Contos proibidos – Memórias de um PS desconhecido. «Bastava olhar para ele [Mário Soares] para ver que nada tinha que ver com o socialismo da classe operária»

(continuação daqui)

Desde o lançamento da ASP que os socialistas portugueses encontravam imensas dificuldades em ser reconhecidos em termos de igualdade pelos seus congéneres europeus e o acolhimento político e logístico aos dirigentes portugueses – com excepção da ocasional foto protocolar em reuniões internacionais – estava longe de ser solidário e, muito menos, caloroso. Enquanto exilado, o líder do movimento socialista português
nunca seria recebido oficialmente, nunca participaria em nenhuma conferência de imprensa conjunta, em nenhuma conferência de líderes ou reunião bilateral pública com nenhum dos dirigentes da Internacional Socialista. Não há registo de declarações conjuntas de Soares com nenhum dos «amigos» acima mencionados e não se conhece um único acto conjunto, nem sequer um simples almoço, que revele aquela intimidade.
À excepção de Mitterrand, jamais conseguiria encontrar nos escritos de Palme, Kreisky, Brandt ou Wilson, nem tão-pouco nas suas biografias, uma única referência ao líder português comprovativa daquela autoproclamada amizade. E estes são os exemplos da família socialista. Em contraste, por exemplo, Felipe González, apesar de pertencente a uma geração mais jovem, é frequentemente referenciado por todos eles. No seu livro de memórias, o ex-chanceler alemão e presidente da Internacional Socialista, Willy Brandt, diz mesmo que «com o jovem Felipe González [sentiu] uma forte ligação desde o princípio». A situação de desconsideração pelo nosso esforço, enquanto dirigentes políticos no exílio, era tal que Mário Soares chegaria a ter mesmo momentos de desespero com os seus «anfitriões» do Partido Socialista Francês que, apesar de estar na oposição e ser, na cena internacional, um partido relativamente insignificante, raramente o recebia e só em casos excepcionais se encontrava com o então secretário das relações internacionais, Robert Pontillon. E, apoio material, nem vê-lo! Por outro lado, como já se disse, para além da foto ou aperto de mão protocolares, os contactos do líder português faziam-se de uma posição humilde e algo humilhante com funcionários dos partidos da Internacional ou, como grande conquista, com os secretários das relações internacionais desses partidos. Estes exemplos de falta de solidariedade eram generalizados, mas para isso é evidente que contribuía o conhecimento dos partidos «estabelecidos» da exiguidade da nossa influência na sociedade portuguesa, que contrastava, no tamanho, com o radicalismo à francesa dos dirigentes da Acção Socialista.
Os socialistas europeus tinham a sensação de que o recém-nascido movimento socialista português era uma criação artificial pequeno-burguesa ou, como diria mais tarde o conhecido e radical ex-ministro britânico, Tony Benn, referindo-se ao líder do PS, «bastava olhar para ele para ver que nada tinha que ver com o socialismo da classe operária».
As dificuldades eram tais, que os poucos financiamentos teriam que ser
arrancados quase à força. Perante um pedido de ajuda para o núcleo da Acção Socialista que acabara de ser constituído em Londres, o primeiro núcleo devidamente organizado no exílio, o Partido Trabalhista respondia lamentar, mas não estar «em posição de poder contribuir para a manutenção duma sede. Contudo, se conseguirem obter um espaço talvez possamos contribuir com uma máquina de escrever, estantes, secretárias, etc., de que nós próprios já não necessitemos».
No mesmo ano, Bernt Carlsson, secretário internacional do partido irmão da Suécia escrevia a Mário Soares em Paris: «que a direcção [do PSD sueco] considerou o o seu pedido de ajuda financeira de 15 de Outubro, 1971. Foi decidido dar uma contribuição de 10000 coroas suecas»,tendo, após novo pedido de Mário Soares, no ano seguinte, o referido funcionário anunciado uma nova «contribuição de 10000 coroas suecas».
Mesmo assim esta fonte, que tendo em conta os valores cambiais da altura, e as contribuições dos outros partidos, era extremamente solidária, parece ter secado. Manuel Tito de Morais escrever-me-ia em Novembro de 1973, pedindo-me para «ir a Estocolmo falar ao Carlsson. Ficou de se encontrar [com ele] aqui em Roma mas não deu sinal de vida, depois de ter recusado a ajuda material que lhe pedíramos. Devias
vê-lo e falar também ao Schori, não para pedir nada mas para manter o contacto, falar nos nossos assuntos e veres se descobres a razão do afastamento que se verifica».
Estávamos assim bem longe do tempo em que bastava pegar no telefone e falar com o Brandt, o Palme ou o Kresiky. E, se as quantias que o PSD sueco enviava para Paris a Mário Soares eram generosas em relação ao tamanho da ASP e das nossas expectativas, elas eram, na realidade, insignificantes se comparadas com o financiamentosueco a outras organizações consideradas importantes. A título de comparação, bastaria dizer que na altura o apoio financeiro da Suécia à luta da FRELIMO era 7500 vezes superior ao enviado a Mário Soares, para Paris. Após divulgação pelo The Times de Londres, a 10 de Julho de 1973, do massacre de Wiriyamu relatado pelo padre católico Adrian Hastings, o ministro sueco dos Negócios Estrangeiros do governo de Olof Palme, Krister Wickman, anunciaria que o aumento da ajuda sueca à FRELIMO seria aumentado de 3 para 5 milhões de coroas. O malogrado ex-primeiro-ministro da Suécia tinha, aos 22 anos e enquanto secretário da União de Estudantes Suecos, promovido uma colecta a favor de bolsas de estudos para estudantes africanos. Um dos primeiros a serem beneficiados, já no ano de 1949, fora exactamente o fundador da FRELIMO, Eduardo Mondlane, de quem Palme viria a tomar-se grande amigo.

Comments


  1. frio…frio ..estás ainda…friooo


  2. […] (continuação daqui) […]