Asnices à beira "Duero"

Os opinioneiros de serviço têm destas coisas. Quando nada existe para preencher a agenda própria de alçamento de suas excelsas personalidades, dedicam-se a temas para os quais não possuem a mais insignificante base de sustentação, seja ela histórica ou objecto da reflexão da economia, finanças ou de uma apressada leitura de um textozito de ciência política. Importa é falar de barato e sem tino.

Num amontoado de lugares comuns para comedor de tremoços e fã de cervejola ler antes do início da partida, o sr. Menezes decidiu-se agora e de forma desabrida, pelo iberismo. Esperar-se-ia o desvendar de um aturado estudo da situação nacional e a apresentação das claras e indesmentíveis vantagens de uma união ibérica que embora não seja corajosamente assumida pelo edil-escriba, é implícita no seu texto hoje publicado no oficialista Diário de Notícias. Ninguém quer perspectivar um futuro bastante hipotético, através da reedição de um salto das alturas de uma varanda de edifício público. A coragem não chega para tanto.

O excelentíssimo senhor doutor Luís Filipe Menezes, começa por alertar-nos para o sonhado El Dorado prometido por um colossal mercado ibérico de 52 milhões de consumidores, como se ambos os países não estivessem integrados num espaço bem mais vasto de 500 milhões que conformam a União Europeia. Assim, o sr. Menezes confirma aquele provincianismo que todos – mesmo os nortenhos – lhe apontaram quando das suas veleidades em tornar-se no grande chefe primo-ministeriável da nação. É-lhe completamente indiferente ou desconhecida, a actual situação de aguda crise interna – não apenas financeira, mas igualmente económica e política que o país vizinho atravessa -, encolhendo os ombros perante a evidência da dificuldade de penetração das empresas portuguesas em Espanha. Diga o alcaide da cidade fronteira ao Porto, quantas obras públicas foram adjudicadas a concorrentes empresas portuguesas. Terá um lampejo, mesmo que fugaz, acerca das dificuldades encontradas pelos portugueses na compra de empresas, joint-ventures ou até, na garantia dos Direitos do Trabalho em Espanha? Aparentemente, não, nem isso tem qualquer relevância.

Inevitavelmente, sugere como xeque-mate (ou cheque?), a estafada questão de Aljubarrota. Agora, chegou o ajuste de contas, o “acertar baterias (sic) para vencer a Aljubarrota dos nossos dias. Como se todo o contencioso inter-ibérico se resumisse ao episódio determinante mas não completamente decisivo da farta peleja ocorrida no campo de S. Jorge. Assim, Luís Filipe Menezes tudo está disposto a ceder e sem o saber, reconhece a ambição vizinha pelos nossos portos de de Lisboa, Sines e Leixões. Tudo oferece, e escancara as portas de Portugal a bem dos negócios que não explicita mas que facilmente adivinhamos. Da agricultura tem aquela visão do “barato e bom que concorre e ganha”, como se não existissem circuitos de distribuição e um proteccionismo descarado e contra o qual é difícil, senão impossível, erguer qualquer defesa consistente. No mundo do delírio talvez derivado dos eflúvios vinháticos das caves à beira Douro, garante que os espanhóis preferirão os quadros portugueses, …”se eles forem mais preparados para ganhar a batalha da competitividade”, o que logicamente …”pressupõe políticas consequentes (…) progressiva harmonização fiscal ibérica, desenvolvimento competitivo (?) do interior, aposta radical na frente marítima”, onde os portugueses atirariam ás urtigas a defesa da salubridade do seu ambiente político e das suas cidades, fazendo vista grossa perante …”a altura das paletes de contentores”, ressalvando – haja Deus ! – a nossa competência em línguas que sugerindo um golpe da magistral magia do professor Mandrake, colocaria os portugueses a dirigir o conjunto hispânico. Écerto que pouco interessa o fluxo migratório que da América do Sul e da Índia , preenche à saciedade e de forma caudalosa e barata, as necessidades no campo da informática, outros serviços e nos alardeados call-centers da moda. Dez milhões de portugueses, são assim mais que suficientes para reduzir a zero, um bilião de indianos, por exemplo.

Mas usando as suas próprias palavras, “passemos a exemplos perceptíveis”. E quais são eles? Apenas um: o futebol! No fundo, destes agentes cíclicos que protagonizam as alternativas expostas pelo regime, pouco ou nada mais há a esperar.

Afinal de contas, o pacovismo enaltecido em doutoral pergaminho passado em nome de Hipócrates, resume-se à questão da bola e estádio para todos e garante o reforço da …”nossa auto-estima resultante do sucesso a uma escala mundial (…), mais vitoriosos, mais orgulhosos e assim ainda mais patriotas e saudavelmente nacionalistas”.

O sr. de Menezes deve andar obcecado com as visualizações da histeria semanalmente debitada no Camp Nou. Pobre diabo.

Os chavões históricos são parcos na pajela capciosamente guardada na carteira de Luís Filipe Menezes. Portugal resume-se a Aljubarrota e ao atribuído dito do …”antes rainha uma hora do que duquesa durante um século” (sic). Esmagadora sageja, irrecusável argumento final da sua Totaller krieg, kuerzeste Krieg.

Tal como antes da adesão à defunta CEE, agora acenam-nos com um iberismo que por si nos garantirá um …”futuro de prosperidade (que) ainda está nas nossas mãos.” Menezes já sonha com …”receitas de merchandising” futeboleiro e com as cidades portuguesas semanalmente inundadas de catalães, madridistas, bascos, valencianos e galegos, que acompanhariam em massa as suas equipas”. Belo turismo este, capaz de nos encher hotéis, , museus e salas de espectáculo. Aliás, o último jogo em Lisboa que fez defrontar à pedrada os belicosos adeptos do A.M. com os surpreendidos anfitriões do Sporting, consiste numa pequena amostra daquilo que o dr. Menezes classifica de “desenvolvimento turístico fulminante.”

Termina o excelentíssimo autarca da nação, senhor doutor Luís Filipe Menezes, com um post-scriptum apontando a necessidade da opção portuguesa …”pela riqueza fruto da afirmação universalista e inteligente (…), uma liga nacional de 10 clubes elegeria o clube que substituiria o mais mal classificado na tal liga ibérica (…) e até essa passaria a ter estádios cheios e um mercado interessante”.

Foi o presidente do PSD. Foi o pretendente ao exercício do cargo de 1º ministro de Portugal e quem sabe?, um potencial aspirante a voos mais altos, fossem eles propiciados pela aviónica que o faria aterrar num qualquer posto de arribação disponível na UE, ou até, suprema honra!, ao lugar de presidente de uma Junta Autónoma de um Portugal finalmente balcanizado e reduzido a nada.

Em suma, são estes, os grandes quadros da República em asinina festança comemorativa. Pobre país.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Basicamente, o que a inteligência nos está a dizer é que esgotada a mina da UE, temos aí a mina Espanhola, olé!

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