Amena cavaqueira


O prof. Cavaco Silva, candidato à reeleição, proferiu ontem um discurso que não pode deixar de merecer alguns reparos. Falou muito de si, naquela invariável ora que exclui todas as outras, aliás até hoje pautadas pelo mutismo. Uma contradição nunca vem só.

Se a República Portuguesa não tivesse beneficiado da sua magistratura de influência, o “país estaria pior”. Não duvidamos, mas fica-se com a estarrecida sensação de um cataclismo de proporções inauditas. Pior que aquilo que se sente e se vive neste dia a dia? Como se pudéssemos há pouco tempo imaginar tal coisa, num país que regressou à democracia há quase quatro décadas e passou por um período de oportunidades para profundas transformações em múltiplos sectores, sejam eles políticos, económicos, ou sociais.

Cavaco diz-se “um árbitro independente”, sendo isto uma redundância clamorosa, pois pelo que parece, aventa a hipótese da existência de árbitros que não o são. Chegámos a este ponto de escabroso vazio conceptual, devido precisamente ao esquema montado ao longo das sucessivas rotações no poder. Esta é a verdade que o sistema yuppie trouxe ao quotidiano. O zero absoluto. Cavaco diz ser o “homem certo” para o lugar e nisso acreditamos. Foi o “homem certo” para a aplicação dos fundos comunitários e muita da gente que o rodeou, é também conhecida pela sua muito discutível idoneidade. Foi o “homem certo” para o controlo dos mesmos caudais de dinheiro e para o surgimento de obras paralelas que invadiram o país de um betonismo de qualquer sítio para nenhures, de colossais somas aplicadas em formação de coisa alguma e na remodelação de parques automóveis privados, etc. Foi o “homem certo” que geriu a desertificação do interior, possibilitada pelas famosas auto-estradas que exauriram as províncias de gentes e de ofícios, fossem estes da terra ou da indústria. Foi igualmente o “homem certo” para o grande desígnio que ontem subitamente descobriu, o mar que qual Mapa Cor de Rosa, surge nas brilhantes mentes até hoje distraídas pelos charcos do enriquecimento fácil e suspeito. Sim, gosta do mar, aquele vasto campo aquoso de onde fez sair para demolição, centos de barcos de pesca, substituídos por uma estranha política de “subsídios” que acabaria por hegemonizar na Península, a frota pesqueira do país vizinho e a sua indústria de conserva, assim como a de Marrocos. O sistema que soberanamente ajudou a consolidar, coloca o país à mercê de um qualquer Ultimatum, seja ele a propósito dos créditos estrangeiros sobre Portugal, ou até, da reivindicação de territórios de jure e de facto pertencentes ao nosso país, como as Selvagens, alvo do interesse do cobiçoso vizinho.

Cavaco Siva perorou longamente acerca dos seus “alertas, acções ponderadas e credibilidade do seu magistério de influência”. Bem vistas as coisas podemos até concordar com estas tiradas, mas ditas num discurso da Coroa escrito pelo Primeiro-Ministro da Suécia e destinado a ser lido por Carlos XVI no Riksdag de Estocolmo. Pouco têm em comum com o Portugal que conhecemos. Se existe credibilidade, essa deve-se talvez, à manutenção de uma praxis que conduziu o país a este baldio enlameado. É a credibilidade do dislate, do compadrio e do compromisso com a ruína garantida. A verdade consiste num silêncio que vezes demais significou o sim do condescender com o erro . Se alguma vez existiram, os “nãos” foram discretos e aparentemente, pouco eficazes no evitar de decisões ruinosas para um futuro cada vez mais incerto. Se esteve em desacordo com certas medidas e exerceu a famosa magistratura de influência, disso o país não deu conta. Prove-o agora, antes do acto eleitoral que se avizinha.

Quando parte para o segundo e derradeiro mandato, diz-se disposto a ser mais interventivo. Que grande novidade! Parece sugerir que logo na alvorada da sua reeleição, já está livre para fazer aquilo que bem entender e praticar precisamente aquilo que Soares lhe aplicou, ou o mesmo que Sampaio gizou contra Santana. De facto, o prof. Cavaco Silva implicitamente reconhece ter estado durante um lustro, numa espécie de reserva-mental, sendo estas, más notícias para o Partido que ainda tutela.

Esta gente bem colocada parece nada ter aprendido e pior ainda, tudo julga ter comodamente esquecido. Continua a falar de “timings, factores externos e conjunturas políticas”, como se a presente situação fosse idêntica aquelas outras que o país já viveu.

Pois, fique o “experiente, credível e amortecedor” magistrado a saber, que por este país muita gente há que não se esqueceu. Não se esqueceu dos silêncios que comprometem, nem de acções passadas que aviltam. Pobres como estamos, já pouco temos a perder.

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