Santa Madre Igreja? O que é isso?

Ainda não esfriou o relatório Ryan, publicado há cerca de seis meses, denunciando as violações, os abusos físicos e psicológicos contra quase duas mil crianças em instituições católicas na Irlanda, e surge neste momento outro, com mais de 700 páginas, divulgado pelo Ministério da Justiça da Irlanda, acusando a igreja católica de encobrir os abusos sexuais contra 320 menores, cometidos por 46 padres da arquidiocese de Dublin, dentre 120 visados pelas queixas, segundo o jornal Irish Times.

 

Em vez de denunciar os criminosos à polícia, a igreja apenas mudava os padres de paróquia. O crime pouco interessava à igreja, o que era preciso era escondê-lo, manter tudo em segredo, evitar o escândalo, manter a reputação e preservar os bens, pouco se importando com que os criminosos pedófilos cometessem novos abusos. De acordo com o relatório, a igreja fez tudo para evitar a aplicação da legislação, não entregando, sequer, informações sobre os suspeitos às autoridades.

 

 

 

O ministro da Justiça da Irlanda, Dermot Ahern, manifestando “repugnância e cólera”, classifica tudo isto de “Um escândalo de grande escala” que mostra “que o bem-estar das crianças não valia nada”. Referiu-se à “ironia cruel da Igreja” e considerou o relatório como um ”catálogo de actos maléficos cometidos em nome do que era considerado como bem comum”. “Um padre confessou ter molestado sexualmente mais de 100 crianças e um outro reconheceu ter abusado de menores uma vez todas as duas semanas durante 25 anos”. Após a divulgação do relatório, o arcebispo de Dublin, Diarmuid Martin, afirmou sentir vergonha e tristeza com o que ocorreu.

 

Segundo o relatório de uma comissão liderada pela Juíza Yvonne Murphy, todos os arcebispos de Dublin e muitos dos bispos auxiliares estavam conscientes das queixas. “don’t ask, don’t tell” (não perguntes, não digas nada), era a atitude da hierarquia da arquidiocese, segundo inferia a comissão.

 

Casos esporádicos são uma coisa. Casos aos milhares, multiplicados por diversos países, apontados pelos meios de comunicação, Estados Unidos, Austrália, França, Espanha, Alemanha, Itália, Brasil, América Latina são outra. Sabemos lá nós quantos milhares ou milhões, por aquilo que se vê, que não passa da ponta do iceberg! Penso que Jesus Cristo ficaria arrepiado e tombaria com uma síncope se tal visse.

 

O que me aflige sobremaneira é que toda a gente se insurge contra os monstros que os jornais divulgam, do tipo do austríaco, condenado, salvo erro, a prisão perpétua, se calhar com acentuado grau de psicopatia, mas, certamente, com muito menos responsabilidade moral, mental e social do que um bispo ou um padre, e ninguém pia no que respeita a esta avalanche de hediondos crimes, a esta lamacenta vergonha da igreja, que cresce e permanece impune. “Não perguntes, não digas nada”, continua a ser o lema de bispos, padres e católicos em geral. Já temos abordado o tema perante amigos que são católicos, mas nada, “moita-carrasco”. Se não se vislumbra qualquer centelha de justiça humana, é de rir a crença na justiça divina.

 

Comments

  1. C.COUTO says:

    Por isso é que eles são contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. Detestam concorrência.


  2. É, de facto, uma vergonha. Vergonha para os católicos e para os estados que, apesar de laicos, continuam a ter medo de mexer nos assuntos da Igreja. Ora, a meu ver, crimes de uma tal gravidade deviam ser objecto de investigações policiais que devassassem as estruturas clericais de alto a baixo. Há muito a ideia, ainda que não a expressem claramente, de que a roupa suja da Igreja deve ser lavada no seu interior. No entanto, é óbvio que se trata de crimes do foro da justiça laica e os inquéritos que os bispos e sua santidade ordenam nem sequer deviam ser tomados em consideração. É uma vergonha.


  3. Inteiramente de acordo, Carlos Loures. Não pode haver dois tipos de tratamento para o mesmo crime.  Fora da igreja, sujeito às leis penais, e dentro da igreja, impune. Revoltante, escandaloso e obsceno. A igreja perdeu completamente a pouca dignidade que já tinha. O seu valor moral não tem ponta por onde se lhe pegue. 


  4. Não se perde o que se não tem. A Igreja não pode perder uma vergonha que nunca teve. Ao longo dos séculos, sempre tem feito o que lhe apetece. Agora, com os órgãos de comunicação social ávidos de notícias sensacionais, fia mais fino. Mas isto não diz respeito só aos fiéis da ICAR – é um problema de cidadania. Os católicos honrados estarão de acordo em que é preciso apurar toda a verdade e punir quem deve ser punido.


  5. Não absolutamente não!
    Por acaso você já esqueceu que nosso senhor Jesus Cristo nos garantiu que as portas dos infernos não prevalecerão sobre sua igreja?
    Por acaso também você tambémtambém esqueceu que o joio e o trigo deveriam ser deixado crescer juntos para que o trigo não fosse arrancado juntos?????

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