Rescaldo

Como sempre acontece nestas coisas da política, todos ganham. É sempre assim. Por isso mesmo, decidi assistir, sem som, ao espectáculo circense das televisões à volta das eleições legislativas. Um pouco à moda antiga, quando nas tascas se via um derby de futebol com o som desligado mas com a rádio aos berros para ser mais emotivo. Como não tenho rádio, assisti a tudo em silêncio. Curiosamente, não ouvindo nada do que os políticos têm para dizer (na realidade nunca dizem nada de novo), consegui “ver” mais do que o normal. Vi rostos fechados, olhares suspeitos e cautelosos, vi tiques e preocupações escondidas e vi pequenos indícios e sinais despercebidos que nunca teria reparado se o som estivesse ligado e estivesse distraído pelos normais gritos de vitória. E consegui ver algumas situações preocupantes. O que eu vi ontem, e em destaque, foi um José Sócrates bastante aborrecido (estava na cara) por “uma extraordinária vitória do PS”. Não era cansaço. Eu vi, era mesmo aborrecimento. O mesmo tipo de aborrecimento quando não se arruma logo o adversário numa partida de xadrez e apesar de ter o jogo ganho, ainda tem de se esperar novo movimento do adversário para definitivamente terminar o jogo. Neste enorme jogo de tabuleiro administrativo a que chama de política, as jogadas podem demorar bastante tempo a serem efectuadas e para quem está (mal) habituado a que tudo seja feito no instante, é um enorme aborrecimento ter de esperar.

Considerações e possíveis consequências.

O mais preocupante de tudo isto é mesmo aquela cara chateada com que Sócrates presenteou o País, apesar da tal “extraordinária vitória”. É um sinal óbvio de quem está a pensar que terá que passar por esta coisa chata das campanhas eleitorais para novas legislativas e provavelmente muito em breve. Mas também sinal da confiança numa nova maioria absoluta. Claramente, nasce aqui uma hegemonia do PS na política nacional. Se isso não era bem notório até hoje, por força do contrapeso PSD, é agora bem visível que se tornou em definitivo como o “partido português” por muitos e bons anos. Aliás, isso nota-se bem, por um lado, na aproximação fanática dos seus apoiantes ao partido e ao líder, como se nota, por outro, no aguerrido e ainda mais fanático ódio por parte dos opositores. Perante esta derrota (teve menos votos), o PS veio clamar uma “extraordinária vitória”. Perante esta derrota (menos pessoas estão de acordo com a forma de governar), o PS veio alertar que as políticas e a forma de fazer política será a mesma. Perante esta derrota (mais pessoas votaram noutros partidos), o PS veio lembrar que a governação futura depende da “oposição responsável”. Eu tiro as minhas ilações: contrariamente ao que se tem dito, o PS continua com as todas cartas e trunfos na mão, e ainda por cima, tem a chave da próxima (breve) maioria absoluta. “Não nos deixam governar” “O País precisa de estabilidade”. Não tenho dúvida nenhuma que estes serão os motes seguintes para pedir uma nova maioria absoluta e não é nada difícil de a conseguir. Notou-se que isso até seria possível já nestas eleições, houvesse um pouco mais de tempo de campanha. Alguns analistas e políticos apontam para que o governo não se aguente muito tempo e, digo eu, não se irá aguentar mesmo, pela simples razão que este cenário político não interessa a ninguém. Ninguém, leiam-se corporações e agentes económicos que querem continuar os seus negócios e não podem, nem gostam de negociar ou ficar à espera de decisões políticas ou ideológicas que podem importar às pessoas na generalidade, mas não importam rigorosamente nada a quem quer continuar a fazer obra e dinheiro… Como representante corporativo na política, ao PS é facílimo abrir um conflito político e “obrigar” os outros partidos a provocarem a queda do governo. Por alguma razão, as “tais” questões fracturantes foram completamente esquecidas da campanha. Serão as próximas armas de arremesso. Quanto mais não fosse, existe ainda o TGV para servir de alavanca e desestabilizar tudo sempre que for necessário. As medidas não-populares de aumentar impostos para combater (novamente) o défice, também estão neste lote. O argumento continuará a ser o mesmo. “Tudo isto é absolutamente necessário para a modernização do País e para o relançamento da Economia“. Já funcionou uma vez, porque não há-de funcionar novamente?. É apenas uma questão de escolher o melhor timing. A meu ver, José Sócrates e o PS têm todo o controlo político na mão e não fará qualquer aliança com mais nenhum partido. Principalmente porque não precisam, e mais importante que todos os argumentos, não querem. Já deu para perceber que “este” PS só funciona numa governação “orgulhosamente só”. E tem todos os factores a seu favor. Ninguém na oposição poderá ir contra as políticas do PS, porque serão sempre vistos (e apontados) como uma força desestabilizadora. Esta lógica já funcionou nesta campanha com o constante recurso ao “optimismo” em contraste à crítica do “rasgar, inverter e anular” do PSD. Existirá melhor argumento para usar nas futuras eleições? Terão os outros partidos algum argumento político novo contra o PS?

A contrastar com a hegemonia do PS, não será de ignorar a morte do PSD. Para todos aqueles que apelam constantemente ao fim da dualidade política e do “centrão”, este pode ser o pior cenário de todos. Um partido como o PSD, que em termos ideológicos já nada tem para oferecer num mundo dominado pelo corporativismo, morre lentamente. A liderança não existe. A continuidade é uma incógnita e só mesmo o futuro dirá se aparece um líder à altura para refazer todo o mal que tem sido feito. É ainda o reflexo de um “enorme” Cavaco que secou tudo à sua volta. Pode até ser o prenúncio do futuro do PS, mas neste momento é a realidade do PSD. O pior que podia ter acontecido ao PSD foi mesmo a re-eleição de Durão Barroso. Foi o adeus definitivo à política portuguesa e com ele um fechar de ciclo de líderes laranja que dificilmente aparecerá novamente. Aliás, a grande esperança (mais ou menos consensual) do PSD é Paulo Rangel. Está tudo dito. Com a saída pela porta pequena de Cavaco, já nem há notáveis visíveis, e o mais visível de todos, Alberto João, causa mais danos que outra coisa e as suas atitudes maníacas promovidas pelo irreal círculo fechado onde habita, falam por si só, e é obviamente uma carta fora do baralho. Não sei se a intenção de Cavaco (se é que a intenção foi dele) com esta questão das “escutas programadas” teve como propósito enfraquecer o PS ou o próprio PSD. Só o próprio Cavaco (se algum dia vier mesmo a  falar) pode esclarecer se queria minar a confiança pública no PS ou destruir o PSD para o aparecimento de um novo partido ajustado à realidade do século XXI, pois este PSD, como partido, definitivamente já não existe. A realidade é que Cavaco interveio e foi um acto de enorme e negativo significado para o partido laranja. Apenas o tempo lhe dará razão. Ou não. Neste momento, o PSD irá assistir novamente a uma tentativa de liderança que não reunirá, de certeza, consenso. O PSD é agora um animal ferido, raivoso com várias cabeças a atacarem-se mutuamente para controlarem o corpo esquelético dum outrora grande partido. Calha bem o próximo sufrágio, em que muitos, motivados pela antipatia ao PS virar-se-ão novamente para o PSD. A velha lógica do “centrão” ainda a funcionar. Mas conviria reflectir que uma eventual vitória (digo eu) será por demérito dos outros e não por méritos próprios, como aconteceu nas Europeias. No futuro imediato, o PSD irá definhar ainda mais, e por mais irónico que possa parecer irá depender do PS a sua continuidade como partido de equilíbrio do poder. Com esta forma de actuação do PS, o mais provável é que esmague ainda mais a já débil saúde do PSD.
N

Comments

  1. Belina Moura says:

    E em quem votariam esses 40%?… Já pensamos nisso?

  2. isac says:

    a minha dúvida é exactamente a mesma.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.