O jornalista, o livro e a exoneração

Casimiro Simões era chefe da Delegação Centro da Lusa e escreveu um livro, em vias de ser publicado: Com as botas do meu pai – pegadas do poder autárquico na vila de Vale Tudo”, uma sátira ao exercício do Poder Local em Portugal.

Já não é. Depois de ter sido obrigado a mudar de tipografia para concluir a impressão do livro,  foi ontem exonerado, com efeitos retroactivos.

Na contracapa, é feita alusão a “aventuras do autarca Fanfarrão”, aspirante a deputado da Nação, “e do vereador Franganito”, cujo sonho consiste em “suceder ao pai” na presidência da fictícia Câmara de Vale Tudo.
Segundo o autor, a caricatura a determinado modo de exercer o Poder Local incide sobre um estilo de gestão autárquica “infelizmente generalizado de Norte a Sul de Portugal”.
“Há um comportamento antidemocrático em muitos governos locais, assente na incultura grotesca dos eleitos, no abuso, na irresponsabilidade e, até, na ilegalidade, o que traduz uma realidade política, social e cultural preocupante”, alega.

Sou amigo do Casimiro vai para 30 anos, e deixo-lhe aqui o meu abraço, e a apresentação do livro, roubada ao O Sexo e a Cidade. Verdade se diga que estranhei quando foi nomeado para o cargo de onde agora é corrido. É que conheço a sua competência, mas também sei da sua honestidade e intervenção cívica. E isso, onde se pede a audição submissa da voz do dono, costuma ter um preço a pagar.

“Meti na cabeça que deveria escrever um livro, uma sátira social,  cantiga assumida de escárnio e mal dizer sobre o exercício do poder  autárquico em Portugal, a publicar quando a República se aproxima da  respeitável idade de um século.
Numas férias, na Páscoa de 2007, comecei o trabalho, recorrendo, desde  logo, aos conhecimentos que adquiri nestas décadas enquanto cidadão e  jornalista.
A correria da profissão e tantas outras tarefas quotidianas, que  inevitavelmente reduzem a disponibilidade para reflectir, prejudicaram  o meu ímpeto inicial para tal ousadia criativa, que partilhei com a  família e os amigos mais chegados.
Com tanto entusiasmo, num ou dois dias, escrevi uns bons milhares de  caracteres.
Retomada pouco depois a rotina do trabalho, a primeira  parte do livro (que, curiosamente, acabou por passar quase para o fim,  à medida que o projecto veio a ganhar espessura) ficou guardada muito  tempo num computador.
Em Agosto último, no dia 23, o texto pouco tinha crescido em dois anos  e meio, apenas uns poucos parágrafos mais. Estava na praia da Foz do  Arelho e fui assaltado por uma enorme vontade de acabar, como alguém  que me batia no ombro em sinal de incentivo.
Eu, que cresci a admirar a Serra da Lousã, sentindo-me uma parcela  inamovível, embora ínfima, das suas fragas e pessoas que lá nasceram,  da sua cultura e da sua gastronomia, tenho que agradecer à terra onde  Francisco de Almeida Grandella deixou memória incontornável.
Em boa parte, antes de mais, devo a energia que permitiu concluir este  livro àquele mar do Oeste e à paisagem única da lagoa do Arelho, que  me retemperaram o corpo e a alma.
Mas foi a família, sem dúvida, quem  mais alento me deu.
Desde que a ideia me ocorreu, há mais de dois anos, já tinha escolhido  o título com que a obra agora chega aos leitores: “Com as botas do meu  pai – Pegadas do poder autárquico na vila de Vale Tudo”. E foi em  torno deste tema que construí uma história, um livro com várias  histórias dentro.
Um projecto a que se juntou na recta final, com grande arte e  inexcedível dedicação, o gráfico Carlos Alvarinhas, autor da capa e  das ilustrações.A sátira a um certo modo de exercer o poder local (não às boas obras  feitas ou projectadas, muito menos a qualquer protagonista em  concreto) foi o meu ponto de partida e de chegada.
Mas o enredo também se construiu a si mesmo, sem eu dar por isso, e  foram emergindo antigas palavras e expressões da minha infância,  locais, diálogos e emoções inesperados, em risco de extinção,  personagens que me olhavam de frente, desafiando-me.
Uma experiência nunca antes atingida por quem, há quase trinta anos,  escreve sobretudo notícias, reportagens e, uma vez por outra, crónicas  e textos de opinião, além de cartas de amor e de amigo, com mais ou  menos atrevimento poético, e uma meia dúzia de letras para canções do  grupo Novárvore, que fundei nos anos 70, com o músico Ramiro Simões e  outros amigos da Lousã.
A prosa levou-me, pois, por atalhos que não estavam previstos, águas  nunca antes navegadas, nem sequer no imaginário rio Tudinho, que banha  o município de Vale Tudo desde o nascer dos tempos.
A caricatura que quis traçar de um certo estilo de poder autárquico,  infelizmente generalizado de Norte a Sul do país, e nem sempre apenas  nos meios rurais, reflecte a minha apreensão cívica face às perversões  do sistema democrático, tão flagrantes trinta e anos após o 25 de Abril.
Temos um comportamento antidemocrático em muitos governos locais,  assente na incultura grotesca dos eleitos, no abuso, na  irresponsabilidade e, até, na ilegalidade, o que traduz uma realidade  política, social e cultural preocupante, desde logo no patamar que  deveria ser de maior proximidade aos cidadãos.
Entendi, eu que sou jornalista e já fui, ainda jovem, autarca na  freguesia da Lousã, por três anos, que a crítica necessária, sempre  urgente em democracia, pode ser também veiculada através de uma  literatura caricatural, “dizendo verdades a rir aos que nos mentem a  sério”, como preferia o poeta popular António Aleixo.
No livro, não deixo, no entanto, de fazer algumas incursões breves,  mas emotivas, por experiências e factos que de alguma forma, directa  ou indirectamente, marcaram o meu trajecto de vida, como um episódio  na República dos Kágados, em Coimbra, onde vivi como estudante na  década de 80 do século XX.
Ao atingir eu a idade de meio século, assinalo esta mudança simbólica  de estatuto escrevendo o meu primeiro livro. Em ano de eleições  autárquicas, além das europeias e legislativas, faz todo o sentido  reflectirmos sobre o estado da democracia em Portugal, a começar pela  forma como ela acontece nas câmaras e juntas.
Aos partidos, seus dirigentes e autarcas, cabe um papel importante no  seu aprofundamento, mas o alheamento dos cidadãos da vida colectiva, o  medo e a falta de coragem, que dominam hoje vastos sectores da  sociedade, agravam o actual estado de coisas.
Aos jornalistas, assim eles e suas empresas o queiram, como é seu  dever, cabe também um significativo naco de responsabilidade na  construção de uma democracia moderna, participativa e com mais  qualidade.
Neste livro, usando a liberdade que Abril nos trouxe, não posso deixar  de evocar os milhares de portugueses que, desde 1976, foram vítimas de  alguns dos titulares do poder local, vendo espezinhados os seus  direitos fundamentais.
Um poder democrático na forma e na origem, mas muitas vezes de  materialização sinuosa, discriminando muitos e privilegiando alguns,  escondendo nos gabinetes deci
s

Comments

  1. maria monteiro says:

    quando acontecem situações destas pensamos que se paga sempre um preço muito alto mas … mais alto seria se nos perdêssemos de nós próprios, dos nossos princípios, se deixássemos de ser que somos… O livro está disponível aqui por Lisboa?


  2. Duvido. É uma edição de autor. Tenho de ir à procura de um exemplar.

  3. Luis Moreira says:

    A anestesia continua…


  4. Hummm, já li o livrinho (não me perguntem como) e acho estranha esta associação directa e inequívoca entre a obra e a exoneração. Não me parece que o livro seja assim tão “explosivo”. Até se me afigura um livro divertido, retrata uma certa forma de estar na política sobretudo no interior, mas bastante inóquo, digamos assim. Tudo isto me parece um pouco estranho, sim, mas concluir imediatamente que uma coisa está associada a outra ainda me parece mais…


  5. A associação de ideias não é minha, que só devo ler o livro depois de 31 de Outubro quando for lançado, mas do jornal que cito. Eu diria que não é uma causa-efeito, mas mais uma causa para o mesmo efeito. Antes de o ler, e pelo resumo, não deixo de reparar numa outra coincidência muito lousanense entre realidade e ficção…


  6. Até pode ser que sim e me esteja a escapar essa coincidência específica que refere. Também tenho estima pessoal pelo autor e talvez o adjectivo inóquo tenha sido aqui mal utilizado, por injusto. Não deixa de ser uma visão cáustica da tal forma de estar na política, sobretudo em freguesias rurais. O caciquismo, a mediocridade, a corrupção, etc., são temas abordados no livro com bastante mordacidade e sem papas na língua. Mas muito no abstracto e no plano do anedótico, salvo seja. O próprio autor realça não se ter baseado em qualquer personagem concreta. Até admito que possa ter sido, como diz, mais uma causa para o efeito, mas objectivamente, nós que olhamos para tuido isto de fora e com os dados até agora publicamente avançados, não temos razões para partir do princípio que a exoneração se tenha devido à publicação (em edição limitada de autor) do livro. Porque o facto é que a notícia que o João Cardoso refere, também não justifica essa ligação: apresenta-a como um dado adquirido, sem mais. Seja como for, sim, recomendo o livrinho do Casimiro. E acharia extremamente lamentável, por maioria de razão por ser uma empresa pública, que o despedimento esteja relacionado com esta primeira incursão do jornalista lousanense pelos caminhos da ficção. Que é essencialmente do que se trata.


  7. Devo acrescentar que o termo “livrinho” não tem nada de pejorativo. No dia 31 perceberá porquê.

Deixar uma resposta