Sacanas sem lei e as palavras de Tarantino

A diferença está nos diálogos. Ponto. É nos textos, nas linhas, nas palavras que está a diferença do cinema de Quentin Tarantino. E “Sacanas sem lei” confirma isso mesmo. Sim, claro que há as imagens. Ao contrário de João César Monteiro, Tarantino sabe que o cinema vive das imagens, senão poderia ser apenas uma rádio novela.

tarantino

Esse conhecimento permite-lhe criar enfeites para os diálogos. Mesmo nas cenas de acção, Tarantino está a falar. Mesmo nas cenas de amor, é ainda Tarantino a falar. Mesmo quando há silêncios, são as palavras que lá estão. Mesmo quando utiliza, e isso ocorre inúmeras vezes, referência cinéfilas, as palavras dançam-nos nos olhos. Já viram entrevistas do homem? Pois claro, está sempre a falar, não se cala. Sim, tal como Vasco Pulido Valente escreve melhor do que fala.

“Sacanas sem lei” é um filme extraordinário porque tem diálogos extraordinários. Não é pela história, baseada num filme italiano, repleta de fantasias típicas do ex-funcionário de um vídeo clube. Não é ainda pelas imagens, embora tenham uma excelente fotografia e sejam filmadas de forma irrepreensível. O que marca são as palavras.

O primeiro capítulo do filme, com um impecável Christoph Waltz, é brilhante e define todo o filme. Como uma lição de vida, é ali que descobrimos se vamos ou não gostar do filme. O jogo de palavras e de idiomas é magnífico e é um tratado sobre como se deve construir um diálogo agressivo para cinema. Com requinte. Mais à frente, no bar francês, são os diálogos que pesam. Mesmo quando as armas se fazem ouvir, ainda estamos a escutar o texto, ainda bebemos o que disseram os protagonistas. E quando as armas se calam, é um outro diálogo que estabelece a ligação para o que há-de vir.

“Sacanas sem lei” é um grande filme, que confirma apenas a capacidade de Tarantino para escrever. Algo que já tínhamos visto em “Cães Danados” e “Pulp Fiction”.

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