João Paulo II, a beatificação de um ultramontano

A beatificação de João Paulo II terá lugar no Dia do Trabalhador,  coincidente, este ano, com o Dia da Divina Misericórdia, instituído pelo citado papa em 2000.

João Paulo II sucedeu, como se sabe, a João Paulo I, cuja  causas da morte, após 33 dias de papado, permanecem misteriosas. David Yallop, no livro “Em nome de Deus”, adianta algumas teses, admitindo  a hipótese de envenenamento. João Paulo I, Albino Luciani de nome de baptismo, era um homem progressista, comprometido com as novas concepções e as doutrinas sociais emanadas do Concílio Vaticano II, em 1962, por iniciativa de João XXIII. Conquanto sob forma mitigada, com Paulo VI houve alguma continuidade.

João Paulo I perseguia o objectivo da intervenção efectiva da ICAR no combate à pobreza, em sintonia com a Teologia da Libertação integrada na práxis católica reconhecida pelo concílio. Tinha igualmente o propósito de libertar o Vaticano das diabólicas  fraudes financeiras, patrocinadas pelo maquiavélico Marcinkus, por sua vez correlacionadas com a falência do Banco Ambrosiano, a morte do ex-admistrador desse banco, Calvi, e ainda a ligação à loja maçónica P2.

Com hipocrisia, o polaco Karol Wojtyla escolheu ser o papa João Paulo II. Procurou iludir o mundo com a imagem de continuador do antecessor. Uma autêntica farsa, porquanto comportou-se justamente de modo inverso. Em conjugação com o actual papa, Bento XVI, então cardeal Ratzinguer e  dirigente supremo da retrógrada Congregação para a Doutrina e Fé, Wojtyla concebeu e executou a estratégia de desmoronamento da Teologia da Libertação na América Latina. Conseguiu afastar o brasileiro Leonardo Boff e outros religiosos sul-americanos e ignorou as posições do arcebispo salvadorenho, Oscar Romero. Este acabaria por ser assassinado a tiro, durante uma homília em San Salvador, por membro da elite militar afecta ao governo tirano e pró-americano que, em 1980, dirigia o país. Hipocritamente, Wojtyla declarou-o servo de deus, após a morte.

Por outro lado, e depois da justiça italiana considerar Marcinkus suspeito no processo da morte de Calvi, João Paulo II conseguiu, em 1990, que o nefasto e corrupto cardeal deixasse em liberdade o Vaticano e se refugiasse na sua pátria, os EUA.

Crentes e parte da opinião pública podem considerar positivo o empenho de João Paulo II na queda dos regimes comunistas, a começar pela sua Polónia. Todavia, o equilíbrio e a justiça social exigiam o correspondente empenhamento, junto dos centros do poder político, na defesa da justiça social, no combate ao capitalismo selvagem que colocou o mundo na situação complexa em que vivemos e ainda na luta pela consolidação e alargamento do Estado Social que, à boleia da queda do muro de Berlim, se torna, a cada dia, mais volátil.  Tudo isto é exigir demais à hierarquia católica promotora do regresso à “Grande Disciplina”, ou seja, às doutrinas por que a Igreja Católica Apostólica Romana se pautou de 1800 a 1962, ano do Concílio Vaticano II.

Os conservadores católicos – a meu ver, os fanáticos incapazes de criticar – com Bento XVI, autor em 1984 da Libertatis Nuntius (Instruções sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação), permanecem tranquilos quanto à continuidade dos princípios doutrinários e dogmas característicos do Ultramontanismo. A mim, agnóstico confesso, compete-me combater e denunciar o comportamento retrógrado e desumano da ICAR.  Mesmo que procure distrair o mundo através de artifícios, dos quais  uma beatificação do tipo daquela com que se pretende inscrever na história João Paulo II. Provavelmente, a seguir, virá a canonização. Quem sabe? Os homens do Vaticano, de certeza.

Comments

  1. xico says:

    De acordo com a sua bonita prosa, todos nós ficámos a saber qual era o projecto que João Paulo I tinha, apesar dos trinta e três dias de papado que não devem ter sido suficientes para provar as vestes papais, mas foram suficientes para toda a gente perceber qual era o seu projecto.Sabendo desse projecto sabemos assim que João Paulo II não foi o seu continuador!
    Os papas, como os artistas de cinema, são sempre bons quando morrem cedo. Será? E então aqueles “bandidos”, fechados num conclave, foram votar um homem para depois o envenenarem!?Lê Dan Brown em demasia…
    Um papa não gere nem administra uma nação onde todos têm mais ou menos a mesma mentalidade e cultura. Gere uma igreja universal onde os crentes não pensam todos do mesmo modo nem têm todos o mesmo grau cultural. Por isso, por vezes tem de andar devagar, para que todos acompanhem e ninguém fique para trás. Se Boff tinha preocupações sociais, também as tinha JPII. Saber quais dos dois tinha razão nos métodos a aplicar, é uma questão de opinião e de estudo. Não foi certamente para fazer fretes ao capitalismo selvagem. A Igreja foi das primeiras a levantar a voz contra o capitalismo selvagem, muito antes do concílio vaticano II.

    • carlos fonseca says:

      Obrigado pela hipócrita simpatia, mas dispenso o elogio da bonita prosa. Quanto a Dan Brown, arrumamos já a questão: não o leio.
      Tive o cuidado de sustentar o meu texto com várias ligações esclarecedoras quanto às personalidades e eventos citados. Compreendo que a referência a João Paulo I o incomode, mas ignorar que cito João XXIII, Paulo VI, o Concílio Vaticano II e a Teologia da Libertação que, na sequência deste, foi reconhecida pela ICAR, é elucidativo da visão parcial, ou mesmo deturpada, com que reagiu ao meu texto. O assassinato do arcebispo Romero, tal como para JP II, é para si despiciendo.
      A tão comprovada falta de honestidade intelectual da sua parte é razão mais do que suficiente para não perder mais tempo com o seu comentário.
      Dou por encerrada a questão.

      • xico says:

        Bem sei que encerrou a questão. Está no seu direito.
        Só gostaria de lhe perguntar onde fui desonesto. Não refutei nada do que disse para além de achar que saber qual era o pensamento e o projecto de JP I, em 33 dias de pontificado parece-me um abuso. Depois defendi o direito de JP II tomar opções que nos possam parecer criticáveis, mas que devem merecer o benefício da dúvida quanto às intenções. Não foi a igreja que assassinou Romero, ao que julgo saber.
        As referências a JP I não me incomodam em nada. Pode estar certo, tem a minha palavra, que não fiz parte da conspiração para o “assassinar”.


  2. Amigo carlos Fonseca, eu estou inteiramente de acordo consigo. Sem tirar nem pôr. Se João Paulo II vai ser beato, não faltará muito para eu ser santo. Pelo menos ninguém me pode acusar de manigâncias semelhantes às de João Paulo II em relação à conivência na manutenção das fraudes financeiras do vaticano, e a sua colaboração em todas as manobras de encobrimento dos crimes praticados pela igreja em todos os sectores. Está tudo mais que descrito em vários livros profundamente sérios. Só não não etende quem não quer entender. A santidade de João Paulo II faz-me rir, como me faz rir o milagre que despoletou o processo de beatificação. Um pobre indivíduo, “choné” de todo, ele mesmo com Parkinson, não cura a sua doença, para curar a mesma doença na pessoa de uma freira. Isto é demasiado ridículo para levar a sério. Se as pessoas crentes nesta coisa têm o humano direito de manifestarem a sua crença, eu também tenho o humano direito de dizer que acho esta patranha de um requintado ridículo. Mas isso não me incomoda a ponta de um corno. Já me incomoda o facto de pessoas inteligentes dentro da igreja, exultarem com esta chachada. Donde concluo que me é muito mais fácil acreditar na sua hipocrisia e na ideia de que eles acreditam nesta treta tanto como eu acredito, do que numa verdadeira crença. Não é possível.

    • xico says:

      Adão Cruz
      Não vou discutir consigo a minha crença nem a sua descrença. Nem sequer os milagres verdadeiros ou inventados de João Paulo II.
      Simplesmente a sua frase de que: “Um pobre indivíduo, “choné” de todo, ele mesmo com Parkinson, não cura a sua doença, para curar a mesma doença na pessoa de uma freira”
      Julgo saber que é médico, por isso o assombro por tamanha barbaridade que disse.
      Saiba que ao longo da história, houveram padres, freiras e médicos, que se expuseram a perigos para tratar de doentes correndo o perigo de eles próprios a apanherm. Foi assim com a varíola no passado, na América, é assim com a Sida, hoje em África. Mal estaríamos se estes homens e mulheres se preocupassem com a sua saúde ao invés da de outros.
      É ao médico que falo. Não ao descrente.
      Quanto às manigâncias, é certo que o senhor deve ser no assunto muito mais “beato” que João Paulo II. Quando julgo os outros, gosto de pensar o que faria na situação com que eles se confrontaram, e não com a minha bondade devido ao facto de não ter que tomar decisões sobre casos abstrusos. Felizmente para mim. A uns é mais fácil ser santo que a outros. Basta não ter que conviver com o mal. Não é o caso dos papas.

    • carlos fonseca says:

      Amigo Adão Cruz,

      Como médico e homem bastante culto, saberá melhor do que eu que a ICAR sempre sentiu grande incómodo no convívio com a ciência. Desde os tempos de Galileu e das teorias de Francis Bacon, sécúlo XVI, que há sinais inequívocos da recusa clerical das leis científicas.
      Em concreto, é por força dos progressos da ciência médica que os humanos, nas sociedades dotadas de cuidados médicos eficazes, desfrutam hoje da expectativa de esperança de vida à volta dos 80 anos. Isto deve-se. de facto, ao trabalho científico de investigadores, médicos, biólogos, químicos e profissionais de outras áreas científicas, assim como à existência de equipamentos de saúde funcionais.
      Portanto, podem plantar milhares de igrejas, capelas e altares por África que as taxas de mortalidade não baixam por efeito de milagres. De resto, como diz, JPII morreu de Parkinson, a patologia de que, alegada e “milagrosamente”, curou uma freira francesa. Todos os dias se lavava, barbeava, penteava, coçava e, no fundo, fazia périplos manuais pelo seu próprio corpo. Todavia, nunca conseguiu os resultados alcançados com a simples carícia de uma mão pelo frontespício de uma freira. Seria estranho, se não soubessemos da patranha.

      • xico says:

        O tratamento da Sida em África, deve-se em grande parte ao trabalho da igreja no campo, reconhecido pela OMS, com risco de vida para os próprios missionários que tratam os doentes com medicina, não com altares nem milagres. Onde está a honestidade?

  3. maria monteiro says:

    e agora vão andar tão entretidos a prepararem a festança que se esquecem dos pobres… também se compreende… o Natal ainda vem longe.

    • carlos fonseca says:

      Maria,

      O triste é ser esquecido, por opção doutrinária retrógada, pelas elites do Vaticano e seus tentáculos nacionais. Os membros da igreja que, em conjugação com análises sociais e activistas consistentes, lutam contra as desigualdades e a pobreza, são sistematicamente banidos pelos ultramontanos. Triste e desumano.

  4. maria monteiro says:

    Pois é Carlos. Eu conheço alguns.

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