Francisco Leite Monteiro – Alcochete: Novo Aeroporto de Lisboa

Através do “Alerta do Google – novo aeroporto de Lisboa”, tive conhecimento do blogue AVENTAR e do trabalho sob o tema “O novo aeroporto internacional de Lisboa, em Alcochete” onde é abordada a origem da opção final da escolha, em termos de localização, uma “iniciativa da CIP que apresentou ao Governo um estudo preliminar sobre a localização do Novo Aeroporto, em Alcochete; o seu a seu dono”.

Efectivamente, em boa hora – a partir de meados de 2007 – a CIP promoveu estudos técnicos, posteriormente apresentados ao Presidente da República e ao Governo, fazendo vingar Alcochete e, de uma vez por todas, acabou com o absurdo da opção Ota, anunciada bombasticamente em Março de 1999, pelo XIII Governo Constitucional chefiado por António Guterres. Vem a propósito recordar que, desde então, a solução Ota nunca foi pacífica e, pessoalmente, acabei por me envolver numa análise desenvolvida por via de alguma reflexão racional, sem pretensões técnicas, abordando a questão em diversos meios e em órgãos de comunicação social, de que vale a pena repescar algumas das intervenções feitas, a partir de 2001, de que adiante se transcrevem alguns excertos.

No Diário de Notícias (Madeira) de 7.11.2001, ainda que superficialmente, já me referia à opção do governo de Guterres, como “a famigerada decisão, porventura prematura, de construção de um novo aeroporto internacional, na Ota, quando a solução que do ponto de vista dos custos financeiros e sobretudo sociais, seria na área do Campo de Tiro de Alcochete, com custos mínimos em expropriações, com acessos facilitados e, quiçá mais importante, evitando a deslocalização de pessoas, vilas e aldeias”; em 14.05.2002, no mesmo jornal, voltei a abordar o tema e também em 21.06.2003, quando começava a ser posta em dúvida o abandono precipitado da Portela, aspecto esse igualmente abordado no Diário de Notícias (Lisboa) de 7.08.2005, salientando a necessidade de se “ter a certeza da indispensabilidade do encerramento da Portela. Isso implica que seja feita uma análise criteriosa, tendo em conta a sua capacidade potencial…. Comprovada que seja uma tal fatalidade, só então haverá que fazer uma ponderação de todas as opções, incluindo Alcochete”; nessa mesma linha focava a importância de aprofundar a questão “ignorando tabus, resistindo aos ‘lobbies’, incluindo o militar – já ouvi dizer ‘com a tropa ninguém se mete…’ – mas cuidando acima de tudo do interesse nacional”; em 7.01.2006; no Expresso, sob o título “Fundamentalismos tolos”, tendo presente a necessidade de desmistificar todo o processo e de reabrir a discussão, perspectivando a realização de estudo sério que, além das razões que se não esgotavam a favor de Alcochete, se entendia dever ter em conta os custos sociais da referida deslocalização “pelo que de penoso representa”, nomeadamente, para as populações civis, como sucederia no caso da Ota, comparativamente a Alcochete, sem população fixa; na revista de turismo PUBLITURIS, de 27 do mesmo mês, após evocar “os erros e os males que se antecipam …. a fixação governamental de construir um novo aeroporto de Lisboa, na Ota …. e a avalanche de repercussões negativas que, em sentido figurado, lembra a Caixa de Pandora da mitologia grega que, sob aparente encanto, é fonte de calamidades”, salientei diversos aspectos negativos que, para além do turismo, afectariam seriamente também as regiões autónomas; a este mesmo respeito no Público de 5.04.2007, numa tentativa de, em relação à Ota e em termos muito simples, alertar para “o agravamento dos custos da insularidade” chamei a atenção para o facto de em “deslocações ao continente, em negócios, por razões de saúde ou outra, os açorianos e os madeirenses passariam a suportar maiores custos com o transporte ao centro da capital” para além das “consequências de com o aeroporto na Portela, Lisboa estar a 2 horas da Madeira e a 3 horas dos Açores” sucedendo que a transferência para a Ota “implica a Madeira ficar a 3 e os Açores a 4 horas, o que não acontecerá com a opção Alcochete”.

Não obstante o estudo da CIP ser, então, já do conhecimento público e poder antecipar-se o fim do “absurdo”, o Ministro das Obras Públicas e Transportes, em nome do governo, continuou, no seu jeito inimitável, na sua euforia, todo pró-Ota, como escrevi no semanário Tribuna da Madeira (17.08.2007): “As contradições, os dislates que se repetem, mesmo depois de ter sido decidido aprofundar os estudos que demonstram a existência de alternativas sólidas ao absurdo Ota e de comprovadamente ter ficado demonstrado o interesse nacional, mercê de análises técnico-económicas e sociais, depois mesmo de anunciada a “morte” da Ota, Mário Lino continua a bradar em francês ‘jamais… jamais’…”. Não muito tardou para que em 10 de Janeiro de 2008, a opção Alcochete fosse assumida pelo governo, tendo a esse mesmo propósito escrito no mesmo semanário, em 2 de Maio: “mercê sobretudo do empenhamento do Presidente da República, aconteceu então a cambalhota governamental, o grande recuo. E foi ver o titular das Obras Públicas, perfeitamente descredibilizado, a desdizer-se e a deixar de falar francês, pouco tendo faltado para, em português, se afirmar defensor de Alcochete, ‘sempre’….”

Assim sendo: Viva Alcochete!