o dia internacional da mulher no natal

o trabalho que dá à mulher comemorar o dia de natal

Nestes dias, temos falado de Natal, de Orçamento de Estado, de presentes, mas nunca da mulher internacional que prepara estas festas. Essa mulher que trabalha, não apenas para ganhar um ordenado, mas também em labores domésticas, como esse de preparar o natal e as comidas da festa, limpar a casa, limpar às crianças a casa, os tachos e ornamentar a mesa da festa. Difícil tarefa especialmente em dias como este, com frio, chuva e lama que desfaz ornamentos, suja a casa, dá frio e sono e faz das crianças uma sujidade, após banhos, penteados que as mães têm tomado esse especial cuidado para mostrar o melhor do melhor. Será que consegue? Para saber, falemos de mulheres…

Acordei com essa ideia de hoje ser o Dia Internacional da Mulher que comemora o Natal, e enviei mensagens a todas as senhoras que estimo, as minhas amigas íntimas, e que estou certo ser amigo íntimo delas. Várias responderam com essa doçura que esperamos sempre de uma fêmea [1]. Esse ser humano que não é apenas para fazer e ter filhos; não é unicamente um mecanismo reprodutor. Corri à procura de textos meus, e encontrei vários. O que gostei mais, foi esse livro editado em 2000, o título definia tudo [2]. O amor não é um simples desejo erótico, bem como a amizade entre um macho e uma fêmea, nem sempre é desejo: é apenas um carinho simples, um acompanhamento, uma colaboração que pode ou não, passar a ser amor com desejo. Mas, nos tempos que correm, como tenho escrito noutro texto [3], amar e desejar é amplo e ambíguo. Perguntei a uma das minhas lindas amigas e disse-me, neste dia tão especial, que a mulher em Portugal [4] teve que lutar desesperadamente pelos seus direitos de igualdade. Essa igualdade definida por Thomas Jefferson [5] e pelo Abade Emmanuel Sieyés [6], o primeiro, para a Independência das Colónias Inglesas na América do Norte, o segundo, para a França de 1789: Todos nascemos livres e iguais. No caso de França, foi o Abade quem apresentou à Assembleia Constituinte o texto designado Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, comentado por mim no texto de ontem. Mas, a minha amiga esqueceu um facto bem mais importante: quer Jefferson, quer Sieyés escreveram para os homens, nos tempos de mulher fêmea e não Senhora. Não é por acaso que tenho dado esta volta pela História.

· O quê da mulher, em consequência? É bem sabido que apenas nos finais do Século XIX, na Grã-Bretanha, as mulheres conquistaram o poder do direito ao voto, esse direito mínimo para um cidadão que deposita em instituições a sua soberania [7]. Ainda nos países anteriormente citados, a mulher não tinha mais direito do que o de trabalhar para ganhar a vida, ou de viver à custa de outros, caso houvesse posses. Victor Hugo, entre outros livros seus, escreveu Os Miseráveis em 1862 [8], onde explicitamente afirma que a miséria está na alma, não na riqueza. A miséria, não apenas a definida por Victor Hugo, é também a falta de amor, o jogo da sedução, a procura dos homens por mulheres que se deixam seduzir e que sabem seduzir. Entre outras amigas, cumprimentada neste dia especial, recebo esta frase dentro da resposta: “O carinho não acaba de um minuto para o outro, mas não o cultivarei mais, não pretendo entrar no jogo da sedução que, em sua opinião, reserva à mulher um papel pacífico, mera espectadora, sem qualquer papel activo no mesmo, a aguardar passiva e pacientemente que o outro se lembre que ela existe. Lamento, mas não é meu hábito «atirar-me» aos homens, mas também não sou uma mulher de Atenas” [9]. Jogo de sedução que a minha amiga sabe muito bem-fazer, mas não permite que mais ninguém faça. Senhora que merece um ramo de rosas neste inventado dia compensatório do abandono que as mulheres têm sofrido ao longo do tempo. Até Senhoras dentro da política, adoptam modelos e comportamentos masculinos para governar a testosterona que as rodeia [10] e que causa âmago, tristeza, diminuição da mulher ao pé deles. Hormona controlável, como Mahatma Ghandi o fez ao libertar-se das suas posses, passando a ser pobre e, assim, abandonar a casta denominada A boca (Brâmanes), que representa os sacerdotes, filósofos e professores, e integrar a casta de Os pés (Sudras) onde se colocam os artesãos, os operários e os camponeses [11], para libertar a Índia do jugo estrangeiro e ser autónoma, o que lhe custou a vida. A referência às mulheres que governam, poucas por enquanto e em países Ocidentais, excepto no Hawai, onde quem manda deve ser mulher, ou entre os Arapesh do Noroeste da Papua Nova Guiné, e no Antigo Egipto, é sobretudo para ressaltar que os postos de mando sempre foram, entre Estados e Etnias, para os homens. Por tal motivo, torna-se necessário rebaixar a hormona masculina no macho e alimentar na luta, a testosterona da mulher. Não é por acaso que a divindade ocidental é masculina e denominada pai. A mulher tem lutado contra isto, mesmo perdendo amores e carinhos.

Muitos de nós, à antiga, adoramos oferecer ramos de rosas ou plantas e de respeitar a Senhora que está ao pé de nós. Como em Portugal. A minha amiga ao telefone, relatava que a luta das mulheres tinha sido empreendida por Marx no Século XIX denunciando a exploração da mulher no seu trabalho e na sua forma de vida e que o direito ao exercício da soberania estava reservado, só às mulheres que comprovassem o seu saber. Saber reconhecido e legitimado pelas instituições de ensino que, de acordo com o género, para o caso português, corresponderiam também graus diferentes a atingir. Assim, durante a vigência da primeira república, implantada a 5 de Outubro de 1910, para as mulheres era exigido o 7º ano do Liceu, enquanto para os homens a segunda classe era suficiente. Na segunda república, implantada pelo golpe militar de 28 de Maio de 1926, verificou-se um forte retrocesso em todos as esferas da vida social, nomeadamente no ensino, donde não é de estranhar que para o exercício do voto, em 1969, quer aos homens quer às mulheres fosse meramente exigido o saber ler e escrever. Só com a revolução de Abril, nas primeiras eleições livres e democráticas, realizadas em 1975, todos os cidadãos inscritos nos cadernos eleitorais podiam exercer a sua plena soberania, soubessem ou não ler e escrever.

Após imensas lutas, nascem os denominados direitos das mulheres [12]. Como membro activo da Amnistia Internacional, parece-me que estes direitos, criados pela ONU em 2008, aplicados ou não, conforme a Soberania dos Estados, enquanto não estiverem sancionados, como todo o Direito humano, pela convenção de Genebra e se, violados, julgados no Tribunal Internacional de Direitos Humanos de Haia, são apenas um ramo de rosas do namorado para a namorada. No seu desespero, as mulheres procuram protecção e de repente, amam perdidamente. Os homens à antiga gostam de proteger. Nós, os que lutamos pelos direitos humanos, denunciamos esses direitos não conhecidos e denominamos Dia Internacional da Mulher como apenas uma compensação pensada, mas nunca paga.

O amor é outra coisa: não precisa orgasmo, nem pretende abafar o mais fraco na relação. Pelo contrário: estimula essa soberania individual que era, normalmente, depositada no mais poderoso. No casal, na pessoa de maior hierarquia; no povo, em instituições que nos governam como entendem. A maior parte das vezes, mal. Assim, cá vamos andando na crise económica e no abandono, sem saber para onde olhar por causa de amores perdidos, que apenas souberam resistir à cólera do mal entendido, como descreve Garcia Márquez no seu afamado livro Amor en los tiempos del cólera. O dia Internacional da mulher nada recompensa, excepto as lojas de flores e o comércio que vende presentes embelezados…imensamente caros.

Por mim, gosto mais de repousar no ombro confiante da outra pessoa e denominar Dulcinea a mulher que ame, por ser doce, respeitosa, acarinhada e respeitadora da autonomia do outro, seja, nos tempos de hoje, heterossexual ou homossexual. A liberdade de opção para amar, nasceu, se não entendo mal, antes de Adam Smith[13] ter escrito o seu inquérito sobre a riqueza das nações, em 1776. Contudo, há um outro inquérito ainda em falta: sobre a opção do amor e das razões que levam as mulheres a lutar tanto, a meu ver, para nada. Precisam ainda de um Miguel de Cervantes, esse autor da mais importante obra em castelhano, Don Quixote de La Mancha. Mas isso aconteceu em 1605 e 1615. No Século XXI, onde ficam as/os dulcineos? Procuro…..mas há tantos ao pé de mim, que nem sei para onde me devo virar. Ao certo, só sei que não deve haver um dia internacional da mulher, porque esse, de facto, acontece todos os dias….

[1] O dicionário que me apoia na minha escrita diz: indivíduo cujos órgãos reprodutores produzem um óvulo. Achei a resposta fria, calculadora e interesseira. Em: http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx

[2] Iturra, Raúl, 2000: O saber sexual das crianças, desejo-te porque te amo, Afrontamento, Porto. Retirado dos comentários do jornal Terras da Beira, de 20.06.00, em: http://www.freipedro.pt/tb/290600/soc9.htm

[3] Iturra Raúl: 26 de Fevereiro de 2009: “Portugal tem dois problemas: a crise económica e o matrimónio homossexual”, Semanário O Interior, em www.ointerior.pt

[4] A História da Mulher em Portugal, está narrada em: http://www.mulheres-ps20.ipp.pt/Hist_mulheres_em_portugal.htm

[5] Thomas Jefferson (Shadwell, Virgínia, 13 de Abril de 1743 ? Monticello, Virgínia, 4 de Julho de 1826) foi um advogado e político estadunidense, terceiro presidente dos Estados Unidos da América (de 1801 a 1809). Além de estadista, foi também um filósofo político, um revolucionário, proprietário agrícola, arquitecto, arqueólogo, autor e um espírito elucidativo do Iluminismo. Em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Jefferson Redigiu a Acta de Independência dos treze Estados que se libertaram do jugo estrangeiro, assinada no Congresso a 4 de Julho de 1776: http://pt.wikipedia.org/wiki/Declara%C3%A7%C3%A3o_da_Independ%C3%AAncia_Americana

[6] Emmanuel Joseph Sieyès (Fréjus, 3 de maio de 1748 – Paris, 20 de junho de 1836) foi um político, escritor e eclesiástico francês. Em 26 de Agosto de 1789, no meio da Revolução Francesa, foi elaborada a Acta dos direitos do homem e do cidadão: http://pt.wikipedia.org/wiki/Emmanuel_Joseph_Siey%C3%A8s . A declaração está no texto central.

[7] Soberania popular é a doutrina pela qual o Estado é criado e sujeito à vontade das pessoas, que são a fonte de todo o poder político. Está intimamente associada aos filósofos contratualistas, A soberania popular é uma ideia que decorre da Escola contratualista (de 1650 a 1750), representada por Thomas Hobbes (1588-1679), John Locke (1632-1704) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). A doutrina central é a de que a legitimidade do governo ou da lei está baseada no consentimento dos governados. A soberania popular é assim uma doutrina básica da maioria das democracias. Mais texto, em:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Soberania_popular.  

[8] Hugo, Victor, 1862: Les Misérables., várias edições, em:  http://csisson.wordpress.com/2008/10/22/les-miserables-1862/ .

[9] Por motivos éticos, calo o nome da Senhora que assim me escrevera em resposta a uma paixão desenfreada que me acontece quando conheço Mulheres valentes, disciplinadas de um agir de alto risco na sua vida, como também homens e mulheres que sabem lutar pelos seus direitos de opção de amor e que defendo nos meus textos e em palestras.

[10] Testosterona é uma hormona asteróides produzida, tanto nos Homens quanto nas Mulheres. Nos homens pelos testículos (os quais também produzem espermatozóides e uma série de outras hormonas que controlam o desenvolvimento normal e o seu funcionamento, nos indivíduos do sexo feminino, pelos ovários, e, em pequena quantidade em ambos, também pelas glândulas supra-renais. Pode-se ressaltar que a síntese da testosterona é estimulada pela acção do LH (hormónio luteinizante), que por sua vez é produzido pela pituitária anterior (adenohipófise ou simplesmente hipófise). Mais texto, em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Testosterona.

[11] História completa, em:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Mahatma_Gandhi#Biografia  

1. [12] O termo Direitos da Mulher refere-se à liberdade inerente e reclamada pelas mulheres de todas as idades, direitos ignorados ou ilegalmente suprimidos por leis ou por costumes de uma sociedade em particular. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), são direitos das mulheres:

2. Direito à vida.

3. Direito à liberdade e à segurança pessoal.

4. Direito à igualdade e a estar livre de todas as formas de discriminação.

5. Direito à liberdade de pensamento.

6. Direito à informação e à educação.

7. Direito à privacidade.

8. Direito à saúde e à protecção desta.

9. Direito a construir relacionamento conjugal e a planejar sua família.

10. Direito à decidir ter ou não ter filhos e quando tê-los.

11. Direito aos benefícios do progresso científico.

12. Direito à liberdade de reunião e participação política

13. Direito a não ser submetida a torturas e maltrato.

Em:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Direitos_da_mulher  

[13] Smith, Adam, 1776::An inquiry into the reason and causes of the wealth of nations, o texto todo pode ser lido em:  http://www.bibliomania.com/2/1/65/112/frameset.html  Em formato de papel e comigo, a Edição Original, George Routledge and Sons, Londres

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