AS QUESTÕES ÉTICAS NOS CUIDADOS DE SAÚDE (10)

AS QUESTÓES ÉTICAS NOS CUIDADOS DE SAÚDE (9)

Pensamos que o exemplo da linguagem e da comunicação é um bom exemplo de análise na reflexão sobre as sementes da dignidade do médico e da relação médico-doente. Tudo é explicável ao doente. Por exemplo, complicados conceitos actuais de estabilidade ou instabilidade, inflamação e rotura de uma placa ateromatosa, angina de peito estável ou instável, a complexa estrutura de uma cardiomiopatia hipertrófica, a dimensão e a projecção sistémica de uma hipertensão, são facilmente entendíveis por qualquer pessoa, se soubermos usar uma linguagem que se adapte à sua compreensão. O que acontece é que muitos de nós não sabem falar, não sabem escrever, não querem perder tempo, ou acham que o paciente não merece tal atenção. Isto é tão real que eu próprio recebo, por vezes, cartas de colegas que me enviam doentes ou me pedem opiniões, com uma composição literária que pouco ou nada difere das cartas de pessoas com a quarta classe. Não pensemos que este fenómeno é de somenos importância. A comunicação, a arte de se fazer ouvir e entender são fundamentais em tudo e indiscutivelmente fundamentais na nossa profissão e no elevado conceito da relação médico-doente. Aquando de um congresso na Corunha, foi-me oferecido um livro intitulado “El artículo científico en Biomedicina”, da autoria do Dr. Hernandez Vaquero, professor de traumatologia e ortopedia na Faculdade de Medicina de Oviedo, grande investigador, galardoado com vários prémios. Ao iniciar a leitura do livro, deparei com um capítulo que tratava de “La escritura del artículo científico” e de “Los errores e horrores del lenguage”. Aí ele diz que a linguagem é de fundamental importância, e que o conhecimento das suas regras é dever do médico e do investigador. Reconhecendo que a clareza deve tomar o lugar da retórica e do hermetismo, ele denuncia o pouco valor dado pelos autores e editores à escrita e à comunicação. Quem fala ou escreve mal não pode ter investigado bem. A exigência de qualidade não é uma questão parcelar. Que crédito se pode dar a um artigo que li há algum tempo, da autoria de uma pessoa com elevado grau académico, cheio de “calinadas” do princípio ao fim? Que confiança pode incutir uma revista médica cujos artigos se encontram cheios de erros? Que credibilidade científica pode transmitir um médico que faz uma comunicação ou uma palestra sem saber falar nem comunicar? Como pode um médico fazer-se acreditar perante um doente que todo se arrepia ao ouvir atropelos e dislates? A corrupção da língua e do pensamento, a negação intencional da expressão e do arranjo linguístico como factor importante da nossa própria estrutura, são parte integrante da mediocridade, fermento da confusão entre inteligência e indigência, humildade e petulância, formação e deformação, rigor e confusão, seriedade e manigância. (Continua).

                  (adão cruz)

(adão cruz)

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