MAIS UMA VEZ, A VISITA DO PAPA

Li algures que a vinda de Bento 16 a Fátima é uma boa notícia para os católicos e para os portugueses em geral. E, pelos vistos, para a Presidência da Republica, a qual embandeirou em arco a ponto de provocar risinhos de “reprovação”cardinalícia. Uma espécie de riso maroto de namorada embevecida. Dados os caminhos que leva, qualquer dia temos a Presidência da República a ir em peso a Fátima a pé. A quinta aterragem de um papa nesta santa pista que é Portugal é razão mais que nacional, internacional e universal!
Bento 16 foi o responsável, ainda como prefeito da congregação para a doutrina da fé, pelo fenomenal comentário teológico-científico da terceira parte do “segredo de Fátima”, do qual se inferia, após profundo estudo genético-sequencial e de filosofia balística que uma “mão maternal”desviaria a trajectória da bala que poderia matar João Paulo II. Colocadas imensas hipóteses interpretativas, restaram duas como mais viáveis, em termos de alternativa, na cabeça da virgem: Por que não encravar a pistola? Por que não fazer desmaiar o assassino? Ficou sem se compreender como foi escolhida aquela cujo risco a correr era o maior: actuar no último segundo! Mas enfim! Com tantas coisas mirabolantes acerca de aparições e revelações particulares e secretas, só faltava mais esta. Haverá, porventura, quem se consiga manter sério, sem rir, perante tal “revelação”- provocação? Os próprios monsenhores, donos e banqueiros do Vaticano, embarcarão em tal patranha, ou trata-se de uma beata anedota correndo nas suas conversas de claustro? Não posso acreditar que acreditem. Era como se me obrigassem a virar o cérebro do avesso.
Não sei se hei-de rir se hei-de chorar. Por um lado, ridicularizar e satirizar a mente humana a este ponto não me dá vontade de rir. A mente, a seiva do órgão mais nobre do ser humano, não pode ser ridicularizada e espezinhada desta forma! Perdido o respeito pela mente e pela razão, está tudo perdido. Por outro lado, dá-me vontade de chorar o facto de eu poder estar incluído nos “portugueses em geral”. E é que não me safo de maneira nenhuma. Eu sou, com efeito, um português em geral, embora em nada me interesse a Igreja católica em si mesma nem todas as palhaçadas com que se paramenta. Arranjem-me, pelo menos, a designação de um português em particular, uma excepção, o que quiserem que me liberte da generalização, mas não me enfiem no mesmo saco, não me ofendam, por favor!.
Não tenho rigorosamente nada a ver com a igreja nem com qualquer das suas irracionais e anedóticas imposições, mas como cidadão, não posso ficar ao lado dos fenómenos que afectam, positiva ou negativamente, a sociedade e a humanidade. Desde há muitos anos que me arrepia o paganismo, mas o paganismo que se fabricou na monumental trapaça de Fátima, em plena era da ciência da evidência é um escândalo e uma ofensa. A colossal impostura que se ergueu no nosso país, deixa-me acabrunhado sob o peso de tais escombros. Respeito tanto os ignorantes como os sábios, tanto os crentes como os descrentes, os cultos e os incultos, mas não tenho o mínimo respeito nem contemplação pela ignorância, pela incultura e pelo paganismo. Não sinto qualquer respeito pelo trabalho de quem quer que seja que se dedique, de uma maneira ou de outra, a cultivar a ignorância, a escamotear a verdade e a anular a razão. O maior crime que se pode cometer contra o Homem não é matá-lo mas tapar-lhe os olhos. Ao matar o Homem não se mata a ideia. Ao tapar-lhe os olhos mata-se o Homem e a ideia.

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