Contos Proibidos – Memórias de um PS desconhecido. Salgado Zenha

continuação daqui

«Quem ironicamente tudo percebera – e digo ironicamente a pensar no que viria a acontecer, dez anos depois, em 1985 – foi Salgado Zenha que, apesar do importante trabalho que desenvolvia no Ministério da Justiça, passou a dar maior importância às actividades do Partido Socialista. Mas a sua total lealdade para com o sempre ausente Mário Soares era um raro exemplo nas relações entre os dirigentes socialistas . Não fosse isso e teria facilmente sido ele a liderar o Partido Socialista. É que, com algumas raras excepções, entre os quais me conto, os principais quadros de então estariam com Zenha se assim ele o desejasse. Este apercebera-se durante o Congresso da manobra do PCP, sendo bastante expressiva a cerimónia de encerramento do I Congresso, em que Soares e Serra de pé cantam o hino do Partido de mãos dadas ao ar, com um Zenha «carrancudo» sentado entre ambos. Convencido de que chegara a altura de travar o avanço dos comunistas, e enquanto Soares em Moscovo se esforçava por estabelecer com as autoridades soviéticas relações tão cordiais quanto possível, passa ao ataque empenhando, pela primeira vez, a bandeira da resistência contra o sonho bolchevique. No dia 6 de Janeiro publicaria um artigo no «Diário de Notícias» contra a «unicidade sindical», decretada pelo então Secretário de Estado Carlos Carvalhas, que Zenha afirma ser inconstitucional. A firmeza com que foi lançada esta inesperada oposição do PS provocaria o abandono de Manuel Serra e mudaria o rumo dos acontecimentos em Portugal. Salvaria o país da ditadura que estava na forja sem qualquer reacção até então das forças democráticas e salvaria Mário Soares de vir a desempenhar o papel de Kerensky que Henry Kissinger lhe preconizara em Outubro de 1974.
Foi o grande herói socialista e aquele que, um dia, feitas todas as análises e escritas todas as memórias, os Socialistas portugueses recordarão como, provavelmente, a sua maior figura do século XX. Mas disso falarei mais à frente quando, com total candura, também explicarei os pontos que me levaram a dele discordar em várias ocasiões. Mas como diria Mário Mesquita, em 1976, “ao fim destes dois anos de excessos vários e alguma anarquia, Salgado Zenha, pela sua visão englobante e nacional, credita-se como um dos nossos raros homens de Estado. O que não é, necessariamente, boa sina, porque o Estado ainda está por fazer e os portugueses nem sempre perdoam aos que fogem à bitola comum.»