Francisco José Viegas, a “liberdade artística” e a ingerência dos tecnocratas…

…que defendem menos estado (até nas águas, por exemplo) e o impõem onde, verdadeiramente, não devem.

Já aqui notei a inconsistência das declarações “literárias” do secretário de Estado da Cultura sobre liberdade artística e as práticas de programação que preconiza para a Cinemateca Portuguesa, Companhia Nacional de Bailado e Teatros Nacionais, numa perspectiva que, por absurdo (?) e em última análise, os poderia tornar veículos de uma “cultura” oficial emanada do aparelho de estado.

Eis o que, sobre o assunto, diz Augusto M. Seabra num artigo apropriadamente intitulado SOS Cultura:

Francisco José Viegas pretende que os teatros nacionais, companhia de bailado e cinemateca discutam com o seu gabinete a programação e que sejam tidos em conta os resultados de bilheteira – em 35 anos de Democracia nunca assistimos a nada assim na Cultura! Depois acrescenta que “não porá em causa nem um milímetro a autonomia artística”, o que é uma evidente contradição.

É normal e correcto que uma entidade pública apresenta à tutela o seu plano de actividades, o que é algo de mais lato. Mas discutir com aquela a programação, tendo nomeadamente em conta os resultados de bilheteira, isso é que não. Ao longo de muitos anos tenho expressado a preocupação com a correcta gestão das entidades culturais públicas e com a relação entre custos de produção e taxas de ocupação. Mas os teatros nacionais, e o teatro com apoio público em geral, não podem ser confundidos com produções de Filipe La Féria ou da UAU.

Vejamos por exemplo o Dona Maria: tem a sala principal e também a sala estúdio, desde logo com vocações diferentes. E desde a estabilização, com Maria João Brilhante a presidir à administração e Diogo Infante como director artístico, tem havido uma política equilibrada, inclusive com enormes sucessos – por exemplo, até é de espantar que um êxito com semanas de lotações esgotadas como o “Édipo Rei” de Sofocles não tenha sido reposto em temporadas subsequentes, como é prática internacional corrente. Era o que faltava que equipas de programação competentes tivessem de ir discutir aquela com adjuntos e assessores de Viegas. Isto é inaudito na Europa e grave, gravíssimo.

Comments

  1. Guido Brunetti says:

    Aqui deixo o comentário que fiz ao texto de A. M. Seabra

    “O autor do texto, quando diz que com o PRACE “a maioria dos Monumentos Nacionais, até então na tutela das Obras Públicas, foram transferidos para o Património.” demonstra uma ignorância total no que diz respeito ao que foi a administração pública da área do Património nos últimos 30 anos. Mais uma vez se toca de ouvido, fazendo opinião, sobre esta matéria. Isto tem servido para discutir e defender modelos de intervenção e gestão completamente caducos, para não dizer fascistas. E assim vamos cantando e rindo!”