A máquina do tempo: uma deusa em Alfama

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Diz Mário Cesariny de Vasconcelos, entrevistado por Carlos Câmara Leme para o jornal Público, em 16 de Março de 2003: «A primeira vez que vi a Natália Correia foi no São Carlos. Eu estava na galeria ela no segundo balcão. Quando? Ui! Aí pelos anos 1950. Apesar de já não ter muito afecto a senhoras, ia caindo para o lado do espectáculo de beleza que ela apresentava. Era quase extra-humana, era muito mais linda que a mais bela estátua feminina do Miguel Ângelo. Era uma coisa impressionante. Mas era também uma mulher de um desdém muito grande. Cheguei a julgá-la assexuada ou frígida mas parece que não era bem isso…». Isto, atenção, foi o Cesariny quem disse ( e quando Cesariny diz «parece que não era bem isso», está a referir-se a uma característica da Natália que o Luiz Pacheco contou á saciedade – segundo ele, a Natália, ao contrário do Mário, tinha bastante afecto a senhoras).

Agora a minha história.

Andava eu por Alfama numa véspera de Santo António. Foi, salvo erro em 1958. Estava acompanhado por gente que depois se tornou conhecida, mas dizer os nomes desses amigos famosos nada adiantaria à história. Subitamente, num daqueles pequenos largos onde afluem estreitas ruas medievais, surgiu uma deusa. Como costuma acontecer quando contactamos divindades, fiquei siderado ou como disse o Cesariny, ia caindo para o lado. Havia um coreto com músicos, um céu de bandeirinhas e flores de papel colorido, fumo de sardinhas assadas… – o Santo António , mas tudo isso se esfumou e ali estava eu feito estátua olhando a deusa que se aproximava. E vinha na minha direcção. Vi depois que não vinha sozinha, um homem trigueiro, de bigodes escuros, vestido muito formalmente, acompanhava-a. Nem o vi. Deixem-me descrevê-la: não era muito alta, de formas generosas, sem sombra de obesidade, um rosto oval onde luziam dois olhos escuros, de um brilho ironicamente inteligente. Sumptuosamente linda, se é que me entendem.

Como continuava, com o seu acompanhante a vir na direcção do nosso grupo, o meu embevecimento crescia na medida em que a distância diiminuia. Até que chegaram junto de nós. Beijou as faces dos meus três amigos e esperou que eles me apresentassem. O que fizeram enquanto eu continuava em estado cataléptico. Um deles, deu-me uma cotovelada e lá me aproximei. Estendeu-me a mão. Mirava-me com o olhar divertido de quem sabia o que me ia na mente. E depois apresentou-nos o seu acompanhante. Era o senhor embaixador da República Árabe Unida, uma federação de estados de existência efémera, constituído pelo Egipto, pela Síria e pelo Iémen. Trocámos frases de circunstância em francês, que era o inglês de há cinquenta anos. E a deusa foi-se embora levando o embaixador, dando-me à despedida um beijo na face, olhando-me sempre com o ar trocista de quem me lia os pensamentos. Foi-se, perdeu-se no meio daquela multidão de pobres mortais. Um dos amigos, grande poeta, deu-me um encontrão e disse-me a frase sacramental:
– Acorda rapaz! Olha que ela podia ser tua mãe!
Talvez pudesse, com alguma boa vontade, pois tinha mais 14 anos e uns meses do que eu. Mas não era. Tinha um nome:
Natália. Natália Correia.

Foi um rude golpe quando a vi aderir ao PPD, partido de que foi deputada. Mas nunca me desiludiu como escritora, como intelectual. À sua beleza exterior, correspondia uma grande beleza interior. Não tinha papas na língua, embora deputada de um partido conservador. Quando em 1982, na Assembleia da República, o deputado Jorge Morgado lembrou que a Igreja Católica proíbe o aborto por entender que o acto sexual tem como objectivo único a procriação, Natália, respondeu:

Já que o coito diz Morgado
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menino ou menina
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca,
sendo só pai de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou parca ração! uma vez.
E se a função faz o órgão diz o ditado
consumado essa excepção,
ficou capado o Morgado.

Nunca fui frequentador do seu «Botequim». Quis sempre preservar a imagem daquela visão que me surgiu em pleno Santo António no embandeirado largo em Alfama Como uma deusa. Embora, com a tal boa vontade, pudesse ser minha mãe. (Já repararam que esta questão não tem sentido, pois todas as mulheres podiam ser sempre nossas mães, tias, irmãs, filhas, primas… É a síndrome do incesto a atacar).
Como o texto já vai demasiado longo, deixo-vos com a voz de Natália Correia lendo o seu poema «Defesa do Poeta», num serão gravado (em 1971?) em casa de Amália Rodrigues, com a presença desta, de Vinicius de Moraes, de David Mourão-Ferreira, de José Carlos Ary dos Santos. A Defesa do Poeta:

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