COMENTÁRIO AO COMENTÁRIO DO AMIGO CARLOS RUÃO

Amigo Carlos Ruão

Um abraço e o meu obrigado por teres respondido ao meu humilde comentário.

Gosto muito de poesia, gosto de tentar fazer poesia, mas não sou um letrado em poesia. Aquilo que digo é fruto do que sinto e não propriamente do que sei, que é muito pouco.

 Na realidade, o que eu sinto é que é muito difícil alguém saber o que é a poesia. Desde a antiguidade aos tempos de hoje, embora toda a gente tenha o direito de emitir a sua opinião. Até hoje, nenhuma explicação, das que tenho lido, me deixou satisfeito. E já agora, gostaria de dizer que sendo eu materialista, em todo o sentido filosófico-científico, não admitindo qualquer dualidade corpo-espírito, penso que a única explicação do que é a poesia poderá vir a ser dada pela neurofisiologia, quando a neurobiologia do espírito for elevada a ciência incontestável, como espero. A partir do substracto fisiológico e neuronal, poderá perceber-se, creio, o seu valor e significado estético e sentimental.

 Quanto à identidade gemelar entre beleza e poesia, creio, amigo Carlos Ruão, que é uma realidade, ainda que o belo se esconda por detrás de textos sublimes ou terríficos, como acontece no Paraíso Perdido. Um objecto artístico não faz parte da realidade concreta do dia a dia. Se estamos frente a uma obra demasiado realista, ou nos identificamos com ela como objecto da realidade quotidiana, “convivemos”, dentro dos horizontes sempre limitados de uma realidade sem preocupações de dimensão universal. Nestas circunstâncias, muito facilmente se passa ao lado da beleza, ainda que ela lá esteja.

 Se a obra que temos na frente, ainda que representativa de uma natureza real, passa além da realidade concreta, ultrapassa a fronteira para além da qual o homem se atreve a pôr o pé na sua dimensão universal, então não convivemos com ela, mas “contemplámo-la” como arte, e, logicamente, como manifestação de beleza. Porque a beleza, quer queiramos quer não, reside na capacidade do homem de se projectar para fora dos horizontes da sua natural tendência antropocêntrica.

Comments

  1. maria monteiro says:

    Raras vezes de diz o que se pensae traz no coração.(Também ninguém se ralanem se cala…)As palavras? Ceguinhas de nascença,só a Poesiaas guiae lhes serve de cão,de moço e de bengala.A Simões Müller19 Abril 1974

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