Vidas por um fio

(adão cruz)

Que bem estava assim de papo para o ar quando minha mãe entrou no quarto e me disse:

– Meu filho, está lá fora o Virgolino caçoilo e pede encarecidamente que vás ver o seu filho que está a morrer.

Eu havia chegado nesse momento a Vale de Cambra para um fim-de-semana, vindo do quartel militar da Amadora onde aguardava o meu embarque para a Guiné. Estava cansado porque os trezentos quilómetros da altura não eram os de hoje.

Em toda a minha vida clínica vi muitas vidas por um fio. Mas nenhuma como esta se manteve tão enraizada na minha memória. O rapazito, de cinco ou seis anos, estava estendido numa pequena cama, inconsciente, branco como a cal, exangue. Tinha leucemia, segundo o diagnóstico de um pediatra de Espinho. A seu lado, sentada num pequeno mocho, a Tia Alzira do Baixinho esperava o último suspiro para o preparar.

– Amigo Virgolino, o seu filho está a morrer e precisa sem mal nem morte de uma transfusão de sangue. Tenho de o levar a qualquer lado.

– Nem pense, sr.doutor, o meu filho morre mas morre em casa.

Foi aí que a minha força de jovem médico e o meu sangue na guelra me deram a crueza para lhe responder:

– Pois se você não mo deixa levar, ficará para sempre como culpado da sua morte.

Numa golfada de lágrimas, o pobre do homem, vencido, cedeu:

– Leve-o consigo, sr. doutor, para onde bem entender.

Eu tinha um velho Hillman Minx que era do meu pai. Já noite cerrada, fui chamar um vizinho, o Urgel, e pedi-lhe que viesse comigo. Sentou-se no banco de trás com a criança ao colo e com a velocidade possível dirigi-me ao pequeno hospital de Oliveira de Azeméis. Contactei um colega que ali trabalhava, mais velho do que eu e que eu conhecia, o Dr. Fernando Oliveira e Silva, ainda hoje vivo, a quem esmolei um pouco do sangue que por ali houvesse.

– Lamento muito, meu caro colega e amigo, mas não temos uma gota de sangue.

Corri para a minha carripana que eu muito desejaria que fosse um avião e rumei ao velho Santo António do Porto. Pouca gente se deve lembrar da urgência antiga do Santo António, com seus velhos claustros de paredes escuras e frias. O menino, deitado numa maca e embrulhado num cobertor, fez duas transfusões durante a noite. Ao raiar do dia abriu os olhitos espantados. A cal das suas pequenas bochechas tornara-se levemente rósea.

Foi internado na pediatria onde permaneceu nove meses. O diagnóstico de leucemia nunca foi confirmado, mas sim uma grave doença hemolítica que, muito lenta e progressivamente, se foi compensando.

O Custódio ainda hoje é vivo, pai de filhos e avô de netos.

Comments

  1. graça dias says:

    É mais um conto, do século passado.

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