antropologia da criança

crianças Picunche, ornamentadas, estudadas por mim ao longo de anos

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Beethoven – Fur elise

«Losotros haulamos dohs idiomas» (não é gralha, é a pronúncia da letra s, sempre aspirada, jamais falada. É a língua huasa).

1. É o que diz Marcelo Castro Morales, o puto de dez anos, uma das quinze crianças a quem a escola C 40 de Pencahue permite pesquisar, comigo, no frio Inverno chileno.

Falamos duas línguas, o castelhano e a huasa. Uma viva polémica se levanta, desenvolvida entre elas, dentro da pequena sala que nos cederam para os trabalhos. Trabalho, que leva o Director do Complejo Educacional de Pencahue (Escola C40 no jargão oficial) a interrogar-se sobre a sua natureza: ensinar o-não-sabe-o-quê desse estrangeiro, sábio Doutor, às 15 crianças escolhidas entre o melhor dos 1.600 estudantes do pré-primário à opção pré-universitária, da população de 9.000 habitantes dos seis sítios rurais e industriais que a comunidade chilena – picunche, clã da Nação Mapuche habita entre o Chile e a Argentina, território que se estende ao longo de 1.000 km2 de

superfície. Território jesuíta, até à sua expulsão no Século XVIII, ficando entre a população o mais importante: o saber, as classificações, a leitura em castelhano e a escrita.

Essas quinze crianças sussurram entre si enquanto eu falo, agridem-se aos pontapés, mais eles do que elas. As raparigas são mulheres, portanto, submissas desde novas, aceitam, sem reclamar, o que os homens fazem. Pontapear é uma manifestação de carinho e de pretensão ao amor da rapariga, à laia Picunche. Rasteiras que elas não delatam para conquistar o rapaz que, se dá pontapés, é por ser muito masculino e macho. Elas não delatam essas rasteiras nem esse agarrar dos seus corpos, elas gostam, eles já sabem do que elas gostam, ficam calmas enquanto eles se batem por elas, e, mal olho para eles, devolvem-me um olhar inocente directamente nos meus olhos, que…

As crianças não sabem que eu estudo a sua mente cultural, e ficam admiradíssimas quando levamos o caderno, o lápis e a borracha e saímos para a rua, onde decorre a lição, que servirá para a minha observação do que elas fazem ao chamarem as pessoas da casa, na pequena vila, perguntando-lhes qual é o nome da rua, uma desculpa qualquer para estabelecer uma conversa com base na realidade: antes, as ruas não tinham nomes, eram nomeadas pelo nome da pessoa mais importante que ai vivesse. Hoje, com toponímia desconhecida das crianças pelo desconhecimento das personagens que lhes dão nome, foi, assim, um excelente pretexto para estudar História do País e do local. As ruas passaram, por ordem do ditador que havia nesses tempos no Chile, a ter nomes históricos, sobretudo De Capitães distintos, como o Conquistador do Chile, Pedro de Valdivia. Ruas que conheciam pelo nome de seis espanhóis, que o seu imaginário fantasiou terem por ali andado.

Os seus olhos pretos, as caras cor de óleo escuro, ficam brilhantes por esta forma inovadora de estudar. De ir porta a porta, pelas casas da vila central da espalhada comuna. E vão ficando surpreendidas quando entendem o seu contexto. É o que Marcelo Castro diz no primeiro minuto do nosso trabalho: ninguém sabia, nas casas, quem era a pessoa que dava nome à rua, assim como não sabiam a idade da casa. Mas, a Francisca Castro, outra das descendentes de Castro que aí moram, ocorre-lhe perguntar pela idade e pela genealogia da pessoa: o que Gustavo Cáceres, e Javier Muñoz, e Yarin Contardo repetem. Os seus apontamentos acumulam contradições entre o livro do 5º ano do ensino básico e o saber cultural que orienta ideias, interacção e disciplina entre adultos e infância. Que desloca a fala quotidiana do haulamos para a oficial do hablamos (falamos). Duas línguas derivadas de dois saberes milenários, saberes ainda paralelos, não apenas duas línguas, mas duas formas de aprendizagem paralelas: a dos Picunche e a dos invasores que escravizaram os seus antepassados e que as crianças não sabiam, facto silenciado nos livros de história do país. A História dos Picunche, considerados pelos chilenos como nativos, não merece lugar nos textos oficiais.

2. Marcelo tem razão, falam duas línguas. Mas, dentro das duas, há mais duas: o castelhano gramatical e o mapudungum letrado e o iletrado. Pencahue, palavra mapudungum dos nativos Picunche do Vale das Cordilheiras, foi abatida em 1569 pelos colonizadores judeus, mouros, ciganos, galegos e lusitanos, que a Coroa Castelhano-leonesa conquistou na Península Ibérica desde o séc. XV. Ignorado pelas crianças, passam a ser três raças: a Picunche, a espanhola e a mestiça. Como os loiros professores ensinam na base dos doutos livros oficiais, mandados pelo governo ditatorial, que tudo esconde, para que não se saiba que o ditador é descendente Picunche, com família ainda na vila seguinte, a de Chanco, que é útil para fabricar o excelente e bem elaborado queijo de Chanco, mercadoria de exportação que rende lucro aos proprietários e ao cofre do tesouro chileno.

Pencahue, ou Terra do Cabaço, em Talca, do original Tralca ou Trovão. Abatida em 1569 pelas armas. Os seus 1.500 anos de saberes, ideias, tecnologias, a sua cosmovisão que regulava a vida social, abatida pela poderosa aliança política da dita Coroa e a Tiara do Papado Católico Tridentino. Nada do dito, exprimido ou sabido pelos doutos investigadores, docentes, e futuros desempregados, os discentes. Das ruas de Pencahue, e a saber já que íamos falar quatro línguas em duas: ou o castelhano oficial, bem como a que ainda permanece viva e predominante: o castelhano do séc. XVI que troca as letras L por R, e F por J, O por U; ou a castelhana huasa com palavras mapudumgum e a das palavras proibidas que perderam nesses dias a força de insultar (por serem escritas, ninguém se irritou com o seu uso). Donde me ensinaram uma língua que eu desconhecia: o chileno, língua mestiça entre a mapudungum original, a mapudungum mestiça, o castelhano antigo e a sua modernização: a Língua Chilena que é-me difícil de entender.

Percorremos e visitamos, sempre a aprender o que na escola não se ensina, toda a área da Comuna de Pencahue, até chegarmos ao cemitério indígena de Huenchumali (irmão-irmã), a primeira reserva de nativos que foram aí fechados para aprenderem a doutrina europeia, que Dalí tão lindamente desenhara nos anos 60 (vide o meu Fugirás à Escola…, Escher 1990, capa). E aí, nessa igreja de barro de 1569, no cemitério Picunche dos seus ancestrais espancados, violados, queimados, abatidos, acorrentados, estes meus quinze putos pencahuinos entenderam a diferença entre o que é preciso saber para ganhar dinheiro, para se reproduzirem no neo-liberalismo e o que é preciso saber para o convívio, a afectividade, a comunicação entre seres humanos que, ou conhecem a sua identidade, ou não conseguem os apoios emotivos da população da terra, para sobreviverem neste país, série de controlo de economias, saberes e medicinas, antes de serem usados na etnia etnocêntrica da Europa. É o que, com Paulo Freire, Meyer Fortes e Jack Goody, fomos fazendo, Antropologia da Educação, ou a análise in situ da formação do saber. Forma de ensino que, ainda vivo, o meu amigo Pierre Bourdieu resistia a chamá-la Pedagogia. E que nós teimamos a aprender no convívio com a infância.

Fonte: os meus diários de campo, os meus prolongados convívios com os Picunche ao longo de anos, especialmente durante o trabalho de campo no ano de 1998, de que resultou dois livros: Como era quando não era o que eu sou. O crescimento das crianças, Porto, Profedições; e O saber Sexual das Crianças. Desejo-te porque te amo, Afrontamento, Porto, ano 2000.

«Losotros haulamos dohs idiomas» (não é gralha, é a pronúncia da letra s, sempre aspirada, jamais falada. É a língua huasa).

1. É o que diz Marcelo Castro Morales, o puto de dez anos, uma das quinze crianças a quem a escola C 40 de Pencahue permite pesquisar, comigo, no frio Inverno chileno.

Falamos duas línguas, o castelhano e a huasa. Uma viva polémica se levanta, desenvolvida entre elas, dentro da pequena sala que nos cederam para os trabalhos. Trabalho, que leva o Director do Complejo Educacional de Pencahue (Escola C40 no jargão oficial) a interrogar-se sobre a sua natureza: ensinar o-não-sabe-o-quê desse estrangeiro, sábio Doutor, às 15 crianças escolhidas entre o melhor dos 1.600 estudantes do pré-primário à opção pré-universitária, da população de 9.000 habitantes dos seis sítios rurais e industriais que a comunidade chilena – picunche, clã da Nação Mapuche habita entre o Chile e a Argentina, território que se estende ao longo de 1.000 km2 de

superfície. Território jesuíta, até à sua expulsão no Século XVIII, ficando entre a população o mais importante: o saber, as classificações, a leitura em castelhano e a escrita.

Essas quinze crianças sussurram entre si enquanto eu falo, agridem-se aos pontapés, mais eles do que elas. As raparigas são mulheres, portanto, submissas desde novas, aceitam, sem reclamar, o que os homens fazem. Pontapear é uma manifestação de carinho e de pretensão ao amor da rapariga, à laia Picunche. Rasteiras que elas não delatam para conquistar o rapaz que, se dá pontapés, é por ser muito masculino e macho. Elas não delatam essas rasteiras nem esse agarrar dos seus corpos, elas gostam, eles já sabem do que elas gostam, ficam calmas enquanto eles se batem por elas, e, mal olho para eles, devolvem-me um olhar inocente directamente nos meus olhos, que…

As crianças não sabem que eu estudo a sua mente cultural, e ficam admiradíssimas quando levamos o caderno, o lápis e a borracha e saímos para a rua, onde decorre a lição, que servirá para a minha observação do que elas fazem ao chamarem as pessoas da casa, na pequena vila, perguntando-lhes qual é o nome da rua, uma desculpa qualquer para estabelecer uma conversa com base na realidade: antes, as ruas não tinham nomes, eram nomeadas pelo nome da pessoa mais importante que ai vivesse. Hoje, com toponímia desconhecida das crianças pelo desconhecimento das personagens que lhes dão nome, foi, assim, um excelente pretexto para estudar História do País e do local. As ruas passaram, por ordem do ditador que havia nesses tempos no Chile, a ter nomes históricos, sobretudo De Capitães distintos, como o Conquistador do Chile, Pedro de Valdivia. Ruas que conheciam pelo nome de seis espanhóis, que o seu imaginário fantasiou terem por ali andado.

Os seus olhos pretos, as caras cor de óleo escuro, ficam brilhantes por esta forma inovadora de estudar. De ir porta a porta, pelas casas da vila central da espalhada comuna. E vão ficando surpreendidas quando entendem o seu contexto. É o que Marcelo Castro diz no primeiro minuto do nosso trabalho: ninguém sabia, nas casas, quem era a pessoa que dava nome à rua, assim como não sabiam a idade da casa. Mas, a Francisca Castro, outra das descendentes de Castro que aí moram, ocorre-lhe perguntar pela idade e pela genealogia da pessoa: o que Gustavo Cáceres, e Javier Muñoz, e Yarin Contardo repetem. Os seus apontamentos acumulam contradições entre o livro do 5º ano do ensino básico e o saber cultural que orienta ideias, interacção e disciplina entre adultos e infância. Que desloca a fala quotidiana do haulamos para a oficial do hablamos (falamos). Duas línguas derivadas de dois saberes milenários, saberes ainda paralelos, não apenas duas línguas, mas duas formas de aprendizagem paralelas: a dos Picunche e a dos invasores que escravizaram os seus antepassados e que as crianças não sabiam, facto silenciado nos livros de história do país. A História dos Picunche, considerados pelos chilenos como nativos, não merece lugar nos textos oficiais.

2. Marcelo tem razão, falam duas línguas. Mas, dentro das duas, há mais duas: o castelhano gramatical e o mapudungum letrado e o iletrado. Pencahue, palavra mapudungum dos nativos Picunche do Vale das Cordilheiras, foi abatida em 1569 pelos colonizadores judeus, mouros, ciganos, galegos e lusitanos, que a Coroa Castelhano-leonesa conquistou na Península Ibérica desde o séc. XV. Ignorado pelas crianças, passam a ser três raças: a Picunche, a espanhola e a mestiça. Como os loiros professores ensinam na base dos doutos livros oficiais, mandados pelo governo ditatorial, que tudo esconde, para que não se saiba que o ditador é descendente Picunche, com família ainda na vila seguinte, a de Chanco, que é útil para fabricar o excelente e bem elaborado queijo de Chanco, mercadoria de exportação que rende lucro aos proprietários e ao cofre do tesouro chileno.

Pencahue, ou Terra do Cabaço, em Talca, do original Tralca ou Trovão. Abatida em 1569 pelas armas. Os seus 1.500 anos de saberes, ideias, tecnologias, a sua cosmovisão que regulava a vida social, abatida pela poderosa aliança política da dita Coroa e a Tiara do Papado Católico Tridentino. Nada do dito, exprimido ou sabido pelos doutos investigadores, docentes, e futuros desempregados, os discentes. Das ruas de Pencahue, e a saber já que íamos falar quatro línguas em duas: ou o castelhano oficial, bem como a que ainda permanece viva e predominante: o castelhano do séc. XVI que troca as letras L por R, e F por J, O por U; ou a castelhana huasa com palavras mapudumgum e a das palavras proibidas que perderam nesses dias a força de insultar (por serem escritas, ninguém se irritou com o seu uso). Donde me ensinaram uma língua que eu desconhecia: o chileno, língua mestiça entre a mapudungum original, a mapudungum mestiça, o castelhano antigo e a sua modernização: a Língua Chilena que é-me difícil de entender.

Percorremos e visitamos, sempre a aprender o que na escola não se ensina, toda a área da Comuna de Pencahue, até chegarmos ao cemitério indígena de Huenchumali (irmão-irmã), a primeira reserva de nativos que foram aí fechados para aprenderem a doutrina europeia, que Dalí tão lindamente desenhara nos anos 60 (vide o meu Fugirás à Escola…, Escher 1990, capa). E aí, nessa igreja de barro de 1569, no cemitério Picunche dos seus ancestrais espancados, violados, queimados, abatidos, acorrentados, estes meus quinze putos pencahuinos entenderam a diferença entre o que é preciso saber para ganhar dinheiro, para se reproduzirem no neo-liberalismo e o que é preciso saber para o convívio, a afectividade, a comunicação entre seres humanos que, ou conhecem a sua identidade, ou não conseguem os apoios emotivos da população da terra, para sobreviverem neste país, série de controlo de economias, saberes e medicinas, antes de serem usados na etnia etnocêntrica da Europa. É o que, com Paulo Freire, Meyer Fortes e Jack Goody, fomos fazendo, Antropologia da Educação, ou a análise in situ da formação do saber. Forma de ensino que, ainda vivo, o meu amigo Pierre Bourdieu resistia a chamá-la Pedagogia. E que nós teimamos a aprender no convívio com a infância.

Fonte: os meus diários de campo, os meus prolongados convívios com os Picunche ao longo de anos, especialmente durante o trabalho de campo no ano de 1998, de que resultou dois livros: Como era quando não era o que eu sou. O crescimento das crianças, Porto, Profedições; e O saber Sexual das Crianças. Desejo-te porque te amo, Afrontamento, Porto, ano 2000.

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