Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido. Soares e Cunhal no I Governo Provisório

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Valerá talvez a pena analisar aqui, tanto quanto é possível a mais de vinte anos de distância, se a ideia da inclusão do Dr. Álvaro Cunhal no I Governo Provisório parte realmente do general, como ele próprio admitiria em entrevista de fim de carreira (e já admirador do Dr. Mário Soares), em 1984, ao historiador e jornalista José Freire Antunes,ou se ela parte do primeiro encontro com Mário Soares. Ora, dados os sentimentos anticomunistas do general Spínola, dada a sua amplamente demonstrada ignorância
política e o facto de se saber que Mário Soares teria dito ao general que se Cunhal não entrasse ele também não entrava para o Governo, parece evidente que a decisão foi influenciada decisivamente pelos socialistas. Aliás, Soares diria a Dominique Pouchin de forma peremptória que Spínola não era então favorável «à presença dos comunistas no governo». Também me parece duvidoso, e nenhum registo existe que o confirme, que tenha sido o próprio secretário-geral do PCP a reivindicar tal lugar! O que implica que estando à partida excluída a hipótese de terem sido os comunistas a insistir na sua participação – e não devemos esquecer que o PCP em Abril de 1974 ficaria satisfeito com a sua mera legalização – estamos perante a probabilidade de ter sido o próprio Mário Soares, na sua primeira entrevista com Spínola, graças ao apoio de Raul Rego, quem lançou Cunhal para o I Governo, a fim de ele próprio se tomar indispensável na pasta dos Negócios Estrangeiros!
O ex-embaixador de Portugal em Washington, João Hall Themido, confirma que Mário Soares «não inspirava confiança» ao general Spínola, que terá simplesmente comentado que Soares não era «um génio» mas daria «um ministro aceitável». «Sá Carneiro estava no Governo, como ministro sem Pasta, para acompanhar de perto os problemas da política externa» necessitando o general apenas de alguém para abrir «as portas» do reconhecimento à Revolução, convencido das «ligações europeias do líder do PS». Do ponto de vista do Partido Socialista – tanto quanto me seria dado a conhecer posteriormente – não havia nenhuma vantagem em que a pasta dos Negócios Estrangeiros fosse ocupada por Mário Soares, havendo outros dirigentes, como por exemplo Ramos da Costa, que não tendo que se ocupar com a organização do Partido, era quem melhores relações internacionais detinha no PS de então, além de dominar razoavelmente o idioma inglês! Não seria essa, evidentemente, a opinião do próprio Mário Soares, que considerava que «ninguém mais do que [ele] tinha então a possibilidade de conquistar rapidamente a simpatia da Europa e do Mundo para uma
revolução tão repentina, que inquietava o estrangeiro». Contudo só Mário Soares teria essa opinião, com a falta de modéstia que todos lhe conhecem. O mundo inteiro recebera o anúncio do 25 deAbril com grande regozijo e quem dava garantias e tranquilizava os
governos aliados de Portugal na NATO era exactamente o general Spínola e não o socialista Mário Soares, co-signatário de um «inquietante» acordo de governo com o Partido Comunista. Teremos contudo que admitir que o 25 de Abril encontrara o País e os seus dirigentes (quer os cessantes, quer grande parte dos emergentes) num estado de grande provincianismo e isolamento internacional, o que explicaria a grande necessidade que Spínola sentia de ter alguém que lhe abrisse portas e alguém que controlasse as actividades do «porteiro»! O Partido Socialista achava o seu secretário-geral fundamental paraorganizar um partido que a 25 de Abril não existia «de facto»e que, como se veria alguns meses depois, ia sendo «entregue» ao PCP no seu I Congresso. Os socialistas, em 1974, não só não queriam que Soares fosse o ministro dos Negócios Estrangeiros do general Spínola como exigiam «que ficasse em Lisboa a fim de organizar o mais rapidamente possível as infraestruturas do Partido». Este, no entanto, não seguiria os conselhos dos amigos, admitindo mesmo que nenhuma atenção dava ao seu partido pois «as raras semanas que passava em Lisboa eram absorvidas por Conselhos de Ministros interrnináveis». Mas, mais uma vez demonstrando aquela vaidade que Tony
Benn diz ter encontrado no líder do PS, este explica o seu «sacrifício» pela Nação em detrimento do seu partido, perguntando-se «quem era suficientemente conhecido deWilly Brandt para lhe pedir uma audiência no próprio dia? Quem é quepodia organizar,
à pressa, um encontro com o Presidente Senghor, de passagem por Paris? Quem é quetinha a possibilidade de reunir em Helsínquia com um simples telefonema, os líderes da social-democracia escandinava? Quem é que Harold Wilson esperava para reconhecer, sem mais demora, o novoregime português?». Mas, acrescentaria, é evidente que o meu partido tirou proveito dessas viagens».
A necessidade de angariação de fundos para o PS, embora fundamental naquela fase,também não justificava quefosse o secretário-geral a ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros.
Francisco Ramos da Costa e Manuel Tito de Morais tinham sido no passado, e continuavam então a ser, não só angariadores de fundos como elementos bem creditados junto da Internacional Socialista, a quem tinham apresentado Mário Soares,anos antes. Por outro lado, para além da ridícula vaidade demonstrada, a sua autopromoção não passaria de uma operação de branqueamento que só o provincianismo reinante deixaria passar em claro.
De facto, Willy Brandt, que à semelhançade qualquer outro chefe de governo socialista receberia com o maior prazer qualquer enviado especial do novo regime português, estava demissionário após a prisão, a 24 de Abril de 1974,do seuconselheiro
Gunther Guillaume, acusado de ser espião do KGB. Seria já Helmut Schmidt, que Soares não conhecia, a reconhecer o novo regime português. Senghor, embora ainda não ligado à Internacional Socialista, ao que parece receberia com igual prazer qualquer enviado do general Spínola. E só por grande pretensão se poderia imaginar que o telefonema do MNE português levaria os líderes da social-democracia escandinava a reunir em Helsínquia para um encontro com ele. Acontece que quando Mário Soares pediu para ser recebido pelo então primeiro-ministro sueco, Olof Palme, lhe foi dito que seria melhor deslocar-se a Helsínquia, onde os quatro primeiros-ministros dos países nórdicos estavam reunidos numa das habituais reuniões do Conselho Nórdico.
Eram eles o sueco Olof Palme, o dinamarquês Anker Joergensen, o norueguês Trygve Brattelli e o anfitrião, Kalevi Sorsa. Todos sociais-democratas ansiosos por ter notícias do que se passava em Lisboa. Toma-se mais credível que ao insistir junto de Spínola na inevitabilidade da presença do Dr. Cunhal no Governo se estivesse ele próprio a tomar inevitável como sendo, na altura, o socialista e, provavelmente, o português mais bem credenciado para ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros, de que necessitava para se autopropulsionar internacionalmente.
Político comprovadamente astuto, sabia que em Portugal os próximos anos passariam pela vertente internacional e que o seu futuro político teria que passar pelas Necessidades. Também sabia que no Partido Socialista não existia na altura «um centavo» e que o controlo dos financiamentos representaria igualmente o controlo do partido.

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  1. […] escrito um livro sobre tudo isto, o famosíssimo Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido (que o Aventar está neste momento a republicar). O Livro tem uma característica: desmistifica o presente e o passado supostamente heróico de […]