Parábola do camarada B. segundo Carlos Rates

Fortaleza de S. Pedro e S. Paulo, 1905

 

 

o camarada B. tinha toda a confiança do soviete de

Petrogrado cabia-lhe transportar dois soldados brancos

descobertos pelos anarquistas até ao comando militar

onde seriam fuzilados. o camarada B. era

magro tuberculoso, de uma actividade espantosa, sempre

alerta eloquente confuso, com os seus belos olhos azuis

cheio de juventude e sempre animado de entusiasmo. tinha

passado dez anos na prisão durante a sua vida de revolucionário.

o camarada B. encontra-se de revólver à cinta sentado

em frente dos dois prisioneiros pálidos

no automóvel que desliza para S. Pedro e

S. Paulo. de vez em quando lança um olhar

através da vidraça do carro um olhar

sobre a rua que desaparece. lembra-se do dia

em que o conduziam a ele próprio

igualmente preso, a caminho da mesma fortaleza

pelas mesmas ruas.

o carro aproxima-se da porta da Trindade. a flecha dourada de Pedro e Paulo brilha no céu dominando as casamatas.

 

– alto! – grita o camarada B. o automóvel pára a duzentos

metros do portão da cidadela. o camarada B. diz-lhes,

apontando as ruas desertas:

– vão-se embora.

 

o camarada B. sente neste momento, um alívio que tu não podes imaginar. o camarada B. parte perdido

objecto exposto

na Revolução de Outubro em Novembro de 1917.

 

(feito a partir de uma narrativa de José Carlos Rates (entrada manhosa da Wikipédia), fundador e 1º secretário-geral do PCP, incluída em A Rússia dos Sovietes. Republicado)

 

Comments


  1. Já visitei o cenário em que decorre a aventura do soldado B.

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