Jornal Expresso: as contas do Prof. João Duque

O actual ISEG, antes a velhinha escola de ‘económicas’ do Quelhas, em Lisboa, também sofre efeitos da erosão do tempo. É uma fatalidade da sociedade portuguesa, fazendo emergir, em vários quadrantes, gente de valor mediano, para não dizer medíocre. Reproduzo contas da EDP, para sustentar as ideias adiante expressas.

Como exemplo, lembro que, entre os notáveis históricos do ISEG, se contam os Professores Mira Fernandes, Bento de Jesus Caraça, Jacinto Nunes e muitos, muitos outros, entre os quais, o actual Presidente Cavaco Silva.

Nos tempos correntes, ao que parece em consonância com a ampla degenerescência nacional, a histórica escola é dirigida pelo Prof. João Duque, assíduo comentador da SIC Notícias e colunista do ‘Expresso’, suplemento de Economia.

Na edição do passado Sábado, o Prof. Duque subscreve, no referido suplemento e destaque na 1.ªpágina do “Expresso”, o artigo ‘Ele Mexe com a Inveja’. Do princípio ao fim, o texto é bastante infeliz; começa por uma confissão de inveja do autor e termina a concluir que, afinal, os prémios do Mexia foram um benefício para os cofres públicos. Brilhante!

A incoerência só pode ter duas causas: ou fruto de incapacidade de análise, ou mera manobra escatológica destinada a influenciar a opinião pública.  

Argumenta João Duque que, com o pagamento dos prémios a Mexia, o Estado arrecada uma receita em sede IRS – e eventualmente em contribuições para a Segurança Social – maior do que a verba que arrecadaria se não houvesse lugar aos prémios em causa; ou seja, as receitas excedem o IRC sobre o eventual lucro tributável, não descontado dos ditos prémios.

Com efeito, a um académico exige-se mais, muito mais, do que ficar por visões conjunturais e superficiais, dando lugar a interrogações diversas, nomeadamente as seguintes:

i)                    A atribuição de 3,1 milhões de euros, em empresa participada pelo Estado, é aceitável do ponto de vista ético, no momento de crise em que muitos de milhares de portugueses estão mergulhados?

ii)                   Se o prémio não fosse atribuído, como é que se pode garantir, de ciência certa, que os 2,325 milhões seriam distribuídos por accionistas?

iii)                 O todo ou parte dos 2,325 milhões, a não serem distribuídos, não poderia ficar retido na EDP como auto – financiamento?

Estas constituem, apenas, parte das questões que se levantam, porque existem outros dados a merecer observação: de 2008 para 2009, o volume negócios da EDP diminuiu € 1.695,100,00, o resultado operacional melhorou apenas € 38.700,00 e a dívida financeira aumentou de € 116.500,00.

Com o “excelente” desempenho que estes últimos números evidenciam, não seria mais certo, do ponto de vista do interesse nacional, que, em vez de distribuir tanto dinheiro a António Mexia, o Estado, através da sua participação de 25%, influenciasse a gestão a optar pela redução da dívida da empresa? É que grande parte do débito financeiro da EDP, 14,006 milhares de milhões de euros, é dívida externa e é, pelo elevado montante desta, que agências de notação financeira e os centros europeus de decisão política estão a fazer exigências que infalivelmente recaem sobre a população de um país integrado no famigerado grupo dos ‘PIGS’.

Querer ver segundo o curto horizonte conjuntural e dispensar de analisar na perspectiva do interesse nacional é aceitável a um amanuense; nunca a um catedrático que até pergunta: “E se eu fosse até ao Largo do Rato fazer a inscrição?”. Eu respondo: “Vá ao Largo do Rato e à São Caetano, porque assim a probabilidade de encontrar o que procura é bastante maior”.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Eu leio sempre este nosso colega e fiquei estarrecido com a tentativa desastrada de ser original, Seria melhor escrever “não tenho assunto, até para a semana”! E Carlos, porque havemos nós de pagar a electicidade 2.2 vezes mais cara que a média europeia? Porque será que os lucros vão para o accionista e/ou para os administradores e não vão para os trabalhadores e clientes,estes baixando os preços?

  2. Pedro says:

    A obsessão do quantitativo cega os homens! Devemos aprender com a História e estudar a natureza da humanidade. Ao Homem não custa mais viver na pobreza do que viver na injustiça. Se o dr. Duque acha que é justo o que se passa na EDP, ao mesmo tempo em que os portugueses vivem com cada vez mais dificuldades e com desespero crescente, então é porque a Economia dele deixou de ser uma ciência social.
    A maioria das pessoas não tem inveja de Mexia. Sente-se é indignada com tamanha falta de respeito quando cada vez tem menos pão para por na boca dos filhos, e não consegue vislumbrar o dia prometido de uma sociedade mais justa.

    • Luís Moreira says:

      O Prof João Duque foi muito infeliz. para ele não há bom senso, não há ética, nã há justiça social. Há lucros que podem ser distribuidos desta ou daquela maneira. E eu continuo a não perceber porque havemos de pagar a electicidade mais cara da europa!

  3. Carlos Fonseca says:

    Luís e Pedro, além do que dizem e que está correcto, sublinho que a dívida da EDP é enorme, 14,006 milhares de milhões de euros. Pesa e de que maneira na dívida externa nacional, basta consultar as demonstrações financeiras da EDP.

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