Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido

continuação daqui

Perante o enorme descontentamento do eleitorado socialista e em virtude da crescente contestação das bases, muitas das quais, pela primeira vez, começariam a tratar o seu secretário-geral com alguma hostilidade, Soares resolve tirar nova carta «da manga» para calar os contestatários, anunciando negociações para a entrada em bloco do pequeno grupo de ex-dirigentes do MES, conhecidos como Grupo de Intervenção Socialista. Para muitos, a determinação de Soares em fazer entrar este grupo no PS pela porta grande era revelador do seu enorme complexo de esquerda. Para o secretário-geral do PS a esquerda tinha que ser bem falante e engravatada e, de preferência, ter contestado o salazarismo duma posição de privilégio. O grupo do ex-MES era isso mesmo. Criado após o 25 de Abril como manifestação de repúdio pelo convite de Sottomayor Cardia a um pequeno grupo de amigos, liderado por Jorge Sampaio, para integrar a manifestação do PS e convencidos de que «o PS não ia longe», o MES apareceria pela primeira vez no dia 1 de Maio de 1974. E, sem nenhum relevo, aquele grupo abandonaria o Movimento da Esquerda Socialista ainda nesse ano, para se constituir em Grupo de Intervenção Socialista. Entre 1974 e 1978 funcionaria como uma espécie de grupo de apoio às teses mais radicais do MFA tendo mesmo defendido, em 1975, a tese de que votar em branco era votar no MFA. Em 1975, no IV Governo Provisório, Jorge Sampaio seria secretário de Estado da Cooperação e João Cravinho ministro da Indústria, tendo ficado ao lado de Vasco Gonçalves mais tempo do que seria democraticamente recomendável. Em 1978, quando Soares lhes dirige novo convite, o Grupo de Intervenção Socialista é praticamente desconhecido em Portugal.
A troco da cobertura ao Governo PS/CDS, o GIS entraria em bloco para o PS, de uma forma tão óbvia e superficial, que os novos socialistas não escapariam às acusações de oportunismo, de ex-camaradas seus. Um deles declarar-se-ia mesmo «chocado com a entrada no PS, naquele exacto momento». Também a nível do Secretariado Nacional do PS muitos seriam os que se oporiam a uma tal negociação, com destaque para Salgado Zenha, Jaime Gama e Jorge Campinos. Manuel Tito de Morais, por natureza avesso a este tipo de negociações e sempre pronto a erguer a bandeira dos princípios do partido, era também contra, mas a sua oposição à coligação era de tal maneira sentida que achou a entrada dos «GIS» um mal menor. Admitiria mesmo que poderiam dar uma pitadinha de «esquerdismo» a um PS que ele então considerava perigosamente numa rota de direita.
O que ninguém conseguiria explicar, contudo, era de que forma este grupo poderia alterar para melhor a performance do impopular governo e — mais importante ainda — como é que poderiam evitar o que já muitos previam vir a ser uma série de inevitáveis desastres eleitorais futuros! Só que a Intervenção Socialista, que, na altura, de «intervenção» só tinha o nome, não conseguira anteriormente intervir de forma visível na política nacional, por muito respeitável que tivesse sido o passado universitário de alguns dos seus membros. Na realidade, a sua única intervenção de relevo, enquanto organização autónoma, seria a negociação com Mário Soares, perante uma série de dirigentes resignados e impotentes. Durante a curtíssima duração deste segundo Governo, as intervenções de Salgado Zenha no Secretariado Nacional deixariam de ser os seus habituais comentários sarcásticos ao seu velho amigo, para se transformarem numa crítica acérrima e mordaz a todas as decisões impostas pelo secretário-geral e que ele classificaria de «monárquicas». Algo contudo se tinha modificado na co-relação de forças.
A maior parte dos dirigentes do PS ou eram então deputados ou, na previsão de que os Governos não durariam, começariam a ocupar o aparelho de Estado e as empresas públicas. Duvido assim que se Zenha tivesse então esboçado a menor intenção de contestar a liderança do partido ainda tivesse o êxito que quase certamente esteve à sua mão até ao início do I Governo Constitucional. Mas Zenha era um homem de princípios.
Dizia o que pensava com lealdade e sem o menor sinal de querer substituir o secretário-geral do partido. Mas também era evidente que a relação entre ambos era de grande agastamento e que caminhava numa rota de colisão.
Para além da descaracterização que o acordo PS/CDS representaria, anulando todos os anteriores argumentos utilizados para «evitar» o acordo lógico que Sá Carneiro preconizava para estabilizar a democracia e engrandecer o socialismo democrático, foi também durante a vigência dos dois primeiros governos que o PS alterou a sua política de dependência de ajudas internacionais, mais ou menos indiscriminadas, para projectos concretos de natureza político-económica. Foram criadas as primeiras Fundações que teriam no PS um papel de grande relevo. Mário Soares seria sempre o primeiro fundador de todas elas e a República Federal da Alemanha e os Estados Unidos da América passariam assim a ter um papel determinante na vida política portuguesa.
Os enormes fundos das fundações políticas alemãs, ligadas aos partidos Social-Democrata, Democrata Cristão e Liberal, eram postos à disposição destas pelo Estado alemão para garantir, no estrangeiro, a abertura de portas aos interesses daquele país. Nos países onde estas fundações actuam, às vezes com gestos de solidariedade em tempos difíceis, como foi o caso do apoio ao PS português durante a clandestinidade, há sempre uma fundação alemã ideologicamente próxima do governo desse país.
No caso português houve sempre fundações para as diferentes alternativas: A Friedrich Ebert ligada ao PS, a Konrad Adenauer ao CDS e a Friedrich Naumann ao PSD. Por outro lado, mostrando maior displicência pelas áreas económicas, os Estados Unidos mostrar-se-iam mais interessados na disponibilidade do secretário-geral do PS para veicular as suas ideias no quadro da política internacional, por um lado e, pelo outro, pela garantia de controlo de meios que impedissem novos descarrilamentos de Portugal da sua rota ocidental. O que estava em jogo no campo da luta pela liderança global era de longe superior a quaisquer interesses pontuais de empresários americanos.
A Fundação José Fontana seria constituída em Outubro de 1977, por vinte e cinco fundadores com um capital inicial de mil contos. Dirigida por Maldonado Gonelha viria a movimentar algumas centenas de milhares de contos, oriundos principalmente da Alemanha mas também da Suécia, da Noruega e dos Estados Unidos. A ideia da constituição desta fundação seria da sua congénere alemã, que desde logo tinha o movimento sindical em mente. Uma ideia que era igualmente compartilhada pela CIA e pela confederação sindical americana, AFL/CIO. Michael Boggs e Irving Brown, frequentemente conotados com as actividades dos serviços secretos americanos, tinham estado em Portugal em 1975 e recomendariam nos EUA apoio à constituição de uma confederação
sindical alternativa. Irving Brown estaria de novo entre nós, como um dos convidados internacionais no II Congresso do PS. Embora tudo indique que não tenha havido concertação entre eles, ambos — alemães e americanos — estariam de acordo em que a posição do secretário nacional do PS e ministro do Trabalho do I Governo Constitucional, Marcelo Curto, era pouco clara. Pelo contrário a do seu secretário de Estado, Maldonado Gonelha, estaria em perfeita sintonia com eles, quanto à necessidade de constituição de uma central sindical alternativa. Em Março, Gonelha substituiria Marcelo Curto como ministro do Trabalho e prepararia o documento conhecido por «a questão sindical» sobre estratégia sindical a seguir pelo Partido Socialista. Este seria aprovado com grande polémica na Comissão Nacional do PS, em Maio de 1977.
A partir daí, a Fundação José Fontana passaria a ser o embrião da União Geral de Trabalhadores, que teria o seu primeiro Congresso na cidade do Porto, em Janeiro de 1979.

A Fundação Antero de Quental, Centro de Estudos Municipais e de Acção Regional seria constituída em Fevereiro de 1978, por dezoito fundadores e com um capital inicial de quinhentos contos. A partir desta fundação, que teve como primeiros presidentes, sucessivamente, Jorge Campinos, José Manuel Duarte e António Sousa Gomes, seria definida toda a estratégia eleitoral autárquica do Partido Socialista.
A Fundação Azedo Gneco dirigiu-se, segundo critérios traçados pela experiência alemã, para o apoio ao cooperativismo e seria dirigida por Eduardo Pereira. Revelar-se-ia um fracasso no quadro das actividades do Partido e a sua sede, na Rua do Salitre, acabaria por transitar para a Juventude Socialista. A quarta fundação era o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento, menina dos olhos de ouro de Salgado Zenha, que ainda existe com bastante sucesso, publicando estudos de qualidade. A sua primeira directora seria Teresa Ambrósio e, a partir de 1979, seria o refúgio do chamado «ex-secretariado» do PS, chegando mesmo a criar divisões internas na própria «Fundação Ebert» entre o seu secretário-geral, Gunter Grunwald, que apoiria Mário Soares e o seu vice-presidente, Horst Heiderman, que apoiaria aquele grupo. Para que se tenha uma ideia, o financiamento da Fundação Friedrich Ebert a estas quatro instituições, só no ano de 1979, seria de 8800 contos para o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento (IED),
13800 contos para a Fundação Azedo Gneco, 10000 contos para a Fundação Antero de Quental e 45 400 contos para a José Fontana. Na nota que a Fundação Ebert então enviou ao secretário-geral e ao Departamento Internacional do PS, esta previa adicionar, nesse ano, 1000 contos para um seminário a efectuar pelo IED, sete seminários de duas semanas e 20 participantes em cada um, mais um seminário de uma semana e 20 participantes, todos na Alemanha, a organizar com a Fundação Azedo Gneco. Previa-se aumentar o orçamento da Fundação Antero de Quental com um montante avaliado entre mais cinco a sete mil contos e juntar ao orçamento da Fundação José Fontana vários programas de convite para sindicalistas da UGT.
A própria sede da José Fontana, uma magnífica e enorme moradia no Restelo, seria comprada com uma verba especial da Fundação Ebert, tendo eu e o tesoureiro do PS, Fernando Barroso, assinado a escritura de compra. Esse prédio valerá hoje umas centenas de milhar de contos.
Tanto quanto me foi possível apurar, da Confederação Sindical Sueca LO, da organização de Educação operária ABF e da Noruega foram enviados para a José Fontana muitos milhares de contos, alguns dos quais especificados em Anexo.
A Noruega financiaria ainda com papel e com quatro carrinhas «Ford Transit» o diário Portugal Hoje e o Instituto de Imprensa Democrática com 1,7 milhões de coroas assim como a organização que eles consideravam ligada ao PS e dirigida por Maria Irene Zenha e Maria José Gama, Associação de Serviço de Apoio Social. Os dirigentes partidários noruegueses que coordenavam então os apoios a Portugal eram Lars Glans que dirigia então a imprensa social-democrata norueguesa e hoje é dono de uma próspera agência de publicidade e Kaare Sandegren, secretário internacional da poderosa central sindical LO, cargo que ainda hoje ocupa.
Na Suécia coordenavam Rolf Theorin a nível de partido, Erik Karlsson e Rune Molin a nível da central sindical e Torsten Wetterblad, a nível do movimento de educação de trabalhadores, ABF. Os apoios da central sindical norte-americana, AFL/CIO, eram coordenados por Irving Brown e por Michael Boggs que, a 7 de Julho de 1977, visitou secretamente a Fundação. Por determinação de Mário Soares, o representante da Fundação Ebert em Lisboa e os escandinavos, estavam impedidos de ter conhecimento das relações cruzadas da Fundação José Fontana com os americanos. E em virtude de rumores que de vez em quando circulavam sobre o assunto, esse tipo de relacionamento era sempre desmentido.

O Aventar disponibiliza a obra completa aqui.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.