A máquina do tempo: o caminho faz-se caminhando

Muita gente que cita este verso «O caminho faz-se caminhando», ou na sua versão original «se hace camino al andar», não sabe que o seu autor foi um grande poeta castelhano – Antonio Machado. Trata-se de uma estrofe, a XXIX de «Proverbios y cantares» do seu livro «Campos de Castilla» cuja primeira edição data de 1910. Apesar de termos escutado estes versos integrados num trabalho do cantor e poeta catalão Joan Manuel Serrat, vejamos agora o poema sem adornos:

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

De notar, além da beleza do poema, o emprego do substantivo «mar» no feminino, sabendo-se que embora tendo os dois géneros em castelhano, é mais usual o emprego do masculino, «el mar». «La mar», feminino, é coisa de poetas, marinheiros e pescadores, de homens que amam o mar como se ama uma mulher. Há um poema de Federico García Lorca, muito famoso, o «Romance sonámbulo» (do «Romancero gitano») no qual «mar» passa também ao feminino.:

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Etc.

Quem tenha lido algumas das minhas crónicas anteriores, poderá pensar que sofro de uma doença julgada extinta, o «ódio ao castelhano» (odio al castellano), enfermidade também conhecida como «a síndrome de Aljubarrota» . Nada disso. Adoro a Castela, sempre disse que os castelhanos são das pessoas mais simpáticas e afáveis da Península, sem o calculismo mercantil que inquina as mentalidades catalãs, o revestimento bisonho e fatalista das atitudes portuguesas, ou a prudência que faz que se encontramos um galego numa escada não consigamos saber se vem a descer ou se vai a subir. Aos bascos não consigo atribuir qualquer dos apêndices idiossincráticos, meros chavões, chistes sem qualquer valor antropológico (e, diga-se a verdade, todos eles criados pelos simpáticos castelhanos, que chamam a uma fanfarronada «una portuguesada» – pagando-lhes nós com a «espanholada» com o mesmo significado de bravata). Gosto muito deles, mas não quereria tê-los como opressores ou invasores. Como irmãos e amigos, «tudo bem» no brasileiro dizer. Como donos, nem pensar.

Uma das coisas de que gosto em Castela é do seu idioma, da sua cultura, da sua literatura, sobretudo da sua poesia. E a de Antonio Machado é uma das âncoras que me prende ao castelhano e ao prazer de o escutar. Trabalhando mais de 20 anos numa empresa que, não sendo castelhana, usava o castelhano como língua de trabalho, fui forçado a aperfeiçoar os estudos escolares que já tinha feito do idioma e, sobretudo se me ativer ao léxico profissional, falo-o com desembaraço, principalmente se estiver a tratar de assuntos da minha área. Mas evito falá-lo porque sei bem o espectáculo que grande maioria dos meus compatriotas dá a seguir a ter afirmado que «habla español» – ridículas línguas de trapos, competindo com os palhaços, cuja trapalhice é profissional e fingida. Para falar castelhano, sobretudo para nós que temos uma língua muito semelhante, é preciso estudá-lo a fundo, porque aquilo que em linguística se chama «os falsos amigos», palavras iguais com significados diferentes, são mais do que muitos entre o português e o castelhano.

Um dia destes hei-de ganhar coragem para falar de outro grande poeta, um dos maiores, o andaluz Federico García Lorca. Nesta máquina iremos, em 12 de Outubro, visitar o austero don Miguel de Unamuno, um basco de cultura castelhana, e estou, como podem ver, a tentar aterrar junto de Machado, outro andaluz. Mas o universo da literatura castelhana é inesgotável, porque se conseguíssemos referir todos os grandes escritores peninsulares que usam o idioma (e seria tarefa enciclopédica), teríamos depois de olhar a Ocidente, respirar fundo o ar do Atlântico, e recomeçar desde Juana Inés de la Cruz ( a que aconselhava: «não vos queixeis, homens tolos…») até Carlos Fuentes, García Márquez, Vargas Llosa, Isabel Allende… O universo do português é também rico, é um caudal que não nos envergonha face ao dos nossos vizinhos. Vamos lá fazer-nos à pista.

Antonio Machado nasceu em Sevilha em 1875. Foi uma das grandes figuras da chamada «Geração de 98», referindo-se este número á data de 1898, quando a Espanha foi derrotada na guerra que manteve com os Estados Unidos pela posse de Porto Rico, Cuba e Filipinas. A derrota significou uma tomada de consciência de jovens intelectuais da decadência do país e foi como que um ponto de viragem, caracterizando-se a escrita desses jovens pelo seu carácter revolucionário, em termos literários e em termos políticos. Foi rodeada de polémica, pois havia intelectuais, como Pío Baroja, que negavam lógica à designação. Esta classificação geracional refere-se a escritores que nasceram entre 1864 e 1875 – Miguel de Unamuno, Valle-Inclán, Blasco-Ibañez, Jacinto Benavente e Antonio Machado, são das principais figuras ligadas a esta geração.

Morreu em 1939, refugiado num quarto de hotel, fugindo dos assassinos da polícia política franquista, ele que era tudo menos um político. Sabendo que a morte se aproximava, escreveu num papel as suas últimas palavras – «Estos días azules y este sol de infancia», sinal de que antes morrer viajou até ao passado. Um grande poeta – se hace camino al andar – que grande verdade contem este verso que quase se transformou em lugar-comum.

Comments

  1. carla romualdo says:

    Interessantíssimo, como sempre. Partilho o seu gosto por Castela e pelos castelhanos, ao ponto de ter casado com um, veja lá onde estas coisas podem chegar…


  2. São talvez o povo mais simpático da Península. E a hegemonização que têm perseguido ao longo dos séculos nem sempre foi encabeçado por castelhanos. Veja-se o caso de Franco. É preciso estarmos atentos à ideia que eles têm de que estão no centro do Mundo (não a estou a aconselhar a tirar ilações familiares, diga-se desde já). Um abraço.

  3. Luis Moreira says:

    “La mer” do Debussy.Quanto ao espanhol deixei de o “falar”, quando só ao fim de um dia de trabalho me apercebi que o gajo que me acompanhava do governo, era de Madrid e não de Barcelona.Ora ,eu já tinha dito mil vezes que o Barcelona jogava muito melhor que o Real. grande bronca!

  4. Luis Moreira says:

    E um dia paguei um jantar de arromba ao nosso comum amigo Luis Rocha, para ele me acompanhar em reunião de trabalho com espanhóis,convicto que ele falava bem, e ele andou a noite toda a dizer ” és precioso…”


  5. O nosso querido amigo Luís Rocha dava um excelente professor de portunhol – fala-o com desembaraço, descontracção, sem quaisquer hesitações. Em todo o caso, faz-se compreender muito bem.

  6. Milton Maia Filho says:

    Muito bom. Parabéns!

  7. João Braga says:

    Peço desculpa, mas Antonio Machado foi um poeta andaluz. De Sevilha.

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