Não me interessa o Saramago. Interessa-me o que penso.

Nota minha: Ao ler o Génesis, respeito o texto histórico, respeito o que lá está, como lenda, obviamente. Á luz da ciência considero uma anedota.

Por este, avalio todos os textos bíblicos

 

Na Bíblia Pastoral, ilustrada por Gustave Doré e com notas cuidadosamente revistas pelo biblista Frei Raimundo de Oliveira, pode ler-se na Introdução, em referência ao Pentateuco, ou seja, os cinco primeiros livros da Bíblia:

Nesses cinco livros encontramos histórias e leis que foram postas por escrito durante seis séculos, reformulando, adaptando e actualizando tradições antigas e criando novas.(…) (O sublinhado é meu).

As histórias aí contidas, na sua maioria, nasceram no meio do povo e, primeiramente, eram histórias de famílias, de clãs e de tribos que procuravam transmitir oralmente, de geração em geração, ensinamentos e factos. Mais tarde essas histórias foram reunidas, modificadas e interpretadas para que todo o povo de Israel pudesse espelhar-se nelas (…) (O sublinhado é meu).

 

Nota minha: Tal qual as histórias das nossas aldeias, que no curto intervalo de um século sofrem, quer na expressão oral quer na escrita, grandes alterações e modificações, com variações importantes de terra para terra. Imaginem durante dois ou três mil anos!.  

 

A Bíblia diz:

 

 

O homem uniu-se a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu á luz Caim. E disse: “Adquiri um homem com a ajuda de Javé”. Depois ela também deu à luz Abel, irmão de Caim. Abel tornou-se pastor de ovelhas e Caim cultivava a terra. Depois de algum tempo, Caim apresentou produtos da terra como oferta a Javé. Abel, por sua vez, apresentou os primogénitos e a gordura do seu rebanho. Javé gostou de Abel e da sua oferta, e não gostou de Caim e da oferta dele. Caim ficou então muito enfurecido e andava de cabeça baixa. E Javé disse a Caim: “porque estás enfurecido e andas de cabeça baixa? Se agisses bem, andarias com a cabeça erguida; mas, se não ages bem, o pecado está junto à porta, como fera agachada, a espreitar-te. Acaso conseguirás tu dominá-la?” Entretanto Caim disse a seu irmão Abel: “Vamos sair”. E quando estavam no campo, Caim lançou-se contra o seu irmão Abel e matou-o.

Então Javé perguntou a Caim: “Onde está o teu irmão Abel?” Caim respondeu: “Não sei. Sou, porventura, O guarda do meu irmão?” Javé disse: “Que fizeste? Ouço o sangue do teu irmão, clamando da terra por Mim. Por isso és amaldiçoado por essa terra que abriu a boca para receber das tuas mãos o sangue do teu irmão. Ainda que cultives a terra, ela não te dará o seu produto. Andarás errante e perdido pelo mundo”. Caim disse a Javé: “A minha culpa é grave e atormenta-me. Se hoje me expulsas do solo fértil, terei de me esconder de Ti, andando errante e perdido pelo mundo; o primeiro que me encontrar matar-me-á”. Javé respondeu-lhe: “ Quem matar Caim será vingado sete vezes”. E Javé colocou um sinal em Caim, a fim de que ele não fosse morto por quem o encontrasse. Caim saiu da presença de Javé e habitou na terra de Nod, a leste do Éden.

 

Nota minha: Mais uma vez, não esqueçamos que este texto, como todos os outros, foi escrito pelos homens, modificado, interpretado e adaptado às conveniências, durante séculos.

Podem ler agora, se quiserem, o comentário do amigo Miguel Dias, na secção de comentários do post “Ainda Saramago”.

 

Transcrevo a seguir a interpretação do biblista Frei Raimundo de Oliveira sobre a história de Caim:

“ Episódio exemplar que usa a antiga rivalidade entre pastores e agricultores, para mostrar como o mal atinge e deteriora até o encontro de irmãos. O projecto de Deus é a fraternidade em que cada um é protector do seu próximo e se alegra com a presença do outro. O pecado, o egoísmo introduz a rivalidade e a competição. Em vez de acolher, o homem fere e mata o seu semelhante. O sinal de protecção divina afasta o desespero e o rumo fatal do pecado; prenuncia a graça”.

 

Nota minha: Uma interpretação diferente da do Miguel. Lá porque ele não atingiu o cerne da interpretação do Miguel, não é por esta razão que este Senhor se pode classificar de indigente mental ou intelectual. Eu posso ser, porque tenho interpretações bem mais terra-a-terra e bem mais à letra, não muito diferentes das de Saramago. Como Saramago, considero o Deus da Bíblia muito pouco recomendável, em muitas passagens, até porque ele foi lá escrito à imagem do homem e da vida do homem, tantas vezes, ela própria, muito pouco recomendável.

 

 

Comments

  1. Emilia says:

    A metáfora é um dos recursos mais belos da literatura, mas infelizmente poucos ocidentais (sobretudo os do sexo masculino) conseguem percebê-la. Exceções magníficas foram Shakespeare (mais coisas entre o céu e a terra) e Einstein (imaginação mais importante do que o conhecimento). A sabedoria é algo muito mais sutil do que um acúmulo de conhecimentos analíticos.


  2. Mesmo dentro de metáforas, Deus tem de lá estar sempre como ser supremo de bondade, bom-senso e justiça.

  3. maria monteiro says:

    foi esse exercício que eu estive a fazer…

  4. isac says:

    toda esta apreciação estaria correcta não fosse um pormenor: um pouco antes, adão e eva tinham sido expulsos do paraíso vivendo conforme a sua vontade, pois não resistiram à vontade de provar da árvore do conhecimento. O homem queria livre arbitrio e criar as suas regras? Pois bem, este é o primeiro episódio verdadeiramente humano na bíblia: um homem mata o outro, mesmo sendo seu irmão e apenas por ciúme. Aproveitando as palavras do Saramago, o homem é que “não é boa pessoa.”


  5. A Bíblia é, realmente, de uma beleza inatingivel.As sua lições, de  “for all seasons” permanecem há dois mil anos, sempre actuais..

  6. maria monteiro says:

    as lições sim e a prática também…


  7. Caro Adão:A minha crítica não foi (nunca o é) ad hominem . O que eu apontei foi uma leitura redutora, imperdoável a um escritor do gabarito de Saramago. É centrado naquilo que ele disse, e não naquilo que ele é ou parece ser, que eu me fundamentei.Repito, na conferência de imprensa o que muito me espantou é precisamente o momento em que se interroga porque é que Deus não castigou Caim. Conclusão implícita : Deus é injusto. Estão a ver vocês andam a adorar um filho da puta . Então o gajo não devia ter limpado o sebo ao Caim. Se queres embarcar nesta visão tão redutora, é problema teu. A Bíblia é um dos textos fundadores da civilização. Tão importante como a Ilíada ou a Odisseia, Édipo Rei ou Antígona. É uma peça literária. O que Saramago faz é de uma simplismo confrangedor, atira a Bíblia à cara da Igreja e dos crentes: estão a ver o Deus que adoram, é um canalha um mau exemplo.Querendo ou não cai na armadilha que tenta criar.Como ateu, pouco me importa se Deus é um canalha, ainda que se estivesse no lugar Dele, com tantas responsabilidades adstritas ao cargo provavelmente não faria melhor.  O que mais me preocupa são as canalhices dos seus representantes na terra. E o que na lógica do Saramago está implicíto, é de que essas canalhices estão inscritas no próprio texto fundador. O alcance que isto tem é a de uma éspecie de desresponzabilização muito perigosa. A Igreja é assim porque a Bíblia assim a ensinou. Ora a Igreja é uma instituição humana, formada por homens concretos que têm de ser responsabilizados por actos concretos que em nada podem ser remetidos a interpretações de um texto. É nesta dimensão que como ateu coloco as questões.Mas voltemos a Caim. À laia de anedota, havia questões logísticas óbvias, no subsequente desenvolvimento da Humanidade, que impediam o castigo. Mas o que é fundamental é que este episódio é central a toda  a religião judaico-cristã e à nossa civilização. Caim mata Abel por ciúme ou inveja. Crime para o qual Deus não tem castigo possível . Está presente a ideia de que não há penitência que nos salve perante um crime tão hediondo. Que há dívidas que não se podem pagar. Coloca o fraticídio como algo de tão abjecto para o qual não há redenção possível. Caim é o judeu errante que viverá todos os seus dias com o fardo do pecado. E isto tem uma dimensão moral muito importante. É que ao contrário do que diz Saramago, um exemplo moral e ético notável. Não matarás, porque não há castigo que te salve. É o que Deus nos diz naquela passagem da Bíblia.Quanto à interpretação do Frei Raimundo, é apenas mais uma. Mas não chega ao fundamental.


  8. Miguel. Apresentas-te muito mais racional neste texto. Concordo plenamente contigo quando dizes que as canalhices dos representantes de deus na terra nada têm a ver com as canalhices inscritas no texto bíblico. A igreja não é a instituição perversa que é, porque a bíblia a ensinou a ser assim. Nem de longe nem de perto. A igreja vale-se da bíblia como suporte para cimentar as crenças na igreja, fazendo crer que é a palavra de deus. É neste sentido e só neste sentido que se critica a bíblia naquilo que ela tem de maus ensinamentos, com vista a criticar a igreja. A bíblia é um livro, com coisas más e doentias, mas também com coisas bonitas, que até podem ser belas se dermos asas à nossa fantasia interpretativa, como acontece, aliás, com as obras que citaste. Ao ler o texto sobre Caim, tal qual lá está, não consigo chegar a nehuma interpretação sublime, concreta. Aquela que dás, ao puxar pela minha memória, creio que já a tinha ouvido nos jesuítas. Mas penso que, mesmo hoje em dia, raro será o criminoso que se quer deixar apanhar para ser castigado.