A máquina do tempo: ir «pró maneta»

Hoje vamos fazer uma rápida viagem de dois séculos para trás. Estamos em Lisboa no ano de 1808.
Há uma expressão que, nascida em Lisboa, encontro espalhada por todo o País –« ir para o maneta» ou, como as pessoas dizem: «ir pró maneta». Penso que a maioria dos amigos conhece a história desta expressão, pois já muitos a explicaram. Contudo, como ligo sempre muita importância às minorias, vou contá-la rapidamente. Quando da primeira Invasão francesa, entre Agosto e Setembro de 1808, houve portugueses que julgando as tropas napoleónicas portadoras dos valores da Revolução Francesa, as viam, não como invasoras, mas como libertadoras do estado de atraso em que Portugal se encontrava. Depressa se desiludiram, pois os franceses deixaram por onde iam passando um rasto de destruição, incêndios, violações, assassínio indiscriminado de civis, pilhagens…

Louis Henri Loison, general de Junot, e, mais tarde, de Soult, distinguiu-se pela ferocidade com que ordenava prisões, fuzilamentos e atrocidades. Anos antes, na campanha da Suíça perdera um braço. Montando Junot o seu estado-maior em Lisboa, onde as tropas francesas estavam confinadas após as pesadas derrotas ante as forças anglo-lusas, nomeadamente a do Vimeiro, perto de Torres Vedras, Loison, enraivecido porque as coisas estavam a correr mal, perseguia, prendia, torturava e fuzilava todos os que eram suspeitos de conspirar contra a presença francesa.

Os lisboetas, que depressa o temeram e odiaram chamavam-lhe, com ironia maldosa, o «maneta». Quando Loison prendia e executava alguém, dizia-se, «olha fulano foi pró maneta». E tornou-se frequente o aviso – «Tem cautela, se não vais pró maneta!». «ir para o maneta», perdurou após os franceses retirarem de Lisboa, em 15 de Setembro, retirada negociada em Sintra. Perdurou como sinónimo chocarreiro de morte ou de fatalidade iminente. Ir pró maneta, é coisa da qual ninguém tem pressa.

Eis alguns poemas de poetas populares e anónimos que circulavam de mão em mão sobre o general Loison e sobre o seu comandante, Junot (Jinot, como se dizia):

Entre os títeres generais
entrou um génio altivo
que ou era o Diabo vivo
ou tinha os mesmos sinais…

Aos alheios cabedais
lançava-se como seta,
namorava branca ou preta,
toda a idade lhe convinha.
Consigo três Emes tinha:
Manhoso, Mau e Maneta.

Que generais é que devem
morrer ao som da trombeta?
Os três meninos da ordem:
Jinot, Laborde e Maneta.

O Jinot mai-lo Maneta
julgam Portugal já seu:
É do demo que os carregue
e também a quem lho deu.

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