O crescimento dos filhos é a lenta morte

 

 

1. Introdução.

 

O título é uma hipótese. Parece existir uma estrada de dupla via, dois caminhos paralelos entre ascendentes e descendentes dum ser humano, um cruzar-se nas diferentes etapas da vida entre adultos e crianças. Um efectivo avanço das crianças, parece resultar num aparente declínio dos pais; à medida que a criança cresce, o adulto inicia esse declinar e não a procura de outros objectivos não entrosados à vida com a qual sempre sonhou ou para a qual se preparou ou foi preparado. Todo o adulto, na nossa cultura, é ensinado que o seu objectivo é fazer crianças, nutri-las, cuidá-las, ajudá-las no seu crescimento e educá-las. Amá-las. Ser o peão de pivot, o fantasma do objecto da vida, o apoio necessário para os que andam a aprender. Modelo para filhos, ou para a nova geração, caso não haja filhos. A questão que se coloca não é simples: um dia nasce uma criança e os adultos, alvoroçados, sentem e pensam que o seu olhar deve ser reproduzido; o seu pensar, um elo central; as suas palavras, a lei sagrada a ser respeitada. O seu amor, o centro da forma de reproduzir o grupo social. Reprodução com ou sem descendentes, reprodução como memória histórica: o que eu faço é bom, mas, melhor ainda, se a geração seguinte fizesse da mesma forma. Igual nos sentimentos que me fazem feliz, igual no agir que me torna o centro do meu grupo social. Conquistar a minha hierarquia e ultrapassá-la. Este parece-me ser o sentir das pessoas que analisei na Beira Alta ( Portugal), em Pencahue, (Chile) e Vilatuxe, (Galiza). Sítios que dinamizam a minha observação, a minha conclusão e a minha emotividade. La gallina ciega (Goya).jpg. La gallina ciega, Óleo sobre lienzo, 269 cm x 350 cm. Date. 1788-1789.

 

 

2. O crescimento das crianças.

 

Há já muitos anos que convivo com as crianças dos lugares anteriormente referidos. O tempo passa, elas crescem. Os pais parecem ser estar iguais, enquanto amadurecem, não ficam mais velhos, como entendem o real com maior parcimónia, e isso, deve-se não a cronologia, com um algarismo a mais (o numero é irrelevante),mas à experiência. Essa sim, é o mais importante. O adulto vai entendendo a memória social e o contexto que a cria,  dinamiza, a produz, e  que lhe lembra o que fazer, quando e como. Memória que, desde a via paralela, a geração mais nova observa com curiosidade pelo real. Não é ainda uma experiência acumulada, e amadurecida, é, antes uma experiência que desenha o futuro, projectando (podríamos dizer que é o que e como gostaria de ser quando for grande) imaginariamente o que atingir para conquistar o seu lugar. Tal e qual o adulto já atingiu criando para si um nicho social dentro do seu grupo. Vias paralelas que se observam: a miudagem que tenta entender esse querer amar,  possuir,  preparar uma vida folgada como recompensa de uma vida de trabalho. O adulto folga-se do sucesso enquanto a miudagem se afasta do cansaço que no sucesso do adulto, vê. O adulto pensa e sente que a sua vida é o lar ao qual a criança deve, um dia, chegar. A criança pensa e sente que esse lar já foi trilhado e é tempo de começar de uma forma diferente. Os seus adultos foram pais bem cedo, as crianças querem adiar a criação para o dia em que tenham uma vida económica viável. Os seus adultos apaixonaram-se quase na puberdade e criaram crianças; estas, por sua vez, começam a distinguir entre paixão e amor: a primeira, como a junção de corpos no prazer de se acariciarem; o segundo, para cimentar uma união que acompanhe duas pessoas numa eventual procriação ou criação, acrescentando carinho à paixão e ao amor. Um terceiro sentimento novo, que permite a organização de uma vida a dois

que os acompanhe até o fim dos seus dias.

 

 

3. É a lenta morte dos pais.

 

Será a ideia dos pais desaparecerem? Ou a ideia natural dos mais velhos morrerem primeiro? É o sentimento da memória social que separa as águas de duas gerações diferentes, em rotas de subida e descida pelas vias da vida? Ou, não será apenas apagar o exemplo do adulto no andamento pelos trilhos da vida? Parece ser certo os mais velhos traçarem o exemplo. Parece ser certo os mais novos fixarem  novas regras. Porque há novos dados. Tal como os Romanos que não souberam usar a lei de Arquimedes para levar a água para dentro da casa por debaixo da terra, construindo muros como canais para a elevar até ao fogão. Tal e qual a nova geração tem aprendido que autonomia e individualidade, vontade e objectivo de vida, são as vias subterrâneas, privadas e íntimas, para a felicidade. A criança cresce no caminho contrário ao do seu adulto. Cresce até ao ponto de não se reconhecer nos seus ancestrais mais imediatos na produção da vida. Esse feito que tenho denominado reprodução e desino agora também, de transição. A geração dos pais, com ou sem tenham descendentes, procurava e queria a reprodução. A geração mais nova, quer ser transição. Entende-se como transição. Não entre nascer, crescer e morrer, mas sim em como será a vida com a analise da sua nova possibilidade cronológica, da descoberta do genoma humano, dos esrtudos que lhe estão associados, abrindo novas formas ao de entendimento, faz saber como a sua vida vai decorrer. O saber científico de hoje, bem como o saber da gestão da economia para o lucro de todos por igual, sem trabalho em demasia. A clonagem da vida à qual estão agora agarrados os novos seres. Ainda em Pencahue os adultos continuam a falar calados por temor ao velho ditador, quem tanto matou, nomeadamente entre esta população,  provocando o silêncio dos adultos, não vá algum fetiço ressucita-lo. Os mais novos já não querem saber desse medo: desejam e têm o direito de viverem a sua vida sem olhar sempre para o passado. Falarem calmamente as palavras que pensam e fazerem o que sentem: já não há perseguição. Não entendem esse conceito e, menos ainda, o sentimento de um saber no experimentado. Há toda uma transição entre ascendentes e descendentes. Ou, esse outro que diz, algures em Pencahue, em Vilaruiva ou em Vilatuxe, que o pensamento católico continua a condenar as opções sentimentais das pessoas quando não ajustadas à Tradição da Patrística, tal e qual lhe parece ler no Catecismo de 1991. Leitura adulta mal feita, Tradição e Patrística sempre manipulada pelos objectivos das pessoas que desejam governar as suas vidas e impor esse entender no meio do seu grupo social. Como, de facto, aconteceu em Pencahue, quando vi tantos casais novos de experiência antes do compromisso, tanto adulto a perguntar-me como era possível voltar ás águas passad
as
, furtadas pelo agir do saber que eles não entendiam. Ou esse rapazes de Vilaruiva, a pôr em questão as suas mães num debate público sobre sexualidade: tua não me deixas, tu queres mandar e eu quero ser autónomo, seria a síntese dessa discussão. Debate de meninas de 19 anos com mães de 40. Questão nunca pensada pelas santas senhoras a congeminarem na vida em que foram criadas, elas próprias e as suas santas mães, algumas delas, já anciãs. Pais a temerem pela castidade da sua descendência, essa que nem diz nem conta, mas não ouve a homilia que desde Roma ou Fátima se tenta inculcar. Homilia a cair em ouvidos em transição, ouvidos sem tímpanos para entenderem o som da melodia de dançar, de melopeia que perdura pelos passeios das ruas que o grupo social cruza ao partilhar um saber universal. Os pais a saberem que continuam vivos como seres, mas mortos como autoridades; sem saberem que, dentro de cada pequeno, esse adulto ficou quando a pequenada era menina e quando, já na puberdade, esse adulto soube entender que a vida era muito diferente à vida da que ele próprio teve quando jovem e pequeno.

 

4. Epílogo.

 

O crescimento das crianças é a lenta morte dos pais. Mais entendem, sabem e fazem os novos, menos pais e mais amigos ficam os adultos. Quase da mesma geração se conseguirem não mandar o que não entendem, e entenderem a nova era que hoje se vive. A seguir à clonagem do genoma, à sua analise, à mudança dos dogmas das Igrejas, mudanças necessárias para se ajustarem ao avanço do que, no Século XIV, o frade franciscano de Oxford, Guilherme de Occam, denominava como ciência:  prática das pessoas validada pela dinâmica que a experimentação traz na interacção humana, bem mais avançada que a Teologia do Vaticano. A lenta morte dos pais deve ser aceite pelo ser humano, jovem ou adulto, para continuar a viver em paz e felicidade, ou pelo menos, em compreensão. Como a desses pequenos de Pencahue que me deram uma festa de dança e flores, por eu ter falado deles nos meus livros. Amor com amor se paga, foi-me dito. Amor com amor, faz da lenta morte dos pais, uma transição do tratamento de adulto para adulto. Amor que nunca deixa o ninho vazio, que o faz crescer enquanto os novos ninhos aprendem  o amor como desejo e esquecem a paixão já apagada nas práticas da adolescência e da primeira, da segunda e terceira juventudes. Conceitos até hoje usados apenas para o fim da vida: a terceira e quarta idade. Conceitos que devem ser transferidos às novas formas de vida que incrementam a cronologia da juventude alongando as idades da vida. Enquanto crescem as crianças, morrem os pais, mas as pessoas ficam juntas e em convívio . A ciência deve-nos obrigar a mudar os conceitos, tal como a vida tem mudado da reprodução para a transição. Como a juventude de hoje  faz transintando entre alternativas.

Fonte:

  • Catecismo de la Iglesia Católica, 1992, Asociación de Editores del Catecismo, Madrid. A versão portuguesa é de 1993.
  • Iturra, Raúl, 2000: O saber sexual das crianças. Desejo-te, porque te amo. Afrontamento, Porto.
  • A Página da Educação, Nascer, morrer, crescer: a persona é transição, Julho de 2000. Porto-
  • Miller, Alice, (1970) 1994: El drama del niño dotado. Tusquets Editores, Barcelona.
  • (1980) 1983: For your own good. The roots of violence in child -rearing. Virago, Londres.
  • (1988 a) 1990: El saber proscrito. Tusquets Editores, Barcelona.
  • (1988b) 1991: La llave perdida. Tusquets Editores, Barcelona.
  • Occam, Guilherme de, (1319) 1985: Principios de filosofía. Sarpe Editora, Madrid.
  • Valcuende del Río, José Maria, 1998: Zalamea la Real: la tierra y la mina. Cambios socio-económicos, relaciones de poder y representaciones colectivas. Diputación Provincial, Huelva.
  • Vega e Carpio, Lope de, c. 1580: Si tu pensas. Monserrat Figueras, Jordi Saval, Hesperión XX. Astrée, Berlim 1987.
  • Texto reeproduzido do Jornal A Página da Educação, da minha autoria,

    A Página impressa – arquivo


    N.º 94

    Ano 9, Setembro 2000

    Escrito para conforto de amigos

 

 

Comments


  1. Magnífico! Um pai maduro sabe que o filho não é sua propriedade. Mas eu adoro abraçar o meu filho que tem 33 anos com grande rabujice da parte dele…

  2. maria monteiro says:

    meus caros pais Prof. Raul e Luís, o meu filho costuma passar pelo Aventar e vai lendo também os vossos textos…


  3. Caros Luís e Maria, vou responder aos dois em conjunto . Se falo de que o crescimento dos filhos é a lenta morte dos pais, não estou a referir a cronologia da vida. Refiro ao facto de que, mal crescem os filhos, procuram a sua autonomia e é preciso que nós, pais jovens ainda, procuremos alternativas. De certeza que a minha não será mais um casamento com novos filhos a criar. A distância conquistada por eles, deve ser respeitada, ainda que nos ofenda. Esperava falar com os meus netos holandeses no dia de amanhã, única relação permitida -coitado dos netos, ter que obedecer a tamanhos pais se  obrigar a falar com um ser desconhecido. Pelo que, já que estamos, para eles, socialmente mortos, é melhor procurar outras alternativas: escrever, viajar, eventualmente namorar sem compromisso profundo, por causa da minha tremenda desilusão da mudança familiar e a distância que eles procuram de nós. Infelizmente a morte é lenta, porque os três adoramos aos nossos descendentes, mas não temos direito a usufruir da sua presença : somos emotivamente roubados. Nós t`^es, estamos habituados a famílias largas e unidas, como é o caso de uma querida amiga, que está sempre de casa em casa da imensa família . sorte a dela. Sorte a minha: adoro a escrita, a minha pesquisa, o meu ensino   e..ver a selecçáo jogar. Deijovos, após 7 horas de escrita, para me divertir com o brinquedo que o capital invetou para nós: a tele visão, necessaria de tomat conta porque o proletariado, pelo qual tebho lutado em prol, e continuo a lutar, qualquer calamidade na a nossa casa são 20€ por se trnsferir, mas o trabalho, os materiais e o lanche! Como os nossos filhos, que não gastam em nós nem um telefonemas. É esse crescimentto desmedido, que traz essa lenta morte dos pais. Cumprimentos do vosso amigo aventar