Ainda o Filme : talento em vão de escada

Há várias cenas de grande cinema neste filme “Dois Amores”. A mais espantosa para mim, é a cena entra a mãe e o filho que se prepara para abandonar tudo atrás de uma paixão.

O cenário é o mais pobre que se possa imaginar. Não tem adereços. Não há quadros nas paredes, nem luz de janelas, inexistentes, nada que possa ajudar ao ambiente que se pretende criar.

O palco é, pois, um patamar de escada de madeira esconsa, velha e corcomida. A mãe apanha o filho a descer a escada para fugir. Não tenta nada para que o filho não saia. Diz-lhe que sempre soube. Ninguem mais sabe a não ser ela. Abraçam-se ,o filho diz-lhe que sabe que é uma aventura perigosa mas que não pode fugir ao seu destino. E diz-lhe que é feliz.

É tudo o que a mãe quer ouvir. Saber o filho feliz. E diz-lhe, que só tem um pedido a fazer-lhe, que nunca se esqueça, aconteça o que acontecer, que aquela é a sua casa e que estará sempre aberta para o receber. (foi exactamente o que eu disse ao meu filho quando ele decidiu ir viver sozinho).

A emoção controlada de Isabella é um tratado de bem representar, entre a aflição de ver o filho partir e a alegria de o ver viver a vida que é dele, de o saber apaixonado (só uma mulher percebe isto, e aqui a mãe fica para segundo plano). Phoenix num terror feito de paixão larga aquela mulher que é sua mãe por outra que lhe não é nada. Não olha para trás. Desaparece no segundo lanço de escada que não se vê.

Esta cena a não ser interpretada por dois actores de talento seria um fiasco e arrasaria o filme.

Aqui o matulão afundou-se na cadeira, lágrima no olho. Afinal quem é que nunca saiu de casa?

Comments

  1. maria monteiro says:

    Pois LM, mais uma surpresa essa forma como nos comenta o filme (que ainda não vi)…

  2. Luis Moreira says:

    Maria, nos filmes como na vida o que importa está nos pormenores…