Santarém, Capital do Gótico (V)

primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

As Invasões Bárbaras e a lenda de Santa Iria

No ano de 460, Scallabis é conquistada por Suenerico e passa a integrar o reino visigótico da Península Ibérica. Datam dessa época informações vagas e superficiais relativas a uma certa fidelidade que alguns, em Scallabis, tentaram manter em relação a Roma; e outros dados que nos dão conta de uma relativa independência que os poderes locais tentaram manter em relação aos bárbaros.
Santarém, nesta altura, seria constituída pela cidadela fortificada, pelo planalto, pelo bairro de Alfange e pelo de Seiserigo. A cidadela fortificada era o centro militar de Santarém, ponto de grande importância geo-estratégica em tempos que tinham voltado a ser conturbados e pouco pacíficos. O planalto era o centro urbano, com o antigo fórum, as praças e os novos templos cristãos. A zona ribeirinha, por seu lado, ganhava um novo impulso com a chegada de novos mercadores de origem síria-judaica.
Fora a partir do séc. III que o Império Romano começara a desmoronar-se, com a progressiva emancipação das suas províncias, que queriam a independência. Mas foi com as Invasões Bárbaras do séc. V que acabou definitivamente. Estas invasões tiveram várias causas: crescimento demográfico, busca de riquezas, modificações climáticas. No fundo, os Bárbaros viram-se obrigados a invadir Roma por uma questão de sobrevivência.
O êxito das Invasões Bárbaras alterou de forma significativa, pois, o mapa político da Europa do séc. V. Com os suevos e os visigodos, vão ser lançadas as bases de um mundo novo, o mundo medieval. Começa a desenhar-se uma nova organização social e política do território, e no domínio religioso, a ascensão do cristianismo como religião oficial, dominadora, monopolizadora das consciências.
A acção dos germânicos foi importantíssima para o futuro de Portugal. Pode dizer-se que começou aqui a nação portuguesa. Apesar de rudes e habituados à arte da guerra, depressa os suevos e os visigodos fizeram amizade entre a população local e rapidamente passaram a dedicar-se e a preocupar-se com o trabalho nos campos.
Importante o contributo suevo e visigótico, igualmente, a nível religioso, com a fundação das primitivas paróquias e o lançamento das bases da Igreja Católica medieval. Aliás, só depois da conversão dos suevos nos aparecem dados pormenorizados sobre a organização eclesiástica de Portugal.
E é aqui que podemos integrar a lenda de Santa Iria, que trouxe um importante contributo para a evangelização da Península Ibérica e que, através da evolução fonética, viria a dar o nome a Santarém. Uma lenda cujas informaçõres remontam à Idade Média e que está relacionada com a região onde o drama se desenvolveu e com o clima de cruzada que se viveu posteriormente.
Iria ou Irene era uma bela jovem, bonita virtuosa e rica, natural de Nabância, que alguns autores fizeram corresponder a Tomar durante muito tempo. Na realidade, ao contrário do que sempre se pensou desde o século XV, Nabância nunca existiu, pelo menos da forma que se pensava.
Iria morava com as tias maternas num convento de freiras junto ao rio Nabão. Numa ocasião festiva dedicada a S. Pedro, o filho do governador da cidade, Britaldo, apaixonou-se por ela e tudo fez para cativar o seu coração, mas Iria decidira dedicar a sua vida a Cristo.
Como não conseguiu os seus intentos, mandou matar a jovem rapariga. Assim aconteceu, no dia 20 de Outubro de 653, tendo sido o seu cadáver lançado ao rio Nabão, acabando por chegar a Santarém, onde foi construído um túmulo em sua homenagem. Foi canonizada pela Igreja Católica como Virgem Mártir. Por cima do pego em que deitaram o seu cadáver ao rio, guarda-se a sua imagem, num nicho da parede do convento do seu nome.
O corpo foi pelo rio Nabão fora, passou para o Tejo e acabou por chegar a Santarém. Apesar das tentativas, ninguém o conseguiu levar de novo para Tomar, nem mesmo o tio e orientador espiritual da futura santa, o abade Sélio.
Uma santa, Iria ou Irene, cuja devoção atravessou as civilizações hispano-romana e germânica. Os seus atributos são a palma do martírio na mão esquerda e o livro sagrado na direita.
A primeira prova documental da liturgia de Santa Iria em Santarém está presente no «Antifonário de Leão», obra de 1067 em que é referido o culto a «Sancta Erene virginis in Scallabi castro». Obviamente, o seu culto é muito anterior. A paróquia de Santa Iria já existia em 1162, sendo uma das três paróquias da cidade de Santarém. Quanto ao topónimo, Santa Iria ou Santa Erene derivou em Santa Herena e daí em Santarém.
O aumento da devoção e o cimentar da lenda está em grande parte relacionado com o conflito entre os Templários e o bispo de Lisboa. A mártir morreu em Tomar e, pelo rio, foi ter a Santarém. Como que a querer dizer que os Templários deviam estar sedeados nesta última cidade e não naquela.
De visita a Santarém, em 1324, a Rainha Santa Isabel, conseguiu descortinar, através de visões, o local exacto onde o corpo de Santa Iria teria vindo ter, desde o Nabão até ao Tejo, junto à cidade. Quando o rei D. Dinis, seu marido, soube do facto, decidiu assinalar o local da sepultura com um padrão. Em 1644, o Senado da Câmara colocou no topo uma escultura de pedra, em homenagem à santa. Devido à localização do padrão, no século XX foi instalado um hidrómetro que serve para assinalar os níveis das águas do rio.
A toponímia foi outro dos riquíssimos legados dos povos germânicos. Foram os suevos, e depois os visigodos, quem deixaram, muitos séculos antes, e mesmo com a intromissão sarracena, a certidão de baptismo de muitas das povoações portuguesas. Sobretudo no norte de Portugal, mas também no centro, como é o caso de Santarém. Excluídos os nomes geográficos, que tiveram a sua origem em montanhas, rios e vales, é no onomástico germânico que encontramos uma das mais ricas fontes sobre este período. A generalidade destes topónimos tem a sua origem em nomes de pessoas importantes daquele tempo. Muitos, não se sabe quem foram, talvez governantes locais ou alguém muito bem colocado na escala social.
A toponímia de origem germânica, para além do nome da cidade, do concelho e do distrito, está presente ainda em outros topónimos. É o caso de Seiserigo, nome que tem como origem um antroponímico e que é um bairro da Ribeira de Santarém. De origem germano-goda, terá sido fundada aqui uma basílica dedicada a Santa Iria em meados do século VII.

Comments

  1. dalby says:

    Eu já nem acho que seja somente um massacre….isto é já pior que os kmers vermelhos e a chacina!! Eu já nem passo mais por Santarém no resto da minha vida!

  2. LUIS MOREIRA says:

    O saber não ocupa lugar…

  3. dalby says:

    Pois é meu queridissimo Luis… saber saber …é decorar o poema dos «olhos negros» mouriscos!!!!Isso sim com isso arebata-se o mundo!

  4. Luis Moreira says:

    Podes crer, o pior é quando são verdes…musgo!

  5. Belina Moura says:

    Vocês dois controlem-se!

  6. dalby says:

    Dois aquarianos ficam sempre tão bem na fotografia!!..A Claudia Jacques não pode levar os louros todos filha!Aliás ela anda um pouco ralada pois neste verão o Faces Sllgarve barrou-lhe, por engano a porta!!! Accidents come and go!!jejejejejejej!!!!