além disso está construída sobre uma magnífica planície, prenhe de verde, sobre as melhoras terras de agricultura do país. Aquela ponte é uma vergonha para quem a construiu, tal é o impacto visual e sonoro naquela paisagem de sonho.

* directamente da Escócia

UMA GRIPE COMO AS OUTRAS

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PANDEMIA / LUCRO
. Vivemos uma altura das nossas vidas em que o lucro, os ganhos de dinheiro, os interesses económicos, e a publicitação do que interessa a alguns, nos comandam.
Por trás do medo induzido, por trás das doenças, movem-se interesses de tal modo grandes, que se torna difícil pensar que a vida que nos impõem possa ser diferente.
Desapareceram a crise económica mundial, a crise económica nacional (a crise de valores, da educação, do desemprego, da fome, etc.), a crise petrolífera e outras crises, quando apareceu a crise da Gripe dos porcos, que se convencionou chamar de A.
Esquecemo-nos dos milhares de pessoas, milhões até, que morrem diariamente, por esse mundo fora, vítimas de diarreia, malária, sarampo, pneumonia, fome e outras doenças. Para estas mortes desaparecerem em grande parte, bastaria que o mundo (OMS) se lembrasse de ministrar soro, ou/e vacinas baratas, e de alimentar minimamente esses desgraçados. Mas como vivem na sua maioria em África, e África não tem dinheiro para pagar, o melhor é nem nos lembrarmos disso.
Raramente se fala destes milhões de pessoas, que a solidariedade mundial poderia salvar com pequenos custos.
Mas fala-se, diariamente, em todos os noticiários das doenças da moda. Começaram, anos atrás, com a gripes das aves. Os jornais e televisões mundiais inundaram-nos de notícias, e de sinais de alarme. Era uma epidemia, a pior de todas! Movimentos mundiais, com custos elevadíssimos, trataram os doentes. Milhares de vacinas foram produzidas. Morreram 250 pessoas em todo o mundo no espaço de dez anos.
Agora diariamente fala-se da gripe dos porcos. Os produtores do Tamiflú, não têm mãos a medir para produzir o medicamento. Há milhares de infectados e meia dúzia de mortes. Os governos fazem encomendas de milhões de doses de uma nova vacina, a criar até ao fim deste ano, e a distribuir pela população. Agora já não temos uma epidemia, temos uma pandemia. Coisa horrorosa, e o pânico instala-se mundialmente, afectando toda a gente, com a economia a sofrer novo abalo. Só as farmacêuticas e os intermediários prosperam. Obtiveram e obtêm, com estas crises, as gripes das aves e a dos porcos, biliões de euros de lucros.
Enquanto o soro, as vacinas e a comida necessária para suster as mortes em África, provocadas pela a malária, a diarreia, o sarampo, a fome, etc., custariam uns milhões de euros e evitariam milhões e milhões de mortes, estes tratamentos e vacinas para estas novas gripes, custam milhares de biliões de euros, para tratar e evitar a morte a alguns milhares de pessoas.
E a gripe normal? A que nos afecta todos os anos, e que mata em todo o mundo meio milhão de pessoas por ano? Porque não tem o mesmo tratamento que estas duas, agora bem mediáticas? Será porque as farmacêuticas ganham pouco, ou mesmo muito pouco, com isso?
E o mediatismo das coisas está a ser aproveitado por toda a gente, governos inclusivé (e se calhar até, principalmente), para mostrar ao povo o quanto se importam e incomodam com as suas populações. E gastam o dinheiro dos contribuintes para que todos os vejam, assim, incomodados.
Em Portugal não é diferente. Diariamente a Ministra vem mostrar-se e dizer-nos o quanto de bem estão a fazer pela população, e dar-nos conta dos infectados com a gripe A. Não se fala de mais nada, nada mais existe no nosso país, digno de ser falado e mostrado. A histeria está instalada. Já se fala em encerrar escolas, creches e empresas, faltando falar na proíbição de comícios e encontros esclarecedores nas próximas campanhas eleitorais. As eleições estão próximas, o partido do governo está na mó de baixo e é preciso adormecer o povo. Esta doença é uma benesse para o nosso Primeiro, sendo mais uma ajuda para fazer esquecer os outros males.
As prevenções que se estão a tomar para o tratamento e prevenção da gripe A são mais que necessárias. Mas se esta gripe é assim tão terrível, como se anuncia por esse todo, porque é que a OMS não a declara um problema de saúde pública mundial e não se autoriza a fabricação de medicamentos genéricos para que seja combatida a mais baixo preço, e possam ser distribuídos pelas populações mais pobres, gratuitamente?
Quem ganha com isto tudo? Quem ganha com o pânico mundial, a não ser as farmacêuticas que detêm as patentes do Tamiflú, e os intermediários que o comercializam?
Vistas bem as coisas, a gripe A, é uma gripe como qualquer outra, aproveitada para gerar lucros cujos valores são obscenos.

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Falando de democracia: Ainda o tema do iberismo (I)

Portugal é independente «de facto» desde 1128 (batalha de São Mamede) e «de jure», desde 1143 (Conferência de Zamora). Espanha existe «de facto» desde 1469, quando Isabel de Castela e Leão casou com Fernando de Aragão. Os dois reinos continuaram a existir, com seus foros, privilégios e costumes, mas uma coroa dual passou a ser posta na mesma cabeça a partir de Carlos I. «De jure», Espanha existe «de jure» desde 1812, quando as Cortes de Cádis reconheceram a unidade territorial do estado espanhol e a plasmaram na Constituição. Os reis Católicos começaram a chamar Espanha ao conjunto dos territórios abrangidos pelas duas coroas e D. João II terá escrito aos primos protestando por terem usado o nome da Península para designar uma parte dela. Isto foi-me afirmado pelo meu amigo Ricardo Martin, professor da Universidade de Barcelona. Porém nunca consegui localizar a tal carta. Nem ele.
«Hablad de castellanos y portugueses, porque españoles somos todos!», terá dito Camões. Abro parêntesis – conheço razoavelmente a obra do Luís Vaz. Como todos os da minha geração, usei «Os Lusíadas» para aprender a dividir orações. Na adolescência, li com paixão a sua poesia lírica da qual depois, já com olhos de adulto, apreciei a grandeza. Conheço-lhe os autos. Esta frase, não a encontrei em parte alguma. O que não significa que não exista e se existe é apenas mais uma confirmação da gigantesca enciclopédia do conhecimento que se faria com aquilo que desconheço. Há semanas, circulou uma carta apócrifa da Clara Ferreira Alves atacando Mário Soares, carta que teria publicado no Expresso, mas cuja autoria ela desmentiu. Suponhamos, suponhamos só, que a carta do Príncipe Perfeito, de que me falou o Ricardo Martin, e que a frase do Luís, também nunca existiram. Como é que as criaturas podem vir repor a verdade? A frase viaja pela blogosfera em velocidade de cruzeiro e em castelhano (todos sabemos que Camões era bilingue, como quase todos os poetas da época). Apesar das dúvidas, vou partir do princípio que não se trata de apocrifia. Porque somos, de facto, tão espanhóis como castelhanos, catalães ou galegos. Afinal, «espanhol» é sinónimo de «ibérico».
Volto a este temática porque, segundo pude verificar, está a ser muito agitada, com sites e blogs específicos, onde se trocam opiniões (e alguns insultos). Como vos confessei, há muito tempo atrás fui iberista convicto. Com amigos portugueses, catalães, maiorquinos, um castelhano e alguns latino-americanos, fiz parte de um Centro de Cultura Íbero-Americano. Para nós, peninsulares, amordaçados pelas ditaduras de Franco e de Salazar, a Federação Ibérica, composta pelas cinco nacionalidades existentes na Península, seria uma forma de atingir a democracia. Era uma ingenuidade, porque não estou a ver os ditadores a abandonar as suas cadeiras e a dizer – Façam favor de constituir a vossa Federação. Mas era de uma Federação que falávamos – Países Catalães (Catalunha, Aragão e Baleares), País Basco, Espanha (com o remanescente do território não autonomizado), Galiza e Portugal. A capital sairia de Madrid. O estado seria uma República.
O que eu vejo hoje defender não é nada de semelhante, não se trata de uma federação de cinco estados, nem sequer da união dos dois existentes – trata-se da integração pura e simples de Portugal no estado espanhol, com o estatuto autonómico das demais regiões. Isto não é iberismo, nem união – chama-se anexionismo. Só o meu respeito pelas pessoas que defendem ideia tão disparatada, me impede de as qualificar. Porque além de toda a aberração que constitui tal ideia, do ponto de vista economicista que me parece constituir a parte mais visível da ideia – em Espanha paga-se melhor, a ideia da união ibérica é, nas actuais circunstâncias uma «ideia absurda» (e isto foi Cavaco Silva quem afirmou – não costumo estar de acordo com o que ele diz, mas não há regra sem excepção – esta cavaquiana afirmação é o mínimo que posso citar, num grande esforço de contenção, pois tenho palavras mais vicentinas a ocorrerem-me em catadupa). Sermos absorvidos por Espanha seria, para além dos aspectos que mais me interessam, entrarmos numa jangada que se está a desfazer. Espanha é um estado sem futuro, com uma forma arcaica e kitsch de chefia. Se Catalães, Bascos, Galegos querem ou não sair, é algo em que não nos podemos deter muito tempo. Diria que, na Catalunha, por exemplo, existem patriotas exaltados, monárquicos e republicanos, que não admitem a ideia de estar integrados e outros que entendem que o processo de integração não pode ser revertido. Uma grande parte dos Catalães tem origem noutras regiões, em imigrantes andaluzes principalmente. Pois, encontrei jovens, andaluzes de segunda ou terceira geração, que são catalanistas ferrenhos, profundamente imbuídos do ideal independentista. No País Basco, nem preciso de falar, todos sabemos o que se passa. Na Galiza, as correntes separatistas são menos visíveis, embora existam e se manifestem.
Pessoas que gostavam de «ser espanholas» por que «é bonito ter um rei», ou porque os ordenados são melhores e os espanhóis vivem materialmente melhor do que nós (o que, em termos médios, é inegável), não se deviam esquecer de que Espanha tem uma taxa de desemprego das mais elevadas da União Europeia. Por outro lado, muito do «esplendor» da economia espanhola é feito de multinacionais que instalaram as suas centrais para a Península em Barcelona ou em Madrid – são empresas americanas, alemãs, francesas, britânicas… Os «capatazes» ou executivos (que enxameiam os nossos hotéis) são castelhanos, catalães, galegos… e ajudam a criar a ilusão de que é a Espanha que está a tomar conta da nossa economia (como se tal coisa existisse…). Parte dos defensores da anexação, em grande maioria, iriam engrossar as fileiras do exército de «parados». Se querem deixar de ser independentes, porque não sugerem uma união (ou mesmo uma venda) à Suécia? Os suecos ganham muito melhor do que os espanhóis, há menos desemprego… E, já agora, também têm um rei e a rainha Sílvia até fala muito bem o português.
Sempre houve e continua a haver, por esse mundo fora, pessoas a morrer para que os seus países se tornem independentes. São «pobres idealistas». Entre nós há gente «realista» e com «sentido prático» disposta a vender uma Nação com nove séculos por um prato de lentilhas, que é como quem diz por meia dúzia de euros. Não vou qualificar estas pessoas nascidas no nosso País (mas que pelos vistos não o amam). Nem voltarei a este tema porque, além de ser repugnante, ouvi dizer que há fantasmas que, de tanto falarmos neles, se materializam.

Onde escreves os teus comentários, Chico da Tasca?

Apetece-me…